Mensagens

A mostrar mensagens com a etiqueta Opressão

O Viajante à Luz da Lua (1937) Antal Szerb

Imagem
Comecei O Viajante à Luz da Lua (1937), de Antal Szerb, com entusiasmo, mas fui perdendo alguma paciência com Mihály, e as suas crises existenciais atravessadas pelo conforto que também já tinha visto em Thoreau. Um homem em lua-de-mel que se perde da mulher em Itália e decide continuar perdido. Tem dinheiro, cultura, mobilidade, pessoas que o ajudam. Pode ir embora. Pode regressar. Move-se em busca de algo que não sabe o que é. Durante bastante tempo pareceu-me mera deambulação infantil. Fuga às obrigações. O problema não era o não acontecer nada. Nem a lentidão. Nem a veia satírica de Szerb. Era não sentir resistência no enredo. Não sentir que alguma coisa estivesse verdadeiramente em jogo em todo aquele flâneurismo . Durante boa parte de O Viajante à Luz da Lua , pensei em desistir, até encontrar Erwin num mosteiro em Itália. Diria que foi uma espécie de primeira fissura naquele mundo quase onírico de fuga e perda inicial. Porque se Mihály passa todo o tempo a fantasiar a possibili...

A Colónia (2023) Annika Norlin

Imagem
Acabei A Colónia , de Annika Norlin, no domingo passado, e fiquei com aquela sensação rara de ter encontrado um livro que acrescenta algo a uma fórmula já gasta. Não me interessa muito quando um romance se limita a confirmar o que já sabemos, ainda que o faça com competência. Confesso, aliás, um preconceito inicial, daqueles bacocos — sabendo que Annika Norlin vinha da música, pensei que talvez não houvesse ali espessura suficiente para sustentar um romance deste tipo. Foi um erro. E dos bons, porque corrigido pela leitura. A Colónia não impressiona por exibir profundidade filosófica, mas por a traduzir em densidade psicológica. Não se arma em tratado sobre o humano, não se encena como grande tese sobre comunidade ou pertença. Faz algo mais difícil: observa, com uma precisão capaz de nos colocar lá dentro e de revelar algo que talvez ainda não víssemos em nós mesmos. À superfície, o romance pode ser lido como uma história de afastamento do mundo, de vida em comunidade, de procura de o...

Proust, roman familial (2023), Laure Murat

Imagem
Há uma aristocracia francesa que sobreviveu à Revolução sem nunca verdadeiramente cair. Não desapareceu: adaptou-se. Conservou títulos, rituais e, acima de tudo, uma forma de estar onde tudo se decide na superfície: nos modos, na contenção, na etiqueta, que funcionam como código moral. Laure Murat nasceu dentro desse mundo. É a partir dessa origem que escreve " Proust, roman familial" (2023). O livro não é um estudo académico sobre " A la Recherche du Temps Perdu " (1913-1927). É mais íntimo e mais incisivo: Murat lê Proust a partir da ferida de ter pertencido ao mesmo universo que ele descreveu e criticou. E, ao fazê-lo, mostra que a aristocracia francesa não é um resquício do passado, mas uma forma de vida ainda ativa, estrutural, discreta e eficaz. A ideia central é simples e terrível: na aristocracia, a vida não se vive, representa-se.  A imagem é a lei. A intimidade, o desejo, o sofrimento, a identidade, tudo deve permanecer dentro do quadro previamente defini...

Vadio (2022), Simão Cayatte

Imagem
Há filmes em que o poder não vem do guião, mas da forma como a câmara decide existir no espaço. Vadio é um desses filmes. A história de dois jovens que se encontram num país cansado poderia ter caído na ilustração moral ou no comentário social previsível. Mas Cayatte filma de perto — quase demais — e essa proximidade altera tudo. A câmara está colada ao corpo. Não observa: acompanha. O movimento dos ombros, o respirar curto, a maneira de desviar o olhar; é aí que se joga o filme. A referência é clara: os irmãos Dardenne. A narrativa não se constrói por explicação psicológica, mas pela força física de estar no mundo. É por isso que Rubén Simões, o miúdo, carrega o filme. Ele não interpreta sofrimento: ele move-se como alguém que o conhece. Há verdade no gesto, no ritmo com que suporta a rua, no modo como protege o silêncio. A parceria com Joana Santos funciona, mas é ele que dá densidade, gravidade, permanência. O problema é que o guião tenta conduzir o drama. Há um tema forte — o a...

Les Indésirables, a tragédia da interdependência

Imagem
O mais recente filme de Ladj Ly,  Les Indésirables (2023), quer denunciar a indiferença do Estado francês, mas o que acaba por mostrar é mais complicado do que parece. A história passa-se num prédio em ruína, habitado por famílias pobres e imigrantes. Ly culpa a Câmara e o novo presidente, mas o que se vê no ecrã vai além da má gestão pública: é a decomposição de um espaço que perdeu o sentido de comunidade. As paredes partidas, os corredores vandalizados, o lixo acumulado, nada disso é apenas culpa do poder. É também o reflexo de um colapso simbólico: pessoas vindas de países diferentes, sem laços nem memória comum, que foram ali encaixadas e deixadas a sobreviver lado a lado. E quando não há sentimento de pertença, o “comum” deixa de ser de todos, passa a ser de ninguém. Ly mostra a revolta justa dos moradores, mas não compreende o outro lado: o da França pobre e de classe média, que também luta, também paga, e sente que o Estado protege uns e esquece outros. É aqui que nasce a ...

Canção do Profeta (2023)

Imagem
Este livro de Paul Lynch coloca-nos face à questão determinante que uma mãe (de 4) tem de tomar quando a Irlanda é tomada pela extrema-direita, iniciando um processo de instalação totalitarista e uma guerra contra as forças rebeldes emergentes, abandonar ou não abandonar o seu país, a sua casa, o seu marido acabado de ser preso, em parte incerta, por realização de manifestação sindical. Esta é uma questão fundamental que já me coloquei múltiplas vezes, a propósito dos judeus na Alemanha a partir de 1933 , mas também em muito  outros  cenários dos últimos 100   anos , onde rebentaram guerras ideológicas que conduziram à destruição de milhões de vidas. Quando lemos os relatos desses cenários, passados anos, dezenas de anos, é tão fácil questionar — “porque não fugiram?” Por outro lado, esta nossa questão não deixa de conter uma profunda hipocrisia, pelo modo como os nossos próprios países se foram comportando, na relação para com os refugiados provenientes desses cenário...