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Second Victims (2025), Zinnini Elkington

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Acabei Second Victims de rastos. Não propriamente porque o filme faça algo de radicalmente novo na linguagem visual. Pelo contrário, trabalha dentro de uma gramática que se tornou quase dominante naquilo que chamo harsh realism : câmaras muito próximas dos rostos, profundidade curta, montagem rápida, corpos comprimidos pelo enquadramento, pouco espaço para respirar. É uma linguagem que procura eliminar a distância entre espectador e personagem, colocando-nos quase fisicamente dentro da pressão emocional. Pensei várias vezes em Adolescence (2025) , embora aí o efeito seja conseguido de forma quase inversa: sem montagem visível, através de plano-sequência, obrigando a que toda a tensão seja construída pela encenação, pela deslocação dos atores e da câmara dentro do espaço. Mas aquilo que verdadeiramente me destruiu em Second Victims foi Alexandra. O filme começa por fazer dela o nosso farol. Alexandra é extremamente competente e humana, atenta aos pacientes e aos colegas. Não é apenas ...

Armand (2024) Halfdan Ullmann Tøndel

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Acabei Armand (2024), de Halfdan Ullmann Tøndel, de boca aberta. Durante metade do filme achei que estava a ver uma história que precisava de ser compreendida: uma acusação entre duas crianças, duas mães colocadas em posições opostas, professores que tentam perceber o que aconteceu. Somos colocados no lugar tradicional de juntar pistas, escolher quem estará a dizer a verdade, procurar incoerências e desvios. Mas pouco depois o filme começa a desfazer tudo isso A mãe que acusa passa também a ser acusada. Surgem histórias antigas, violência, ressentimentos familiares. Aquilo que parecia uma linha com duas simples pontas transforma-se numa teia. E quanto mais informação obtemos, menos conseguimos compreender. Confesso que comecei a ficar irritado. Queria saber. Queria compreender. Queria que alguém finalmente me explicasse o que raio se tinha passado. A meio do filme embarcamos numa viagem semionírica que parece transportar-nos para outra dimensão, e começamos a duvidar de tudo, absoluta...

A Separation (2017), Katie Kitamura

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Acabei  A Separation (2017) , de Katie Kitamura, com uma sensação de experiência plena, ainda que acompanhada por uma ausência de novidade ou de fechamento, mas durante as 6 horas de leitura e escuta, Kitamura, juntamente com a voz de Katherine Waterston, levaram-me para um mundo particular, não escapista, porque dentro de mim. Durante todos os minutos que a ouvi e li senti que respirava melhor, que encontrava uma sincronia com o mundo lá fora, e isso permitiu-me aceitar melhor os momentos menos bons, e ganhar energia para continuar a puxar no resto dos dias. Não foi a minha primeira leitura de Kitamura, já tinha lido Intimacies  (2021) , e reconheci a mesma escrita controlada, assente numa extraordinária capacidade de observação à distância, intercalada com pequenos rasgos perceptivos. Mas desta vez bateu muito mais fundo. Há aqui também muito de Rachel Cusk , não apenas pela passagem pela Grécia, mas pela forma como a narradora parece construir-se menos a...

A Escavação (2025)

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Acabei agora de ver "A Escavação" (2025) ("Danefæ", no original da Dinamarca) no RTP Play e fiquei ali parado a olhar para o genérico final, a pensar no quanto daquilo me falava de tão perto. Adoro arqueologia. Não tanto pelos objetos em si, nem pelo fascínio pelo antigo, mas por aquilo que cada fragmento encontrado nos pode dizer sobre quem passou por aqui antes de nós. Um osso, um dente, um pedaço de metal, uma posição no terreno. Coisas quase mudas, mas que às vezes, quando alguém faz a pergunta certa, começam a contar uma história. "Danefæ" (A Escavação) (2025)  Neste caso, a série leva-nos até à origem da Dinamarca, ao primeiro rei, à sua mãe, à introdução do cristianismo. Mas faz uma coisa muito inteligente: coloca no centro dois arqueólogos que olham para os mesmos achados e veem coisas diferentes. E são marido e mulher. Ele é diretor do Museu Nacional, reconhecido, respeitado, com toda uma carreira construída. Ela trabalha num pequeno museu regio...

