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Infamy (2023) de Anna Maliszewska e Kuba Czekaj

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A série polaca da Netflix, " Infamy" (2023), de Anna Maliszewska e Kuba Czekaj, não me entusiasmou pela escrita, nem pelo que tinha para dizer, apesar de relevante. A narrativa acompanha uma adolescente de origem Roma, dividida entre tradições, preconceito e o seu desejo de emancipação. Há momentos poderosos na abordagem ao racismo e à identidade cultural, mas também uma dramaturgia juvenil que simplifica conflitos e personagens. Contudo, aquilo que verdadeiramente me manteve agarrado aos oito episódios foi a extraordinária construção visual . O guarda-roupa (de Anna Englert) é deslumbrante. Não apenas pelas cores, padrões e texturas, mas pela forma como dialoga com os espaços. Tecidos, paredes, mobiliário, luzes e corpos parecem participar numa mesma composição gráfica (Jagna Dobesz, design de produção). Por vezes, as personagens confundem-se com os cenários; noutras, destacam-se deles através de contrastes cromáticos inesperados (Wojciech Zieliński, direção de fotografia)....

Rapport, (2020), Emily Alison e Laurence Alison

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"Rapport: The Four Ways to Read People, Communicate Better, and Build Lasting Connections" (2020), de Emily Alison e Laurence Alison, é um bom livro sobre comunicação interpessoal que, sem procurar o aprofundamento académico, privilegia uma abordagem prática, centrada na melhoria da interação humana. Os autores são psicólogos com uma vasta experiência na análise de comportamentos em situações de conflito, particularmente interrogatórios policiais e entrevistas com suspeitos de terrorismo. O trabalho que desenvolveram levou-os a uma conclusão aparentemente simples: a pressão, a intimidação e a confrontação tendem a produzir resistência, enquanto a construção de uma relação assente no respeito, na escuta e na autonomia favorece a cooperação e a partilha de informação. O livro situa-se, assim, entre a psicologia aplicada e um manual de comunicação interpessoal. Não oferece propriamente uma teoria nova da comunicação humana, mas sistematiza princípios e comportamentos que podem ...

How to Not Know (2026), Simone Stolzoff

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Acabei de ler " How to Not Know: The Value of Uncertainty in a World That Demands Answers"  (2026), de Simone Stolzoff, e a primeira coisa que posso dizer é que foi um livro que ouvi quase sempre com uma  sensação de forte carga emocional. Não propriamente porque me estivesse a revelar algo que desconhecesse sobre a condição humana, mas porque colocava em palavras, através de histórias reais e investigação psicológica, tantas das coisas que tenho sentido e experimentado. O livro parte de uma ideia relativamente simples: os seres humanos procuram a certeza, mesmo quando ela é impossível. Queremos saber o que vai acontecer, como vão evoluir as nossas relações, se estamos a tomar as decisões certas, se vamos conseguir aquilo que desejamos. E, sobretudo, queremos garantir que aquilo que temos hoje não nos será retirado amanhã. Um dos estudos apresentados logo no início mostra que indivíduos sujeitos à possibilidade de receber um choque elétrico, com 50% de probabilidade, experime...

Disclosure Day (2026), Spielberg abraça o imaginário conspirativo

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Saí de " Disclosure Day" (2026) não apenas desiludido com Steven Spielberg, mas perturbado pelo que o filme faz enquanto acto de comunicação. A premissa é profundamente simples. Spielberg regressa ao território de " Close Encounters of the Third Kind" (1977), mas funde-o agora com a mitologia conspirativa de Roswell: extraterrestres estiveram na Terra, o governo sabe, existem corpos e provas, tudo foi escondido durante décadas e aqueles que tentaram revelar a verdade foram desacreditados ou silenciados. Em 1977, esta poderia ainda ser uma fantasia alimentada pela cultura UFO do pós-guerra. Em 2026, é outra coisa.  Entretanto passaram quase cinquenta anos de ciência, astrobiologia e ficção científica. "2001: A Space Odyssey" (1968) e "Solaris" (1972) já tinham imaginado formas de inteligência extraterrestre radicalmente outras, difíceis até de representar ou compreender. Hoje podemos acrescentar décadas de literatura sobre primeiro contacto, de ...

O Viajante à Luz da Lua (1937) Antal Szerb

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Comecei O Viajante à Luz da Lua (1937), de Antal Szerb, com entusiasmo, mas fui perdendo alguma paciência com Mihály, e as suas crises existenciais atravessadas pelo conforto que também já tinha visto em Thoreau. Um homem em lua-de-mel que se perde da mulher em Itália e decide continuar perdido. Tem dinheiro, cultura, mobilidade, pessoas que o ajudam. Pode ir embora. Pode regressar. Move-se em busca de algo que não sabe o que é. Durante bastante tempo pareceu-me mera deambulação infantil. Fuga às obrigações. O problema não era o não acontecer nada. Nem a lentidão. Nem a veia satírica de Szerb. Era não sentir resistência no enredo. Não sentir que alguma coisa estivesse verdadeiramente em jogo em todo aquele flâneurismo . Durante boa parte de O Viajante à Luz da Lua , pensei em desistir, até encontrar Erwin num mosteiro em Itália. Diria que foi uma espécie de primeira fissura naquele mundo quase onírico de fuga e perda inicial. Porque se Mihály passa todo o tempo a fantasiar a possibili...

