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Disclosure Day (2026), Spielberg abraça o imaginário conspirativo

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Saí de " Disclosure Day" (2026) não apenas desiludido com Steven Spielberg, mas perturbado pelo que o filme faz enquanto acto de comunicação. A premissa é profundamente simples. Spielberg regressa ao território de " Close Encounters of the Third Kind" (1977), mas funde-o agora com a mitologia conspirativa de Roswell: extraterrestres estiveram na Terra, o governo sabe, existem corpos e provas, tudo foi escondido durante décadas e aqueles que tentaram revelar a verdade foram desacreditados ou silenciados. Em 1977, esta poderia ainda ser uma fantasia alimentada pela cultura UFO do pós-guerra. Em 2026, é outra coisa.  Entretanto passaram quase cinquenta anos de ciência, astrobiologia e ficção científica. "2001: A Space Odyssey" (1968) e "Solaris" (1972) já tinham imaginado formas de inteligência extraterrestre radicalmente outras, difíceis até de representar ou compreender. Hoje podemos acrescentar décadas de literatura sobre primeiro contacto, de ...

O Viajante à Luz da Lua (1937) Antal Szerb

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Comecei O Viajante à Luz da Lua (1937), de Antal Szerb, com entusiasmo, mas fui perdendo alguma paciência com Mihály, e as suas crises existenciais atravessadas pelo conforto que também já tinha visto em Thoreau. Um homem em lua-de-mel que se perde da mulher em Itália e decide continuar perdido. Tem dinheiro, cultura, mobilidade, pessoas que o ajudam. Pode ir embora. Pode regressar. Move-se em busca de algo que não sabe o que é. Durante bastante tempo pareceu-me mera deambulação infantil. Fuga às obrigações. O problema não era o não acontecer nada. Nem a lentidão. Nem a veia satírica de Szerb. Era não sentir resistência no enredo. Não sentir que alguma coisa estivesse verdadeiramente em jogo em todo aquele flâneurismo . Durante boa parte de O Viajante à Luz da Lua , pensei em desistir, até encontrar Erwin num mosteiro em Itália. Diria que foi uma espécie de primeira fissura naquele mundo quase onírico de fuga e perda inicial. Porque se Mihály passa todo o tempo a fantasiar a possibili...

Unabomber (2026) a ciência no banco dos réus

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Não me interessa muito entrar na mente de Ted Kaczynski. Unabomber (2026), com Russell Crowe e estreado a 25 de setembro na Netflix, interessou-me por uma particularidade estética com impacto no significado do que o filme quer dizer, nomeadamente pelo modo como sentou a ciência no banco dos réus e depois, no momento decisivo, assustados com o que o filme estava efetivamente a fazer, os guionistas resolveram tirar da cartola um coelho de 1998 para evitar o pior. O filme de Janus Metz parte de um facto histórico. Kaczynski entrou em Harvard aos 16 anos e, no ano seguinte, participou numa série de experiências conduzidas por Henry Murray, psicólogo muito reconhecido na altura, destinadas a estudar o comportamento humano sob pressão. Os participantes eram levados a expor convicções pessoais e depois submetidos a confrontos agressivos destinados a provocar stress intenso e medir as suas reações. Hoje é fácil olhar para estes procedimentos como eticamente inaceitáveis. Terríveis. Mas é tam...

Fugitive parce que reine (2018)

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Acabei a leitura de " Fugitive parce que reine"  (2018), de Violaine Huisman, um pouco em choque. A primeira parte tinha-me atravessado completamente. Havia ali uma violência íntima, uma capacidade rara de abrir a família por dentro e mostrar aquilo que normalmente fica escondido atrás das fotografias, dos nomes respeitáveis, das casas e da cultura. Catherine surgia como uma presença forte, excessiva, por vezes cruel, mas também doente e humana. E Violaine Huisman parecia suficientemente consciente daquilo que estava a fazer para não transformar mero sofrimento em grandeza. Na segunda parte comecei a afastar-me. Entramos num mundo parisiense de intelectuais, artistas, homens e mulheres para quem o dinheiro parece existir sobretudo para ser gasto, para quem poupar é uma forma de mediocridade, jantar em casa quase uma derrota, antecipar o futuro um sintoma pequeno-burguês. Não é propriamente a riqueza que me incomoda, nem sequer o privilégio em si. O que me incomodou foi o desp...

Second Victims (2025), Zinnini Elkington

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Acabei Second Victims de rastos. Não propriamente porque o filme faça algo de radicalmente novo na linguagem visual. Pelo contrário, trabalha dentro de uma gramática que se tornou quase dominante naquilo que chamo harsh realism : câmaras muito próximas dos rostos, profundidade curta, montagem rápida, corpos comprimidos pelo enquadramento, pouco espaço para respirar. É uma linguagem que procura eliminar a distância entre espectador e personagem, colocando-nos quase fisicamente dentro da pressão emocional. Pensei várias vezes em Adolescence (2025) , embora aí o efeito seja conseguido de forma quase inversa: sem montagem visível, através de plano-sequência, obrigando a que toda a tensão seja construída pela encenação, pela deslocação dos atores e da câmara dentro do espaço. Mas aquilo que verdadeiramente me destruiu em Second Victims foi Alexandra. O filme começa por fazer dela o nosso farol. Alexandra é extremamente competente e humana, atenta aos pacientes e aos colegas. Não é apenas ...