La buena suerte (2020)

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La buena suerte acabou por me satisfazer bastante. Ouvi-o todos os dias durante as férias, nos passeios da manhã, acompanhando as desventuras de Pablo e aquela estranha decisão de suspender a vida. Porque é disso que o livro trata antes de ser qualquer outra coisa: de um homem que, de repente, deixa tudo para trás. Não exatamente para começar de novo. Talvez apenas para deixar de ser quem era. Foi aí que o livro mais me interessou. Na fuga, na culpa, na vontade de desaparecer sem propriamente morrer.  Pablo é um homem esmagado por uma vida que já não sabe habitar, por relações que não consegue resolver e por escolhas que não pode desfazer. Rosa Montero entra em zonas pouco confortáveis, sobretudo quando toca na família, na paternidade e na possibilidade de amarmos alguém e, ao mesmo tempo, desejarmos secretamente não carregar aquilo que essa pessoa representa. O livro torna-se bastante mais profundo do que o policial que também vai construindo. Fiquei, no entanto, com a sensação d...

The Fall of Hyperion (1990), do excesso de space opera

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Adorei Hyperion (1989) . O primeiro volume foi uma surpresa. Um universo denso, estranho, nem sempre compreensível, mas sustentado por uma arquitectura suficientemente sólida para nos fazer acreditar que tudo aquilo existia para além do que era explicado. O livro nunca precisa de revelar as regras de como tudo funciona, e isso é, em parte, a força do seu encanto.  The Fall of Hyperion  (1990) começa ainda dentro desse mesmo universo. Não existe uma verdadeira quebra entre os dois volumes. As personagens continuam, os conflitos avançam, e Simmons começa a responder às perguntas deixadas em aberto. Durante bastante tempo, ainda sentimos que estamos dentro do mesmo romance. Existem partes extraordinárias. Ummon é provavelmente a melhor criação do segundo volume. A conversa entre a inteligência artificial e o cíbrido Joseph Severn é um dos momentos em que Simmons consegue elevar a ficção científica para um plano conceptual muito pouco habitual. Não se limita a apresentar uma IA p...

"El loco de Dios en el fin del mundo". Do preconceito e da humildade

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Comecei "El loco de Dios en el fin del mundo" (2025) a rir. Javier Cercas entra no Vaticano carregado de cepticismo, anticlericalismo e acima de tudo com um tom leve e cómico. Seguimos o escritor ateu que tinha aceitado acompanhar o Papa Francisco à Mongólia porque procurava uma resposta para a pergunta da sua mãe: iria ela reencontrar o marido no céu? Para Cercas, essa pergunta torna-se a essência da sua missão, descobrir se o Papa efetivamente acredita na “resurrección de la carne y la vida eterna”. A premissa parecia assim conter suficiente suspense, e o tom criado apontava para uma viagem em excelente companhia. Lido na versão audiolibro da Audible Cercas começa por construir-se como personagem, expondo os seus preconceitos, enquanto se vai rindo de si próprio. Provoca os interlocutores, avança pelo Vaticano como alguém que vê mais porque vê de fora, sem agendas nem deveres. O resultado é divertido, e durante algum tempo é mesmo capaz de gerar curiosidade pela expectativ...

Uma Questão de Conveniência de Sayaka Murata

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Uma Questão de Conveniência é muito interessante pela forma como a escrita nos transporta, mantendo tudo em movimento. Mesmo quando nada parece propriamente acontecer, há sempre algo em deslocação: uma perceção, um desconforto, uma expectativa. As particularidades da protagonista servem bem essa dupla força do livro: a estranheza e o cómico. São dois movimentos criados por Sayaka Murata que nos atraem, nos mantêm próximos da personagem e criam por vezes um humor negro. À primeira vista, é fácil ler o romance como uma crítica à normalidade social, a uma sociedade que espera da mulher casamento, maternidade, ambição reconhecida e uma vida organizada segundo os códigos dominantes. Concordando, parece-me que o livro pretende algo mais do que a denúncia do “normal”. Até porque Keiko não rejeita propriamente as regras: ela encaixa perfeitamente nas regras da loja de conveniência. E essas regras são muito mais rígidas, mecânicas e desprovidas de qualquer significado humano profundo do qu...

