Homero em Pompeia
Ver uma imagem antiga raramente é apenas ver o passado. Às vezes é ver o passado pelos olhos do seu próprio passado. Foi isso que senti ao ver, num documentário sobre Pompeia, um fresco com Paris e Helena de Troia . A imagem tem cerca de dois mil anos. Mas a história que ela representa já era, para os romanos que a pintaram e contemplaram, uma história antiga. Também eles herdavam figuras, narrativas e gestos vindos de muito longe. No centro está escrito —ΑΛΕΞΑΝΔΡΟΣ ΕΛΕΝΗ (Alexandros [Paris] — Helen) — em grego, o que evidencia o reconhecimento que a elite romana atribuía à cultura grega. Num instante, a ideia do tempo torna-se experiência. O tempo deixa de ser cronologia e passa a ser peso. É aí que nasce o arrepio. Não vem da beleza da imagem, nem da sua raridade arqueológica. Vem da consciência súbita da escala. Uma vida humana dura quase nada. Setenta ou oitenta anos são pouco mais do que um acidente mínimo dentro da longa duração da cultura. E, no entanto, é dent...