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Flesh (2025) David Szalay

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Terminei " Flesh"  com uma sensação estranha: a de ter sido arrastado por um livro que sabe perfeitamente como me manter a virar páginas, e, ao mesmo tempo, a de ter assistido a um exercício de escrita que se recusa a fazer aquilo que eu peço à literatura quando ela decide aproximar-se do humano. Szalay tem uma competência objetiva: criar movimento narrativo . Há sempre qualquer coisa a acontecer; há sempre um pequeno desvio, uma ameaça, um próximo passo. E isso fabrica expectativa. A expectativa dá energia. E a energia dá “page-turning”. O problema é quando, no fim, percebemos que o livro estava a viver do crédito dessa expectativa, e não da consequência real do que acontece. O que me irritou, no fundo, foi isto: Flesh reúne material com potencial explosivo — trauma, classe, migração, masculinidade, guerra, sexo, dinheiro, violência — mas não o converte em interioridade, nem transformação. O romance acumula “matéria” e recusa o processo alquímico que faria dessa matéria alg...

Tudo o Que Um Homem É (2016) David Szalay

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"Tudo o Que Um Homem É", de David Szalay, chegou-me como promessa de “retrato do homem contemporâneo”. Não tendo já muitas expectativas sobre esse tal “homem moderno”, olhei para o livro com desconfiança. Comecei a ler e, em poucas páginas, bateu-me uma sensação paradoxal: por um lado, o texto é competente, direto, sem floreados desnecessários; por outro, o que domina é sexo – corpos, encontros, impulsos mal resolvidos. A minha primeira reação foi irritação. Senti algo que conheço demasiado bem, não enquanto experiência pessoal, mas enquanto retórica: o jovem perdido, o homem deslocado, o sexo como escape e como prova de qualquer coisa que ele próprio não sabe o que é. No início, a minha vontade foi abandonar. Percebia a perícia técnica, mas não via o que é que me acrescentaria seguir mais um homem imaturo a tropeçar em corpos e situações sexualmente carregadas. O sexo, aqui, aparece com a previsibilidade de um mecanismo de relógio: há sempre um encontro em potência, um cor...

Sussurros (2007) de Orlando Figes

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O que " The Whisperers: Private Life in Stalin's Russia " (2007), de Orlando Figes, faz não é apenas contar o terror político soviético. Outros livros já contaram o terror político soviético. Este vai mais fundo: entra na vida interior das pessoas que viveram debaixo desse regime. Mostra como a política entra na cabeça, na família, no que se pode ou não dizer à mesa, no que se confia aos filhos, no que se cala até ao fim da vida. É um livro sobre medo, mas não o medo “lá fora”, dos uniformes e dos interrogatórios. É o medo que mexe na gramática do dia-a-dia. O medo que ensina o corpo a falar mais baixo. Em Figes, o "sussurro "( whisper ) não é um recurso poético. É uma técnica de sobrevivência. Fala-se em voz baixa porque as paredes ouvem, porque o vizinho pode denunciar, porque o filho pode repetir na escola. A frase inteira deixa de ser um direito. Fica apenas é um resto de voz, num corredor, numa cozinha, numa cama partilhada. Foi este livro que me obrigou a ...

Nuremberga (2025)

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Terminei Nuremberga  (2025) com uma sensação clara: este é um filme tecnicamente competente, com atores sólidos e um mundo bem construído, mas falha no ponto essencial. Falha na forma como representa Hermann Goering. E falha de um modo que considero grave. Começo pelo que funciona. Hollywood sabe bem criar mundo. A atmosfera institucional e o peso visual da época são muito bem feitos. O filme tem textura e transmite credibilidade visual. Os atores ajudam a sustentar esse mundo. Russell Crowe, Michael Shannon e o resto do elenco têm presença e dão corpo às figuras históricas.  O problema não está na encenação nem nas interpretações isoladas. Está no guião e na construção dramática. O filme é montado em sequências curtas, pensadas para provocar emoção rápida, mas raramente desenvolve pensamento ou conflito até às últimas consequências. São “bocados” de cenas, “bocados” de conversas, “bocados” de tensão, que se sucedem sem verdadeira progressão. Não há tempo para conhecer ninguém...

"Sentimental Value" (2025) de Joachim Trier

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"Sentimental Value" solicita um investimento excessivo do espectador, sem que a sua arquitetura narrativa o sustente o suficiente. A sequência inicial, marcada por autoconsciência e teatralização, compromete desde cedo o pacto de adesão, ao expor os seus próprios dispositivos antes de instaurar densidade dramática. Em lugar de permitir que os afetos emerjam progressivamente da ação, o filme apoia-se reiteradamente em pausas formais, ecrãs negros e mecanismos de explicitação indireta que operam mais como sinais de profundidade do que como aprofundamento da experiência. Ainda assim, é possível identificar momentos de autenticidade que emergem apesar das fragilidades estruturais do conjunto. A saída de Elle Fanning introduz um princípio de fricção e de deslocamento interno que o filme até então evitara. A partir daí a personagem da irmã mais nova, interpretada por Inga Ibsdotter Lilleaas, afirma-se em crescendo como o verdadeiro eixo emocional da narrativa. É sobretudo no seu co...

Contos dos Subúrbios (2025) de Karim Vali

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" Contos dos Subúrbios" não se impõe por surpresa, mas por nitidez. A escrita de Karim Vali é limpa, controlada, muitas vezes elegante, uma escrita que sabe o que está a fazer e onde se posiciona. Cada conto avança com segurança, sustentado por uma consciência clara do mundo contemporâneo e das suas fraturas: identidade, pertença, desigualdade, olhar social. O que se reconhece de imediato no livro é a sua capacidade de falar de vidas correntes, de pessoas que atravessam o quotidiano carregando um peso interior constante, raramente nomeado. A atenção está aqui focada na experiência subjetiva daqueles que vivem nos interstícios, entre classes, entre identidades. Não é uma atenção sensacionalista; é reflexiva.  A escrita de Vali é profundamente consciente do seu tempo. Tudo é depurado em conceitos e categorias, a ponto de, por vezes, o real já se apresentar como explicação. O sofrimento, o desconforto, surgem filtrados por uma grelha interpretativa, quase demasiado sólida. O le...

A Leste do Paraíso (1952) de John Steinbeck

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"A Leste do Paraíso", de John Steinbeck, opera sobre uma falha monumental. A narrativa assenta numa leitura direta do mito bíblico de Caim e Abel — um mito que nunca considerei intelectualmente sustentável: Deus escolhe Abel, não explica porquê; Caim reage e torna-se o culpado absoluto. Narrativamente, isto é um erro básico. Eticamente, é um crime simbólico. Personagens sem motivações compreensíveis, ações sem causa explicada e uma moral arbitrária imposta por autoridade — não construída por experiência humana — ensinam apenas que a exclusão pode ser arbitrária, que a culpa pode preceder a ação e que um ser humano não precisa de ser compreendido para ser condenado. Steinbeck transpõe este modelo para um romance que se apresenta como realista, mas o resultado é profundamente frágil: personagens que são boas ou más “porque sim”, um mal tratado como essência e não como processo, e um conflito humano reduzido a alegoria infantil. Não encontro aqui realismo, nem naturalismo, ...