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Nuremberga (2025)

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Terminei Nuremberga  (2025) com uma sensação clara: este é um filme tecnicamente competente, com atores sólidos e um mundo bem construído, mas falha no ponto essencial. Falha na forma como representa Hermann Goering. E falha de um modo que considero grave. Começo pelo que funciona. Hollywood sabe bem criar mundo. A atmosfera institucional e o peso visual da época são muito bem feitos. O filme tem textura e transmite credibilidade visual. Os atores ajudam a sustentar esse mundo. Russell Crowe, Michael Shannon e o resto do elenco têm presença e dão corpo às figuras históricas.  O problema não está na encenação nem nas interpretações isoladas. Está no guião e na construção dramática. O filme é montado em sequências curtas, pensadas para provocar emoção rápida, mas raramente desenvolve pensamento ou conflito até às últimas consequências. São “bocados” de cenas, “bocados” de conversas, “bocados” de tensão, que se sucedem sem verdadeira progressão. Não há tempo para conhecer ninguém...

Kindred (1979)

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“Kindred” é um livro do seu tempo, mas é um livro que continua a fazer pleno sentido ser lido nas escolas, nomeadamente dos EUA, e  que não faria mal nenhum sê-lo também na Europa e América Latina. Octavia Butler é reconhecida como a primeira autora negra de ficção científica, e este seu livro é uma das evidencias que sustenta esse reconhecimento. Não só o tema é profundo, como o cenário usado para o discutir é emocionalmente inteligente. Temos uma escritora afro-americana nos anos 1970 que se vê de repente regressada ao passado da escravatura no sul dos EUA, tendo de lidar com as normas sociais do início do século XIX sob a cor da sua pele. O resultado apresenta-se como uma fusão, muito conseguida, entre “Time Machine” (1895) de HG Wells e “Beloved” (1987) de Toni Morrison. Entretanto, o livro ganhou uma adaptação recente para televisão . "Kindred" pode ser visto como uma simulação laboratorial, pela ficção, da vida em tempos de escravatura, oferecendo-nos não apenas a persp...

Ficcionar Mary Wollstonecraft

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Mary Wollstonecraft escreveu a " A Vindication of the Rights of Woman " em 1792, criando uma das primeiras obras em defesa dos direitos das mulheres, tornando-se pioneira do feminismo e num dos grandes nomes da filosofia britânica. Em 1797, dava à luz Mary Shelley, morrendo 11 dias depois. 20 anos depois, Shelley dava-nos " Frankenstein " (1818) , o primeiro grande livro de ficção-científica, e uma das obras mais emblemáticas da literatura inglesa. Ao contrário do expectável, Wollstonecraft não nasceu num berço de ouro, nem foi estimulada a estudar, antes pelo contrário. “ Love and Fury ” (2021) de Samantha Silva usa os 11 dias após o parto para ficcionar um monólogo de Wollstonecraft dirigido à sua filha, “little bird”, dando conta da sua biografia. Não sendo uma obra notável na revelação de factos, nem na interpretação da vida da filósofa, é uma viagem adorável pelo interior da mente, especulada, de Wollstonecraft, que nos permite descobrir a força e acuidade do c...