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Homero em Pompeia

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Ver uma imagem antiga raramente é apenas ver o passado. Às vezes é ver o passado pelos olhos do seu próprio passado.  Foi isso que senti ao ver, num documentário sobre Pompeia, um fresco com Paris e Helena de Troia . A imagem tem cerca de dois mil anos. Mas a história que ela representa já era, para os romanos que a pintaram e contemplaram, uma história antiga. Também eles herdavam figuras, narrativas e gestos vindos de muito longe.  No centro está escrito —ΑΛΕΞΑΝΔΡΟΣ ΕΛΕΝΗ (Alexandros [Paris] — Helen) — em grego, o que evidencia o reconhecimento que a elite romana atribuía à cultura grega.  Num instante, a ideia do tempo torna-se experiência. O tempo deixa de ser cronologia e passa a ser peso. É aí que nasce o arrepio. Não vem da beleza da imagem, nem da sua raridade arqueológica. Vem da consciência súbita da escala. Uma vida humana dura quase nada. Setenta ou oitenta anos são pouco mais do que um acidente mínimo dentro da longa duração da cultura. E, no entanto, é dent...

The Mattering Instinct (2026) de Rebeca Goldstein

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“The Mattering Instinct”, de Rebecca Goldstein, não vem anunciar nenhuma revelação nem abrir uma via realmente nova, embora se aproxime de uma das questões mais antigas de todas. A autora diz que não está a escrever “sobre o sentido da vida”, mas essa recusa é mais estratégica do que real: é disso que o livro trata, embora prefira fazê-lo a partir de uma pergunta mais concreta e psicologicamente manejável — o que fazemos para sentir que importamos, e com que custos . A estrutura é narrativa. Goldstein escreve por vinhetas: histórias de gente comum, histórias de figuras conhecidas, e passagens que funcionam como micro-aulas de filosofia em tom de conversa. Passamos por William James (o melhor do livro, para mim), por Bertrand Russell, por Baruch Spinoza, entre outros. Há uma tentativa clara de convencer-nos que o impulso de “mattering” não é só uma obsessão individual; é antes uma força que estrutura a cultura, a moral, o humano. O coração conceptual do livro está no “mattering map”, qu...

A Colónia (2023) Annika Norlin

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Acabei A Colónia , de Annika Norlin, no domingo passado, e fiquei com aquela sensação rara de ter encontrado um livro que acrescenta algo a uma fórmula já gasta. Não me interessa muito quando um romance se limita a confirmar o que já sabemos, ainda que o faça com competência. Confesso, aliás, um preconceito inicial, daqueles bacocos — sabendo que Annika Norlin vinha da música, pensei que talvez não houvesse ali espessura suficiente para sustentar um romance deste tipo. Foi um erro. E dos bons, porque corrigido pela leitura. A Colónia não impressiona por exibir profundidade filosófica, mas por a traduzir em densidade psicológica. Não se arma em tratado sobre o humano, não se encena como grande tese sobre comunidade ou pertença. Faz algo mais difícil: observa, com uma precisão capaz de nos colocar lá dentro e de revelar algo que talvez ainda não víssemos em nós mesmos. À superfície, o romance pode ser lido como uma história de afastamento do mundo, de vida em comunidade, de procura de o...

Tudo o Que Um Homem É (2016) David Szalay

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"Tudo o Que Um Homem É", de David Szalay, chegou-me como promessa de “retrato do homem contemporâneo”. Não tendo já muitas expectativas sobre esse tal “homem moderno”, olhei para o livro com desconfiança. Comecei a ler e, em poucas páginas, bateu-me uma sensação paradoxal: por um lado, o texto é competente, direto, sem floreados desnecessários; por outro, o que domina é sexo – corpos, encontros, impulsos mal resolvidos. A minha primeira reação foi irritação. Senti algo que conheço demasiado bem, não enquanto experiência pessoal, mas enquanto retórica: o jovem perdido, o homem deslocado, o sexo como escape e como prova de qualquer coisa que ele próprio não sabe o que é. No início, a minha vontade foi abandonar. Percebia a perícia técnica, mas não via o que é que me acrescentaria seguir mais um homem imaturo a tropeçar em corpos e situações sexualmente carregadas. O sexo, aqui, aparece com a previsibilidade de um mecanismo de relógio: há sempre um encontro em potência, um cor...

Sentir antes de dizer

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O livro " Sentience: The Invention of Consciousness " (2022) de Nicholas Humphrey propõe uma explicação funcional da consciência que a aproxima de uma estratégia evolutiva de sobrevivência. A sua tese central distingue entre dois tipos de consciência — a cognitiva e a fenomenológica —, sendo esta última a que dá cor e textura à experiência de estar vivo. Humphrey descreve a consciência não como uma janela para o mundo, mas como um palco interno onde o organismo sente o impacto de estar no mundo. Viver, para Humphrey, é assum mais do que existir, é sentir.  Este ponto de partida, que aproxima a consciência da emoção, sugere uma base comum com autores como António Damásio (1994), para quem a consciência emerge do corpo e das emoções que regulam a sua homeostasia. No entanto, à medida que o livro avança, Humphrey hesita em assumir essa ligação plena. Quando se aproxima da animalidade ou do corpo como sede do sentir, recua para explicações adaptativas, evitando nomear a emoção....

