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O Viajante à Luz da Lua (1937) Antal Szerb

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Comecei O Viajante à Luz da Lua (1937), de Antal Szerb, com entusiasmo, mas fui perdendo alguma paciência com Mihály, e as suas crises existenciais atravessadas pelo conforto que também já tinha visto em Thoreau. Um homem em lua-de-mel que se perde da mulher em Itália e decide continuar perdido. Tem dinheiro, cultura, mobilidade, pessoas que o ajudam. Pode ir embora. Pode regressar. Move-se em busca de algo que não sabe o que é. Durante bastante tempo pareceu-me mera deambulação infantil. Fuga às obrigações. O problema não era o não acontecer nada. Nem a lentidão. Nem a veia satírica de Szerb. Era não sentir resistência no enredo. Não sentir que alguma coisa estivesse verdadeiramente em jogo em todo aquele flâneurismo . Durante boa parte de O Viajante à Luz da Lua , pensei em desistir, até encontrar Erwin num mosteiro em Itália. Diria que foi uma espécie de primeira fissura naquele mundo quase onírico de fuga e perda inicial. Porque se Mihály passa todo o tempo a fantasiar a possibili...

Unabomber (2026) a ciência no banco dos réus

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Não me interessa muito entrar na mente de Ted Kaczynski. Unabomber (2026), com Russell Crowe e estreado a 25 de setembro na Netflix, interessou-me por uma particularidade estética com impacto no significado do que o filme quer dizer, nomeadamente pelo modo como sentou a ciência no banco dos réus e depois, no momento decisivo, assustados com o que o filme estava efetivamente a fazer, os guionistas resolveram tirar da cartola um coelho de 1998 para evitar o pior. O filme de Janus Metz parte de um facto histórico. Kaczynski entrou em Harvard aos 16 anos e, no ano seguinte, participou numa série de experiências conduzidas por Henry Murray, psicólogo muito reconhecido na altura, destinadas a estudar o comportamento humano sob pressão. Os participantes eram levados a expor convicções pessoais e depois submetidos a confrontos agressivos destinados a provocar stress intenso e medir as suas reações. Hoje é fácil olhar para estes procedimentos como eticamente inaceitáveis. Terríveis. Mas é tam...

Fugitive parce que reine (2018)

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Acabei a leitura de " Fugitive parce que reine"  (2018), de Violaine Huisman, um pouco em choque. A primeira parte tinha-me atravessado completamente. Havia ali uma violência íntima, uma capacidade rara de abrir a família por dentro e mostrar aquilo que normalmente fica escondido atrás das fotografias, dos nomes respeitáveis, das casas e da cultura. Catherine surgia como uma presença forte, excessiva, por vezes cruel, mas também doente e humana. E Violaine Huisman parecia suficientemente consciente daquilo que estava a fazer para não transformar mero sofrimento em grandeza. Na segunda parte comecei a afastar-me. Entramos num mundo parisiense de intelectuais, artistas, homens e mulheres para quem o dinheiro parece existir sobretudo para ser gasto, para quem poupar é uma forma de mediocridade, jantar em casa quase uma derrota, antecipar o futuro um sintoma pequeno-burguês. Não é propriamente a riqueza que me incomoda, nem sequer o privilégio em si. O que me incomodou foi o desp...

Kubrick explicou 2001?

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Há qualquer coisa de extraordinário nesta entrevista de Stanley Kubrick de 1980. Durante anos, Kubrick recusou-se a explicar o significado de " 2001: A Space Odyssey " . Dizia que traduzir o filme verbalmente seria retirar ao espectador a possibilidade de o descobrir. O filme devia falar por si. Contudo, em 1980, numa entrevista telefónica ao japonês Jun'ichi Yao, aconteceu algo raro: perguntaram-lhe diretamente o que significava o final de 2001  e Kubrick respondeu. Jun'ichi Yao  – Well Japanese people love your films, especially [2001: A Space Odyssey]. But people are wondering what is the meaning of last scene., You know, the old man who [is] lying on the bed, in the house? Could you give us an answer? Kubrick:  I try to avoid doing this ever since the picture came out, because when you just say the ideas they sound foolish, whereas if they’re dramatized one feels it.” E depois acrescenta.  “But I’ll try.”  E explica. Bowman é levado por entidades superiores...

Second Victims (2025), Zinnini Elkington

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Acabei Second Victims de rastos. Não propriamente porque o filme faça algo de radicalmente novo na linguagem visual. Pelo contrário, trabalha dentro de uma gramática que se tornou quase dominante naquilo que chamo harsh realism : câmaras muito próximas dos rostos, profundidade curta, montagem rápida, corpos comprimidos pelo enquadramento, pouco espaço para respirar. É uma linguagem que procura eliminar a distância entre espectador e personagem, colocando-nos quase fisicamente dentro da pressão emocional. Pensei várias vezes em Adolescence (2025) , embora aí o efeito seja conseguido de forma quase inversa: sem montagem visível, através de plano-sequência, obrigando a que toda a tensão seja construída pela encenação, pela deslocação dos atores e da câmara dentro do espaço. Mas aquilo que verdadeiramente me destruiu em Second Victims foi Alexandra. O filme começa por fazer dela o nosso farol. Alexandra é extremamente competente e humana, atenta aos pacientes e aos colegas. Não é apenas ...

Armand (2024) Halfdan Ullmann Tøndel

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Acabei Armand (2024), de Halfdan Ullmann Tøndel, de boca aberta. Durante metade do filme achei que estava a ver uma história que precisava de ser compreendida: uma acusação entre duas crianças, duas mães colocadas em posições opostas, professores que tentam perceber o que aconteceu. Somos colocados no lugar tradicional de juntar pistas, escolher quem estará a dizer a verdade, procurar incoerências e desvios. Mas pouco depois o filme começa a desfazer tudo isso A mãe que acusa passa também a ser acusada. Surgem histórias antigas, violência, ressentimentos familiares. Aquilo que parecia uma linha com duas simples pontas transforma-se numa teia. E quanto mais informação obtemos, menos conseguimos compreender. Confesso que comecei a ficar irritado. Queria saber. Queria compreender. Queria que alguém finalmente me explicasse o que raio se tinha passado. A meio do filme embarcamos numa viagem semionírica que parece transportar-nos para outra dimensão, e começamos a duvidar de tudo, absoluta...

A Separation (2017), Katie Kitamura

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Acabei  A Separation (2017) , de Katie Kitamura, com uma sensação de experiência plena, ainda que acompanhada por uma ausência de novidade ou de fechamento, mas durante as 6 horas de leitura e escuta, Kitamura, juntamente com a voz de Katherine Waterston, levaram-me para um mundo particular, não escapista, porque dentro de mim. Durante todos os minutos que a ouvi e li senti que respirava melhor, que encontrava uma sincronia com o mundo lá fora, e isso permitiu-me aceitar melhor os momentos menos bons, e ganhar energia para continuar a puxar no resto dos dias. Não foi a minha primeira leitura de Kitamura, já tinha lido Intimacies  (2021) , e reconheci a mesma escrita controlada, assente numa extraordinária capacidade de observação à distância, intercalada com pequenos rasgos perceptivos. Mas desta vez bateu muito mais fundo. Há aqui também muito de Rachel Cusk , não apenas pela passagem pela Grécia, mas pela forma como a narradora parece construir-se menos a...