Mensagens

Não-Humano (1948)

Imagem
Há livros que nos obrigam a confrontar o abismo da experiência humana, e há livros que apenas nos apontam esse abismo com indiferença. "Não-Humano", de Osamu Dazai, pretende ser o retrato cru da alienação moderna, mas o que encontrei foi antes o relato algo lânguido de uma existência parasitária, encenada com elegância mas vazia de verdadeiro impacto. A história gira em torno de Yozo, um jovem incapaz de se integrar na sociedade, desprovido de sentido existencial, movendo-se entre máscaras sociais, vícios e relações falhadas. Desde cedo se apresenta como alguém diferente, incompreendido, inadaptado – mas nunca se torna mais do que isso. O que poderia ser o ponto de partida para um confronto profundo com a condição humana transforma-se numa deriva repetitiva, onde o protagonista jamais se sujeita a um embate real com a vida. A escrita de Dazai é cuidada, por vezes até bela na sua secura. Mas o estilo nunca resgata a matéria: o protagonista não se constrói, não se revela, não s...

Atos Humanos (2014)

Imagem
Há livros que não se leem apenas — atravessam-nos. Atos Humanos, de Han Kang, é um desses livros. Terminei a leitura durante a semana que passou, mas ainda não me desliguei dele. Não é um romance que se devore; é um texto que se suporta, por vezes com dificuldade, como quem segura na mão um fragmento de memórias indigestas mas necessárias. Desconhecia os acontecimentos de Gwangju em 1980. Foi um choque. Sei o quão dificil tem sido a história da Coreia do Sul, desde a relação com o Japão, ao problema da divisão nunca sanada entre norte e sul, mas não tinha ideia das ditaduras que governaram o país nos anos mais recentes, e menos ainda desta violentíssimo golpe de Estado e de todo o horror que se lhe seguiu. A brutalidade da repressão, a frieza institucional, e sobretudo o apagamento deliberado da história. Ao dar corpo a essas vozes silenciadas, Han Kang transforma o romance numa forma de acusação e num veículo de memória coletiva. Se em A Vegetariana já se sentia uma escrita afiad...

"Careless People" (2025), diz mais sobre a autora do que sobre a Meta

Imagem
Comecei a ler " Careless People: A Cautionary Tale of Power, Greed, and Lost Idealism " (2025), de Sarah Wynn-Williams, com alguma expectativa. Os bastidores do Facebook, revelados por uma antiga diretora de políticas públicas, prometiam um testemunho direto sobre os conflitos éticos numa das empresas mais influentes das últimas duas décadas. Esperava encontrar uma análise crítica, sim, mas também ponderada, talvez mesmo auto-reflexiva. O que encontrei, contudo, foi um texto em que a denúncia se transforma numa narrativa unidimensional, saturada por ressentimento, onde todas as outras figuras — dos próprios pais à liderança da Meta — são retratadas como tontas, desatentas ou moralmente falidas. Se para muitos, o livro serve de catarse em mais um ataque ao Facebook, para mim funcionou como desconfiança do que se ia dizendo até à total descredibilização da história e da autora. É importante reconhecer que "Careless People" se insere no género do whistleblower memoir ....

Escrever com a Máquina: reflexão sobre Autoria, Colaboração e Significado

Imagem
Durante as últimas semanas tenho-me encontrado, cada vez com mais frequência, a escrever com um assistente IA. Digo "com" de forma consciente: não me refiro apenas ao uso instrumental de uma ferramenta, mas a uma prática que tem revelado, de forma inesperada, traços de colaboração, de diálogo e até de transcendência. Esta experiência levou-me a questionar, com alguma ansiedade e profundidade, a natureza da criação, a ética da autoria e o que significa escrever com — e não apenas através de — uma entidade sem ego. Organizo aqui, como forma de registo e partilha, três grandes dimensões dessa reflexão. 1. A Experiência da Co-escrita com uma IA O que me atrai inicialmente nesta prática é a fluidez. Escrever com a IA reduz o peso da mecânica textual — já não preciso de lutar com cada frase, de reestruturar cada parágrafo. Mas o que me surpreende é que, paradoxalmente, essa leveza vem acompanhada de maior profundidade reflexiva. Ao libertar-me das tarefas formais, encontro espaço m...

Notas sobre "Everything Must Go" (2025)

Imagem
Terminei recentemente a leitura de Everything Must Go: The Stories We Tell About the End of the World de Dorian Lynskey, ou, para ser honesto, li até ao meio e depois fui lendo na diagonal. Não que o livro não tenha o seu valor. Lynskey apresenta um levantamento cronológico impressionante das narrativas sobre o fim do mundo, começando na Bíblia e avançando pelos séculos, atravessando temas como o último homem, a bomba, as máquinas ou pandemias. Um trabalho árduo, sem dúvida. Porém, a sensação dominante ao virar cada página foi a de uma oportunidade desperdiçada. O problema não está sequer na escolha de um enfoque marcadamente ocidental e cristão — uma limitação evidente, mas que aceitaria se viesse acompanhada de uma proposta clara. O verdadeiro vazio do livro reside naquilo que nele falta: pensamento. Lynskey faz um inventário, mas nunca arrisca uma interpretação, nunca procura responder ao que estes mitos e medos revelam sobre nós enquanto espécie, cultura ou sociedade. Tudo se...

Adolescence (2025): O realismo da incompreensão

Imagem
Em tempos de saturação audiovisual, quando tudo parece já ter sido tentado e filmado, surge uma série capaz de nos desarmar por completo. "Adolescence" (2025) , cocriada por Stephen Graham e Jack Thorne, impõe-se como uma experiência tão avassaladora quanto singular, não apenas pelo que mostra, mas sobretudo pelo que recusa mostrar. A série apresenta-se em quatro episódios, cada um filmado num único plano-sequência contínuo, conjugado com grandes planos (close-ups) sufocantes, criando uma imersão emocional de intensidade quase insuportável. A técnica formal não é mero exercício de estilo. O uso do plano-sequência sem cortes, aliado à proximidade extrema dos rostos das personagens, elimina qualquer possibilidade de distanciamento. Somos arrastados para dentro do espaço emocional dos protagonistas sem respiro, sem possibilidade de fuga. A câmara não nos oferece alívio; ao contrário, mantém-nos reféns, obrigando-nos a confrontar cada expressão, cada silêncio, cada hesitação. Lem...

Ego Tunnel de Thomas Metzinger

Imagem
Em "The Ego Tunnel" (2010) Thomas Metzinger propõe uma tese radical sobre a natureza da consciência e do “eu”. O autor sugere que aquilo a que chamamos “consciência” é, na verdade, uma espécie de interface de realidade gerada pelo cérebro – um “túnel” onde apenas certas informações são filtradas e apresentadas à perceção consciente. Daqui decorre a conclusão de que o “self” – a noção de um “eu” sólido e coeso – constitui um produto do funcionamento cerebral, não tendo existência independente para além dessa representação interna.  Para Metzinger, a consciência não espelha fielmente o mundo externo; em vez disso, oferece-nos uma versão simplificada e funcional da realidade. Esse “túnel” assegura-nos uma experiência estável e contínua de “quem somos” e de “onde estamos”, mas ocultando a verdadeira complexidade do mundo. Para isto contribui muito do trabalho de Benjamin Libet que questiona existência de livre-arbítrio. Não concordando com um conjunto de pontos, decidi alinhar os...