Uma breve História da Inteligência

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" A Brief History of Intelligence: Evolution, AI, and the Five Breakthroughs That Made Our Brains " (2023) de Max Bennett é uma obra que nos transporta numa viagem fascinante pela evolução da inteligência humana, explorando como os avanços biológicos moldaram a nossa capacidade cognitiva e como essa visão tem vindo a informar o desenvolvimento da inteligência artificial (IA). Bennett identifica cinco transformações cruciais na evolução do cérebro biológico que suportariam os avanços na inteligência humana, cada um construído sobre o anterior para culminar na forma de inteligência que caracteriza hoje os seres humanos. O primeiro avanço, a Direção ( steering ) , refere-se à capacidade de se mover intencionalmente em resposta a estímulos. Este é o ponto de partida para qualquer forma de vida interagir com o ambiente de forma eficaz, permitindo aos organismos satisfazer necessidades básicas como encontrar alimento ou evitar predadores. A direção é fundamental para a sobrevivênci...

Jogar com a Realidade (2024)

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O livro " Playing with Reality: How Games Have Shaped Our World " (2024) da neurocientista Kelly Clancy, é uma obra fascinante que explora a intrincada relação entre os jogos e a construção de realidade. Num tom académico, mas muito acessível, Clancy conduz o leitor por uma viagem histórica, filosófica e científica, demonstrando como os jogos, desde os mais simples aos mais complexos, têm influenciado e moldado as sociedades, as culturas e até mesmo a forma como percebemos o mundo, deixando alguns avisos claros sobre a excessiva crença nos mesmos. A autora estrutura o livro em torno de uma tese central: os jogos não são meras distrações ou passatempos, mas sim ferramentas poderosas que têm desempenhado um papel crucial na evolução humana. Clancy argumenta que os jogos são uma forma de simulação da realidade, algo que tenho vindo a considerar na última década, permitindo-nos experimentar, aprender e prever resultados em contextos controlados. Esta capacidade de "jogar...

Generalistas e Especialistas, mais uma vez

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O tema é extremamente importante, mas o livro, apesar de algumas partes boas, não passa de um conjunto de histórias coladas umas atrás das outras. É jornalismo de ciência, serve bem a quem nunca ouviu falar do assunto, mas o assunto está longe de ser novo. Isto para não dizer que os dotes de contar histórias de Epstein ficam alguns pontos abaixo de outros autores que fizeram carreira na escrita deste tipo de livros — Malcolm Gladwell, Geoffrey Colvin ou Daniel Coyle — criando várias zonas de tédio ao longo do livro, especialmente pela repetição da estrutura dos capítulos — história principal, estudos, histórias — ausente de foco e ligação ao todo. Concordo que no domínio dos desportos, música e competição a tradição nos tem trazido quase só livros focados no treino intensivo desde cedo, as 10 mil horas — “ Outliers: The Story of Success ” (2008) de Malcolm Gladwell; “ Talent Is Overrated: What Really Separates World-Class Performers from Everybody Else ” (2008) de Geoffrey Colvin, ou “...

O simplismo de "Atomic Habits"

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"Atomic Habits" (2018) está no top dos livros de não-ficção e de auto-ajuda há vários anos. Inicialmente não lhe prestei atenção, pois não me parecia trazer nada de novo. Contudo, com o passar dos anos, e com tanta recomendação, acabei por ceder a dedicar-lhe alguma atenção e tentar perceber o que tínhamos ali. A intuição inicial estava certa. Não só não há aqui nada de novo, como o que aqui temos apesar de poder parecer muito interessante para um número alargado de pessoas, pode transformar-se em algo problemático para quem padece de reais patologias do foro psicológico. O problema, é que o comportamento humano é algo tão complexo como aquilo que faz de nós aquilo que somos, e se reduzido a conjunto de indicadores simplistas —que até podem ser aplicados no design de um serviço ou de uma máquina — não devem ser listados, vendidos, desta forma como prontos a resolver os problemas de tudo e todos. A isto juntam-se as certezas do autor, dignas do autoconvencimento do ChatGPT. O ...

Os Quatro Reinos da Existência (2023)

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" The Four Realms of Existence: A New Theory of Being Human " (2023) não passa de um amontoado de ideias do autor, misturadas com ideias de outros autores, sobre as quais LeDoux foi refletindo enquanto estava preso em casa durante a pandemia COVID-19. Falta-lhe uma ideia, uma estrutura capaz de construir e entregar essa nova ideia, falta muita edição e reescrita. LeDoux limita-se a juntar tudo num novo envelope a que dá o nome de Quatro Reinos da Existência divididos entre Biológico, Neurobiológico, Cognitivo e Consciente. Não se percebe o que são esses reinos, nem porquê estes quarto e não apenas 3, nomeadamente na relação entre o cognitivo e o consciente, mas não só. Mais à frente resolve pegar no modelo sistema dual da cognição, definido por Daniel Kahneman, para o repropor como sistema trial, acrescentando-lhe os reinos Neurobiológico e Consciente ao cognitivo, deixando de fora o biológico!   Mas tudo isto não me chocaria, dado todo o trabalho prévio de LeDoux, o enorme...