Armand (2024) Halfdan Ullmann Tøndel

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Acabei Armand (2024), de Halfdan Ullmann Tøndel, de boca aberta. Durante metade do filme achei que estava a ver uma história que precisava de ser compreendida: uma acusação entre duas crianças, duas mães colocadas em posições opostas, professores que tentam perceber o que aconteceu. Somos colocados no lugar tradicional de juntar pistas, escolher quem estará a dizer a verdade, procurar incoerências e desvios. Mas pouco depois o filme começa a desfazer tudo isso A mãe que acusa passa também a ser acusada. Surgem histórias antigas, violência, ressentimentos familiares. Aquilo que parecia uma linha com duas simples pontas transforma-se numa teia. E quanto mais informação obtemos, menos conseguimos compreender. Confesso que comecei a ficar irritado. Queria saber. Queria compreender. Queria que alguém finalmente me explicasse o que raio se tinha passado. A meio do filme embarcamos numa viagem semionírica que parece transportar-nos para outra dimensão, e começamos a duvidar de tudo, absoluta...

A Separation (2017), Katie Kitamura

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Acabei  A Separation (2017) , de Katie Kitamura, com uma sensação de experiência plena, ainda que acompanhada por uma ausência de novidade ou de fechamento, mas durante as 6 horas de leitura e escuta, Kitamura, juntamente com a voz de Katherine Waterston, levaram-me para um mundo particular, não escapista, porque dentro de mim. Durante todos os minutos que a ouvi e li senti que respirava melhor, que encontrava uma sincronia com o mundo lá fora, e isso permitiu-me aceitar melhor os momentos menos bons, e ganhar energia para continuar a puxar no resto dos dias. Não foi a minha primeira leitura de Kitamura, já tinha lido Intimacies  (2021) , e reconheci a mesma escrita controlada, assente numa extraordinária capacidade de observação à distância, intercalada com pequenos rasgos perceptivos. Mas desta vez bateu muito mais fundo. Há aqui também muito de Rachel Cusk , não apenas pela passagem pela Grécia, mas pela forma como a narradora parece construir-se menos a...

A Escavação (2025)

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Acabei agora de ver "A Escavação" (2025) ("Danefæ", no original da Dinamarca) no RTP Play e fiquei ali parado a olhar para o genérico final, a pensar no quanto daquilo me falava de tão perto. Adoro arqueologia. Não tanto pelos objetos em si, nem pelo fascínio pelo antigo, mas por aquilo que cada fragmento encontrado nos pode dizer sobre quem passou por aqui antes de nós. Um osso, um dente, um pedaço de metal, uma posição no terreno. Coisas quase mudas, mas que às vezes, quando alguém faz a pergunta certa, começam a contar uma história. "Danefæ" (A Escavação) (2025)  Neste caso, a série leva-nos até à origem da Dinamarca, ao primeiro rei, à sua mãe, à introdução do cristianismo. Mas faz uma coisa muito inteligente: coloca no centro dois arqueólogos que olham para os mesmos achados e veem coisas diferentes. E são marido e mulher. Ele é diretor do Museu Nacional, reconhecido, respeitado, com toda uma carreira construída. Ela trabalha num pequeno museu regio...

La buena suerte (2020)

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La buena suerte acabou por me satisfazer bastante. Ouvi-o todos os dias durante as férias, nos passeios da manhã, acompanhando as desventuras de Pablo e aquela estranha decisão de suspender a vida. Porque é disso que o livro trata antes de ser qualquer outra coisa: de um homem que, de repente, deixa tudo para trás. Não exatamente para começar de novo. Talvez apenas para deixar de ser quem era. Foi aí que o livro mais me interessou. Na fuga, na culpa, na vontade de desaparecer sem propriamente morrer.  Pablo é um homem esmagado por uma vida que já não sabe habitar, por relações que não consegue resolver e por escolhas que não pode desfazer. Rosa Montero entra em zonas pouco confortáveis, sobretudo quando toca na família, na paternidade e na possibilidade de amarmos alguém e, ao mesmo tempo, desejarmos secretamente não carregar aquilo que essa pessoa representa. O livro torna-se bastante mais profundo do que o policial que também vai construindo. Fiquei, no entanto, com a sensação d...

