"Careless People" (2025), diz mais sobre a autora do que sobre a Meta

Comecei a ler "Careless People: A Cautionary Tale of Power, Greed, and Lost Idealism" (2025), de Sarah Wynn-Williams, com alguma expectativa. Os bastidores do Facebook, revelados por uma antiga diretora de políticas públicas, prometiam um testemunho direto sobre os conflitos éticos numa das empresas mais influentes das últimas duas décadas. Esperava encontrar uma análise crítica, sim, mas também ponderada, talvez mesmo auto-reflexiva. O que encontrei, contudo, foi um texto em que a denúncia se transforma numa narrativa unidimensional, saturada por ressentimento, onde todas as outras figuras — dos próprios pais à liderança da Meta — são retratadas como tontas, desatentas ou moralmente falidas. Se para muitos, o livro serve de catarse em mais um ataque ao Facebook, para mim funcionou como desconfiança do que se ia dizendo até à total descredibilização da história e da autora.

É importante reconhecer que "Careless People" se insere no género do whistleblower memoir. Tal como "Bad Blood de John Carreyrou" (sobre a startup Theranos) ou "No Place to Hide" de Glenn Greenwald (sobre a NSA), este livro posiciona-se como uma revelação do que se passa por trás das fachadas institucionais. No entanto, há uma diferença fundamental entre expor práticas nocivas com argumentos e dados — e desfilar uma galeria de personagens retratadas de forma implacável, sem complexidade ou ambiguidade. O livro de Sarah Wynn-Williams adota uma estrutura narrativa centrada na vitimização e na desqualificação dos outros. Ela, é a única com sentido de missão, com lucidez e ética. Todos os demais, são instrumentos de poder, cegueira ou vaidade. Esta falta de aprofundamento dos personagens transforma o livro não num exercício de exposição moral, mas num manifesto de ressentimento.

O capítulo inicial, onde a autora relata um ataque de tubarão na infância, é impressionante. A escrita é sensorial, intensa, progressiva. A dor é descrita com um detalhe vívido. O abandono, com uma indignação contida. A forma como os pais negligenciam os sinais de sofrimento, a apatia médica, a solidão da criança — tudo é construído como o pano de fundo simbólico daquilo que será depois o retrato do Facebook: uma estrutura de poder habitada por careless people, e na qual Sarah Wynn-Williams se apresenta como aquela que se salvou a si mesma.

Mas essa analogia, embora poderosa, levanta um problema: ao fundar a narrativa sobre um trauma tão absoluto, o livro começa por pedir ao leitor que alinhe emocionalmente com a autora. E essa aliança, uma vez selada, é usada para validar todos os julgamentos seguintes. A dor do passado torna-se, aqui, autorização ética para o juízo incondicional.

Mas há neste capítulo algo mais ainda, e que me deixou desconfortável — não por causa do sofrimento descrito, mas por causa da estrutura com que ele é apresentado. O texto parece excessivamente bem calibrado. A progressão narrativa, os momentos de viragem, os diálogos, a ironia subtil, a frase final — tudo opera como num guião de cinema. Não me interessa discutir se “foi mesmo assim que aconteceu”. A memória é uma construção. Mas neste caso, a construção é tão precisa, tão literária, que levanta uma suspeita maior: estamos perante uma narrativa de trauma vivida e escrita pela autora, ou perante um texto reconstruído por editores, story doctors, especialistas em guião e dramaturgia narrativa? A editora sabia, desde o início, que este livro causaria estrondo à saída. Não consigo acreditar que aquele capítulo não tenha sido cuidadosamente reescrito para maximizar o efeito emocional.

Mas quando a dor real é transformada em mero dispositivo dramático, deixa de funcionar como testemunho para assumir-se como performance. Isto, para mim, compromete desde logo a legitimidade da denúncia ética.

Não continuo a ler "Careless People", e não por desinteresse, mas por excesso de desconfiança. Tal como me aconteceu com a série "The Dropout" (2022) sobre a fundadora da Theranos, o que me afasta não é o conteúdo, mas a forma — a escolha de converter realidades complexas em narrativas unidimensionais, donas de uma moral única e absoluta. Sinto como se tivesse sido convocado para um festim de apedrejamento, atirar sem questionar com base naquilo que é a opinião da autora. Sarah Wynn-Williams, busca transformar o leitor num fantoche, à semelhança do modo como apresenta todos os trabalhadores da Meta. 

Se existia algo efetivo para dizer, não era preciso manipular desta forma baixa os leitores. O bom ensaio expõe e argumenta, não enxovalha. Opera por confronto intelectual. E nesse aspeto, "Careless People" falha: constrói uma galeria exclusiva com figuras negativas, um mundo em que todos são moralmente indignos e irresponsáveis, onde apenas a autora possui bússola moral. Recuso-me a dar para a causa dela.

Escrever este texto serviu-me para encerrar o livro sem receios do DNF. Avancemos para leituras mais humildes e verdadeiras, capazes de compreender o alcance da expressão humana. Se fica bem a Hollywood ter bons de um lado e maus do outro, na literatura, a vida quer-se servida na sua plenitude, repleta de zonas cinzentas que permitam ao leitor construir a sua própria interpretação da realidade.


Nota: ★★☆☆☆

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Nota: Este texto foi desenvolvido a partir de uma interação com um modelo de linguagem avançado (IA), usado aqui como interlocutor crítico e ferramenta de estruturação.

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