Unabomber (2026) a ciência no banco dos réus

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Não me interessa muito entrar na mente de Ted Kaczynski. Unabomber (2026), com Russell Crowe e estreado a 25 de setembro na Netflix, interessou-me por uma particularidade estética com impacto no significado do que o filme quer dizer, nomeadamente pelo modo como sentou a ciência no banco dos réus e depois, no momento decisivo, assustados com o que o filme estava efetivamente a fazer, os guionistas resolveram tirar da cartola um coelho de 1998 para evitar o pior. O filme de Janus Metz parte de um facto histórico. Kaczynski entrou em Harvard aos 16 anos e, no ano seguinte, participou numa série de experiências conduzidas por Henry Murray, psicólogo muito reconhecido na altura, destinadas a estudar o comportamento humano sob pressão. Os participantes eram levados a expor convicções pessoais e depois submetidos a confrontos agressivos destinados a provocar stress intenso e medir as suas reações. Hoje é fácil olhar para estes procedimentos como eticamente inaceitáveis. Terríveis. Mas é tam...

Fugitive parce que reine (2018)

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Acabei a leitura de " Fugitive parce que reine"  (2018), de Violaine Huisman, um pouco em choque. A primeira parte tinha-me atravessado completamente. Havia ali uma violência íntima, uma capacidade rara de abrir a família por dentro e mostrar aquilo que normalmente fica escondido atrás das fotografias, dos nomes respeitáveis, das casas e da cultura. Catherine surgia como uma presença forte, excessiva, por vezes cruel, mas também doente e humana. E Violaine Huisman parecia suficientemente consciente daquilo que estava a fazer para não transformar mero sofrimento em grandeza. Na segunda parte comecei a afastar-me. Entramos num mundo parisiense de intelectuais, artistas, homens e mulheres para quem o dinheiro parece existir sobretudo para ser gasto, para quem poupar é uma forma de mediocridade, jantar em casa quase uma derrota, antecipar o futuro um sintoma pequeno-burguês. Não é propriamente a riqueza que me incomoda, nem sequer o privilégio em si. O que me incomodou foi o desp...

Second Victims (2025), Zinnini Elkington

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Acabei Second Victims de rastos. Não propriamente porque o filme faça algo de radicalmente novo na linguagem visual. Pelo contrário, trabalha dentro de uma gramática que se tornou quase dominante naquilo que chamo harsh realism : câmaras muito próximas dos rostos, profundidade curta, montagem rápida, corpos comprimidos pelo enquadramento, pouco espaço para respirar. É uma linguagem que procura eliminar a distância entre espectador e personagem, colocando-nos quase fisicamente dentro da pressão emocional. Pensei várias vezes em Adolescence (2025) , embora aí o efeito seja conseguido de forma quase inversa: sem montagem visível, através de plano-sequência, obrigando a que toda a tensão seja construída pela encenação, pela deslocação dos atores e da câmara dentro do espaço. Mas aquilo que verdadeiramente me destruiu em Second Victims foi Alexandra. O filme começa por fazer dela o nosso farol. Alexandra é extremamente competente e humana, atenta aos pacientes e aos colegas. Não é apenas ...

Armand (2024) Halfdan Ullmann Tøndel

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Acabei Armand (2024), de Halfdan Ullmann Tøndel, de boca aberta. Durante metade do filme achei que estava a ver uma história que precisava de ser compreendida: uma acusação entre duas crianças, duas mães colocadas em posições opostas, professores que tentam perceber o que aconteceu. Somos colocados no lugar tradicional de juntar pistas, escolher quem estará a dizer a verdade, procurar incoerências e desvios. Mas pouco depois o filme começa a desfazer tudo isso A mãe que acusa passa também a ser acusada. Surgem histórias antigas, violência, ressentimentos familiares. Aquilo que parecia uma linha com duas simples pontas transforma-se numa teia. E quanto mais informação obtemos, menos conseguimos compreender. Confesso que comecei a ficar irritado. Queria saber. Queria compreender. Queria que alguém finalmente me explicasse o que raio se tinha passado. A meio do filme embarcamos numa viagem semionírica que parece transportar-nos para outra dimensão, e começamos a duvidar de tudo, absoluta...