The Fall of Hyperion (1990), do excesso de space opera

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Adorei Hyperion (1989) . O primeiro volume foi uma surpresa. Um universo denso, estranho, nem sempre compreensível, mas sustentado por uma arquitectura suficientemente sólida para nos fazer acreditar que tudo aquilo existia para além do que era explicado. O livro nunca precisa de revelar as regras de como tudo funciona, e isso é, em parte, a força do seu encanto.  The Fall of Hyperion  (1990) começa ainda dentro desse mesmo universo. Não existe uma verdadeira quebra entre os dois volumes. As personagens continuam, os conflitos avançam, e Simmons começa a responder às perguntas deixadas em aberto. Durante bastante tempo, ainda sentimos que estamos dentro do mesmo romance. Existem partes extraordinárias. Ummon é provavelmente a melhor criação do segundo volume. A conversa entre a inteligência artificial e o cíbrido Joseph Severn é um dos momentos em que Simmons consegue elevar a ficção científica para um plano conceptual muito pouco habitual. Não se limita a apresentar uma IA p...

"El loco de Dios en el fin del mundo". Do preconceito e da humildade

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Comecei "El loco de Dios en el fin del mundo" (2025) a rir. Javier Cercas entra no Vaticano carregado de cepticismo, anticlericalismo e acima de tudo com um tom leve e cómico. Seguimos o escritor ateu que tinha aceitado acompanhar o Papa Francisco à Mongólia porque procurava uma resposta para a pergunta da sua mãe: iria ela reencontrar o marido no céu? Para Cercas, essa pergunta torna-se a essência da sua missão, descobrir se o Papa efetivamente acredita na “resurrección de la carne y la vida eterna”. A premissa parecia assim conter suficiente suspense, e o tom criado apontava para uma viagem em excelente companhia. Lido na versão audiolibro da Audible Cercas começa por construir-se como personagem, expondo os seus preconceitos, enquanto se vai rindo de si próprio. Provoca os interlocutores, avança pelo Vaticano como alguém que vê mais porque vê de fora, sem agendas nem deveres. O resultado é divertido, e durante algum tempo é mesmo capaz de gerar curiosidade pela expectativ...

Uma Questão de Conveniência de Sayaka Murata

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Uma Questão de Conveniência é muito interessante pela forma como a escrita nos transporta, mantendo tudo em movimento. Mesmo quando nada parece propriamente acontecer, há sempre algo em deslocação: uma perceção, um desconforto, uma expectativa. As particularidades da protagonista servem bem essa dupla força do livro: a estranheza e o cómico. São dois movimentos criados por Sayaka Murata que nos atraem, nos mantêm próximos da personagem e criam por vezes um humor negro. À primeira vista, é fácil ler o romance como uma crítica à normalidade social, a uma sociedade que espera da mulher casamento, maternidade, ambição reconhecida e uma vida organizada segundo os códigos dominantes. Concordando, parece-me que o livro pretende algo mais do que a denúncia do “normal”. Até porque Keiko não rejeita propriamente as regras: ela encaixa perfeitamente nas regras da loja de conveniência. E essas regras são muito mais rígidas, mecânicas e desprovidas de qualquer significado humano profundo do qu...

Sobre a lista dos 100 melhores livros do Guardian

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Li 64 dos 100 livros da nova lista dos  100 Melhores Romances do Guardian . Abandonei ou recusei ler mais 9, e tenho outros 7 na prateleira à espera da disposição certa. Isto talvez seja suficiente para emitir a seguinte opinião: a lista é muito boa como sintoma, mas bastante fraca como mapa. Sintoma de um cânone anglófono que percebeu que precisava de se corrigir, de incluir mais mulheres, mais autores negros, mais vozes pós-coloniais, mais feridas históricas. Fraca como mapa porque continua a chamar “mundo” àquilo que é, em larga medida, a biblioteca escolar inglesa. "100 'Melhores' Livros de Ficção" pelo The Guardian (2026-5-16) Não é que faltem grandes livros. Pelo contrário: a lista está cheia deles. Mas quando Dickens, Austen e Woolf ocupam juntos 13 lugares em 100; quando 77 obras foram originalmente escritas em inglês; e quando a reparação cultural se faz quase sempre dentro do próprio espaço anglo-americano, já não estamos perante uma lista dos melhores roman...

The Mattering Instinct (2026) de Rebeca Goldstein

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“The Mattering Instinct”, de Rebecca Goldstein, não vem anunciar nenhuma revelação nem abrir uma via realmente nova, embora se aproxime de uma das questões mais antigas de todas. A autora diz que não está a escrever “sobre o sentido da vida”, mas essa recusa é mais estratégica do que real: é disso que o livro trata, embora prefira fazê-lo a partir de uma pergunta mais concreta e psicologicamente manejável — o que fazemos para sentir que importamos, e com que custos . A estrutura é narrativa. Goldstein escreve por vinhetas: histórias de gente comum, histórias de figuras conhecidas, e passagens que funcionam como micro-aulas de filosofia em tom de conversa. Passamos por William James (o melhor do livro, para mim), por Bertrand Russell, por Baruch Spinoza, entre outros. Há uma tentativa clara de convencer-nos que o impulso de “mattering” não é só uma obsessão individual; é antes uma força que estrutura a cultura, a moral, o humano. O coração conceptual do livro está no “mattering map”, qu...