Sobre a lista dos 100 melhores livros do Guardian

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Li 64 dos 100 livros da nova lista dos  100 Melhores Romances do Guardian . Abandonei ou recusei ler mais 9, e tenho outros 7 na prateleira à espera da disposição certa. Isto talvez seja suficiente para emitir a seguinte opinião: a lista é muito boa como sintoma, mas bastante fraca como mapa. Sintoma de um cânone anglófono que percebeu que precisava de se corrigir, de incluir mais mulheres, mais autores negros, mais vozes pós-coloniais, mais feridas históricas. Fraca como mapa porque continua a chamar “mundo” àquilo que é, em larga medida, a biblioteca escolar inglesa. "100 'Melhores' Livros de Ficção" pelo The Guardian (2026-5-16) Não é que faltem grandes livros. Pelo contrário: a lista está cheia deles. Mas quando Dickens, Austen e Woolf ocupam juntos 13 lugares em 100; quando 77 obras foram originalmente escritas em inglês; e quando a reparação cultural se faz quase sempre dentro do próprio espaço anglo-americano, já não estamos perante uma lista dos melhores roman...

The Mattering Instinct (2026) de Rebeca Goldstein

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“The Mattering Instinct”, de Rebecca Goldstein, não vem anunciar nenhuma revelação nem abrir uma via realmente nova, embora se aproxime de uma das questões mais antigas de todas. A autora diz que não está a escrever “sobre o sentido da vida”, mas essa recusa é mais estratégica do que real: é disso que o livro trata, embora prefira fazê-lo a partir de uma pergunta mais concreta e psicologicamente manejável — o que fazemos para sentir que importamos, e com que custos . A estrutura é narrativa. Goldstein escreve por vinhetas: histórias de gente comum, histórias de figuras conhecidas, e passagens que funcionam como micro-aulas de filosofia em tom de conversa. Passamos por William James (o melhor do livro, para mim), por Bertrand Russell, por Baruch Spinoza, entre outros. Há uma tentativa clara de convencer-nos que o impulso de “mattering” não é só uma obsessão individual; é antes uma força que estrutura a cultura, a moral, o humano. O coração conceptual do livro está no “mattering map”, qu...

Searches: Selfhood in the Digital Age (2025) Vauhini Vara

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Vauhini Vara é jornalista de tecnologia no Washington Post, pelo que o livro com este título e o dispositivo (conversas com LLM), promeita algo sério. Pensei que íamos ler sobre o que acontece ao self quando a escrita deixa de ser exclusivamente nossa. Mas o que encontrei foi performance sem reflexão. A estrutura é colagem ( memoir + genealogia genérica da internet/ search /tecnologia), sem qualquer enquadramento para que a colagem produza pensamento. O capítulo das “Searches” é exemplar: em vez de curadoria e leitura interpretativa do arquivo, há um despejo de anos de perguntas ao Google, sem esforço para identificar padrões, extrair conflito, ou transformar esse material em conhecimento. O capítulo “Ghosts”, que eu esperava ser o coração experimental, reinicia o mesmo texto repetidamente e drena o drama; e, mais grave, não oferece qualquer análise do processo de co-criação. Não há interpretação do que o LLM está a fazer, nem discussão das decisões autorais (porquê aceitar X e r...