A Separation (2017), Katie Kitamura

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Acabei  A Separation (2017) , de Katie Kitamura, com uma sensação de experiência plena, ainda que acompanhada por uma ausência de novidade ou de fechamento, mas durante as 6 horas de leitura e escuta, Kitamura, juntamente com a voz de Katherine Waterston, levaram-me para um mundo particular, não escapista, porque dentro de mim. Durante todos os minutos que a ouvi e li senti que respirava melhor, que encontrava uma sincronia com o mundo lá fora, e isso permitiu-me aceitar melhor os momentos menos bons, e ganhar energia para continuar a puxar no resto dos dias. Não foi a minha primeira leitura de Kitamura, já tinha lido Intimacies  (2021) , e reconheci a mesma escrita controlada, assente numa extraordinária capacidade de observação à distância, intercalada com pequenos rasgos perceptivos. Mas desta vez bateu muito mais fundo. Há aqui também muito de Rachel Cusk , não apenas pela passagem pela Grécia, mas pela forma como a narradora parece construir-se menos a...

A Escavação (2025)

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Acabei agora de ver "A Escavação" (2025) ("Danefæ", no original da Dinamarca) no RTP Play e fiquei ali parado a olhar para o genérico final, a pensar no quanto daquilo me falava de tão perto. Adoro arqueologia. Não tanto pelos objetos em si, nem pelo fascínio pelo antigo, mas por aquilo que cada fragmento encontrado nos pode dizer sobre quem passou por aqui antes de nós. Um osso, um dente, um pedaço de metal, uma posição no terreno. Coisas quase mudas, mas que às vezes, quando alguém faz a pergunta certa, começam a contar uma história. "Danefæ" (A Escavação) (2025)  Neste caso, a série leva-nos até à origem da Dinamarca, ao primeiro rei, à sua mãe, à introdução do cristianismo. Mas faz uma coisa muito inteligente: coloca no centro dois arqueólogos que olham para os mesmos achados e veem coisas diferentes. E são marido e mulher. Ele é diretor do Museu Nacional, reconhecido, respeitado, com toda uma carreira construída. Ela trabalha num pequeno museu regio...

La buena suerte (2020)

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La buena suerte acabou por me satisfazer bastante. Ouvi-o todos os dias durante as férias, nos passeios da manhã, acompanhando as desventuras de Pablo e aquela estranha decisão de suspender a vida. Porque é disso que o livro trata antes de ser qualquer outra coisa: de um homem que, de repente, deixa tudo para trás. Não exatamente para começar de novo. Talvez apenas para deixar de ser quem era. Foi aí que o livro mais me interessou. Na fuga, na culpa, na vontade de desaparecer sem propriamente morrer.  Pablo é um homem esmagado por uma vida que já não sabe habitar, por relações que não consegue resolver e por escolhas que não pode desfazer. Rosa Montero entra em zonas pouco confortáveis, sobretudo quando toca na família, na paternidade e na possibilidade de amarmos alguém e, ao mesmo tempo, desejarmos secretamente não carregar aquilo que essa pessoa representa. O livro torna-se bastante mais profundo do que o policial que também vai construindo. Fiquei, no entanto, com a sensação d...

The Fall of Hyperion (1990), do excesso de space opera

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Adorei Hyperion (1989) . O primeiro volume foi uma surpresa. Um universo denso, estranho, nem sempre compreensível, mas sustentado por uma arquitectura suficientemente sólida para nos fazer acreditar que tudo aquilo existia para além do que era explicado. O livro nunca precisa de revelar as regras de como tudo funciona, e isso é, em parte, a força do seu encanto.  The Fall of Hyperion  (1990) começa ainda dentro desse mesmo universo. Não existe uma verdadeira quebra entre os dois volumes. As personagens continuam, os conflitos avançam, e Simmons começa a responder às perguntas deixadas em aberto. Durante bastante tempo, ainda sentimos que estamos dentro do mesmo romance. Existem partes extraordinárias. Ummon é provavelmente a melhor criação do segundo volume. A conversa entre a inteligência artificial e o cíbrido Joseph Severn é um dos momentos em que Simmons consegue elevar a ficção científica para um plano conceptual muito pouco habitual. Não se limita a apresentar uma IA p...

"El loco de Dios en el fin del mundo". Do preconceito e da humildade

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Comecei "El loco de Dios en el fin del mundo" (2025) a rir. Javier Cercas entra no Vaticano carregado de cepticismo, anticlericalismo e acima de tudo com um tom leve e cómico. Seguimos o escritor ateu que tinha aceitado acompanhar o Papa Francisco à Mongólia porque procurava uma resposta para a pergunta da sua mãe: iria ela reencontrar o marido no céu? Para Cercas, essa pergunta torna-se a essência da sua missão, descobrir se o Papa efetivamente acredita na “resurrección de la carne y la vida eterna”. A premissa parecia assim conter suficiente suspense, e o tom criado apontava para uma viagem em excelente companhia. Lido na versão audiolibro da Audible Cercas começa por construir-se como personagem, expondo os seus preconceitos, enquanto se vai rindo de si próprio. Provoca os interlocutores, avança pelo Vaticano como alguém que vê mais porque vê de fora, sem agendas nem deveres. O resultado é divertido, e durante algum tempo é mesmo capaz de gerar curiosidade pela expectativ...