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Comer o Buda (2020)

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Com muita pena, não funcionou comigo. Vinha com imensas expectativas, queria muito lê-lo, pois tinha adorado “Nothing to Envy” (2009) , focado na Coreia do Norte. A abordagem aqui seguida é muito próxima. Demick escolhe um conjunto de personagens da cidade de Ngaba , no Tibete, e segue os fios narrativos das suas vidas. Contudo, as histórias destes personagens acabam por falhar na explanação do real alcance dos efeitos da invasão e totalitarismo imposto pela China no Tibete.     A contextualização da invasão, nos anos 1950, apresenta um bom recorte do que aconteceu, colocando a nu a colonização forçada, realizada pela China em pleno século XX. Surpreende que tenha sido possível, contudo o livro de Demick caracteriza suficientemente o povo tibetano para compreendermos o fundo da questão. Ao fim de décadas a sonhar com pacifismo, aprendi que no nosso planeta não existe lugar para tal. Se um país quer ser independente, tem de lutar por isso. Mesmo o pacifismo de Gandhi não foi...

Um dos Nossos (2023)

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Tinha muitas expectativas quando peguei neste livro de Willa Cather. Adorei os seus “ The Professor's House ” e “ Minha Antónia ”. O registo aproxima-se, contudo estende-se além do sustentável pela narrativa, nomeadamente por ser quebrada em dois grandes momentos, a vida no interior dos EUA, e a partida para a Primeira Grande Guerra, por parte do personagem principal. Se na primeira parte a personagem parece querer evidencar algo particular de si, o modo como se sente desligado de tudo, a fazer recordar Stoner, contudo nada acabando por efetivamente desvelar-se, na segunda parte entramos num outro território, tão distinto a ponto de o próprio personagem servir apenas de veículo à narrativa, refugiando-se numa concha daquilo que foi apresentado na primeira parte. Compreendo o Pulitzer dado em 1923, cinco anos apenas após o fim da terrível guerra. Mas é um livro incapaz de sobreviver ao tempo, a falta do contexto experiencial duro dessa era afasta-nos, torna distante a leitura, o int...

Vidas Seguintes (2022)

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Abdulrazak Gurnah recebeu o  Nobel em 2021 , tendo este "Vidas Seguintes" saído no ano seguinte. Foi o único que li até agora do autor. Mas pelo que li sobre o mesmo, vem na linha dos seus livros anteriores. A escrita de Gurnah é, sem dúvida, um dos pontos altos. A prosa, é caracterizada por um lirismo discreto e preciso, capaz de nos hipnotizar. Impressiona o modo como evitando a ação, nos consegue prender pela mera descrição do que acontece. Nomeadamente, os personagens munidos de uma calma imensa, quase ausentes de emocionalidade, levam-nos pela mão, convencendo-nos a aceitar o trauma como uma inevitabilidade. Isto é tanto mais relevante por se focar nas questões da colonização de África pela Europa, que alegadamente aconteceu sem oposição. Como se Gurnah precisasse dessa encenação para dar conta da profundidade do choque produzido pela colonização. A narrativa é deliberadamente arrastada, fornecendo detalhes históricos e culturais, despidos da esperada emocionalidade trág...

Eu Que Nunca Conheci Homens (1995)

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“I Who Have Never Known Men” (1995) de Jacqueline Harpman parece ser apenas mais uma distopia feminina, na senda de “ A História de uma Serva (1985) ” de Margaret Atwood, contudo, em termos do questionamento que nos faz, está em linha com todas as outras grandes distopias — “Nós” (1921) de Evguén Zamiátin, "Metropolis" (1927) Fritz Lang, "Admirável Mundo Novo" (1932) Aldous Huxley, "Mil Novecentos e Oitenta e Quatro" (1948) George Orwell, "Fahrenheit 451" (1953) Ray Bradbury. Diria mesmo que de todas estas é a mais ampla e profunda, para o que terá contribuído o facto de Jacqueline Harpman ser psicanalista. O livro foi escrito em 1995 e lançado sem grande impacto. Harpman era belga, com uma carreira limitada ao mercado francófono. Contudo, em 2019 quando a Penguin (através da Vintage) resolveu traduzir o livro para inglês e lançá-lo por meio de uma forte campanha online viria a atingir a viralidade no TikTok. A campanha foi acompanhada por açõ...

Platão nos anos 2000

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"Plato at the Googleplex" (2014) é um livro difícil, com algumas partes hilariantes que ajudam a ultrapassar as mais densas, mas que em essência me fizeram compreender de que é feita a filosofia que há tantos anos leio com entusiasmo. Neste trabalho Goldstein dá conta da atualidade das ideias de Platão, ao trazê-lo para os anos 2000, colocando-o a debater questões que continuam sem resposta desde a Antiga Grécia, evidenciando que apesar da evolução do conhecimento científico, a forma da filosofia continua atual. Nesse sentido, a dialética é a base, é ela mesma a própria filosofia. Importa o processo de argumentação e contra-argumentação, e não propriamente a meta, a resposta final. As grandes discussões assentam em paradoxos ou em equilíbrios de partes contraditórias, pelo que a discussão pode ser infinita, com Goldenstein a afirmar que o progresso é “invisible because it is incorporated into our points of view. . . . We don’t see it, because we see with it.” . Ou seja, a fil...

Generalistas e Especialistas, mais uma vez

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O tema é extremamente importante, mas o livro, apesar de algumas partes boas, não passa de um conjunto de histórias coladas umas atrás das outras. É jornalismo de ciência, serve bem a quem nunca ouviu falar do assunto, mas o assunto está longe de ser novo. Isto para não dizer que os dotes de contar histórias de Epstein ficam alguns pontos abaixo de outros autores que fizeram carreira na escrita deste tipo de livros — Malcolm Gladwell, Geoffrey Colvin ou Daniel Coyle — criando várias zonas de tédio ao longo do livro, especialmente pela repetição da estrutura dos capítulos — história principal, estudos, histórias — ausente de foco e ligação ao todo. Concordo que no domínio dos desportos, música e competição a tradição nos tem trazido quase só livros focados no treino intensivo desde cedo, as 10 mil horas — “ Outliers: The Story of Success ” (2008) de Malcolm Gladwell; “ Talent Is Overrated: What Really Separates World-Class Performers from Everybody Else ” (2008) de Geoffrey Colvin, ou “...

A extinção da razão

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 “The Extinction of Experience: Being Human in a Disembodied World” (2024) era um livro que eu queria muito ler e queria muito gostar. Mas Christine Rosen não escreveu um livro sobre a Experiência Humana, antes listou um rol de queixas contra as mais recentes tecnologias de comunicação — ecrãs, smartphones, rede sociais, realidade virtual, IA, etc —, falhando na sustentação com evidências para a maior parte dessas queixas. Não basta citar um artigo aqui e um estudo ali. As evidências de impactos sociais, mais ainda no caso dos psicológicos, requerem amplos estudos, muito acima dos normais 30, 40 ou 60 individuos dos estudos isolados. Requerem replicação cuidada nas mais diversas culturas e circunstâncias e manutenção das condições e evidências ao longo do tempo. Utilizar estudos isolados para tecer causalidades sobre o estado da civilização como um todo é ingenuidade, para não dizer algo pior. Tanto aqui, como no outro, muito mais badalado, e já traduzido em Portugal, livro, “ A Ge...