All the Pretty Horses (1992) de Cormac McCarthy

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Ler All the Pretty Horses  ("Belos Cavalos") hoje é entrar num mundo que parece real apenas à superfície. O romance afirma situar-se em 1950 (data deduzida apenas pela referência ao divórcio de Shirley Temple), mas tudo nele remete a um tempo muito anterior. Não estamos na América pós-Guerra, pós-New Deal, pós-industrialização. Estamos num Velho Oeste fossilizado, e aqui não há como suavizar: isto não é mito, é fantasia histórica. O elemento mais revelador é o cavalo. Nada é mais caro de manter: ração, ferraduras, veterinário, estábulo, terreno. Um cavalo não vive de ar e água, ao contrário do que o livro faz crer. Mesmo famílias rurais com meios tinham dificuldade em sustentar um. E, no entanto, McCarthy coloca cavalos nas mãos de rapazes de dezasseis anos como se fossem bicicletas. É um mundo impossível de existir em 1950, e por isso o romance produz uma sensação constante de deslocação histórica. As pessoas deslocavam-se de carro, comboio e bicicleta — não a cavalo. Aqui, ...

Flesh (2025) David Szalay

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Terminei " Flesh"  com uma sensação estranha: a de ter sido arrastado por um livro que sabe perfeitamente como me manter a virar páginas, e, ao mesmo tempo, a de ter assistido a um exercício de escrita que se recusa a fazer aquilo que eu peço à literatura quando ela decide aproximar-se do humano. Szalay tem uma competência objetiva: criar movimento narrativo . Há sempre qualquer coisa a acontecer; há sempre um pequeno desvio, uma ameaça, um próximo passo. E isso fabrica expectativa. A expectativa dá energia. E a energia dá “page-turning”. O problema é quando, no fim, percebemos que o livro estava a viver do crédito dessa expectativa, e não da consequência real do que acontece. O que me irritou, no fundo, foi isto: Flesh reúne material com potencial explosivo — trauma, classe, migração, masculinidade, guerra, sexo, dinheiro, violência — mas não o converte em interioridade, nem transformação. O romance acumula “matéria” e recusa o processo alquímico que faria dessa matéria alg...

Tudo o Que Um Homem É (2016) David Szalay

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"Tudo o Que Um Homem É", de David Szalay, chegou-me como promessa de “retrato do homem contemporâneo”. Não tendo já muitas expectativas sobre esse tal “homem moderno”, olhei para o livro com desconfiança. Comecei a ler e, em poucas páginas, bateu-me uma sensação paradoxal: por um lado, o texto é competente, direto, sem floreados desnecessários; por outro, o que domina é sexo – corpos, encontros, impulsos mal resolvidos. A minha primeira reação foi irritação. Senti algo que conheço demasiado bem, não enquanto experiência pessoal, mas enquanto retórica: o jovem perdido, o homem deslocado, o sexo como escape e como prova de qualquer coisa que ele próprio não sabe o que é. No início, a minha vontade foi abandonar. Percebia a perícia técnica, mas não via o que é que me acrescentaria seguir mais um homem imaturo a tropeçar em corpos e situações sexualmente carregadas. O sexo, aqui, aparece com a previsibilidade de um mecanismo de relógio: há sempre um encontro em potência, um cor...

Sussurros (2007) de Orlando Figes

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O que " The Whisperers: Private Life in Stalin's Russia " (2007), de Orlando Figes, faz não é apenas contar o terror político soviético. Outros livros já contaram o terror político soviético. Este vai mais fundo: entra na vida interior das pessoas que viveram debaixo desse regime. Mostra como a política entra na cabeça, na família, no que se pode ou não dizer à mesa, no que se confia aos filhos, no que se cala até ao fim da vida. É um livro sobre medo, mas não o medo “lá fora”, dos uniformes e dos interrogatórios. É o medo que mexe na gramática do dia-a-dia. O medo que ensina o corpo a falar mais baixo. Em Figes, o "sussurro "( whisper ) não é um recurso poético. É uma técnica de sobrevivência. Fala-se em voz baixa porque as paredes ouvem, porque o vizinho pode denunciar, porque o filho pode repetir na escola. A frase inteira deixa de ser um direito. Fica apenas é um resto de voz, num corredor, numa cozinha, numa cama partilhada. Foi este livro que me obrigou a ...