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Kubrick explicou 2001?

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Há qualquer coisa de extraordinário nesta entrevista de Stanley Kubrick de 1980. Durante anos, Kubrick recusou-se a dar qualquer explicação sobre " 2001: A Space Odyssey" . Ele dizia que explicar o filme verbalmente seria retirar ao espectador a possibilidade de o descobrir.  O filme devia falar por si. Contudo, parece que um entrevistador japonês, Jun'ichi Yaoi, ao perguntar-lhe diretamente, em 1980 e por telefone , o que acontece no final de 2001 abriu algo em Kubrick. Jun'ichi Yaoi – Well Japanese people love your films, especially [2001: A Space Odyssey]. But people are wondering what is the meaning of last scene., You know, the old man who [is] lying on the bed, in the house? Could you give us an answer? Kubrick:  I try to avoid doing this ever since the picture came out, because when you just say the ideas they sound foolish, whereas if they’re dramatized one feels it.” E depois acrescenta.  “But I’ll try.”  E explica. Bowman é levado por entidades superio...

Second Victims (2025), Zinnini Elkington

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Acabei Second Victims de rastos. Não propriamente porque o filme faça algo de radicalmente novo na linguagem visual. Pelo contrário, trabalha dentro de uma gramática que se tornou quase dominante naquilo que chamo harsh realism : câmaras muito próximas dos rostos, profundidade curta, montagem rápida, corpos comprimidos pelo enquadramento, pouco espaço para respirar. É uma linguagem que procura eliminar a distância entre espectador e personagem, colocando-nos quase fisicamente dentro da pressão emocional. Pensei várias vezes em Adolescence (2025) , embora aí o efeito seja conseguido de forma quase inversa: sem montagem visível, através de plano-sequência, obrigando a que toda a tensão seja construída pela encenação, pela deslocação dos atores e da câmara dentro do espaço. Mas aquilo que verdadeiramente me destruiu em Second Victims foi Alexandra. O filme começa por fazer dela o nosso farol. Alexandra é extremamente competente e humana, atenta aos pacientes e aos colegas. Não é apenas ...

Armand (2024) Halfdan Ullmann Tøndel

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Acabei Armand (2024), de Halfdan Ullmann Tøndel, de boca aberta. Durante metade do filme achei que estava a ver uma história que precisava de ser compreendida: uma acusação entre duas crianças, duas mães colocadas em posições opostas, professores que tentam perceber o que aconteceu. Somos colocados no lugar tradicional de juntar pistas, escolher quem estará a dizer a verdade, procurar incoerências e desvios. Mas pouco depois o filme começa a desfazer tudo isso A mãe que acusa passa também a ser acusada. Surgem histórias antigas, violência, ressentimentos familiares. Aquilo que parecia uma linha com duas simples pontas transforma-se numa teia. E quanto mais informação obtemos, menos conseguimos compreender. Confesso que comecei a ficar irritado. Queria saber. Queria compreender. Queria que alguém finalmente me explicasse o que raio se tinha passado. A meio do filme embarcamos numa viagem semionírica que parece transportar-nos para outra dimensão, e começamos a duvidar de tudo, absoluta...

A Separation (2017), Katie Kitamura

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Acabei  A Separation (2017) , de Katie Kitamura, com uma sensação de experiência plena, ainda que acompanhada por uma ausência de novidade ou de fechamento, mas durante as 6 horas de leitura e escuta, Kitamura, juntamente com a voz de Katherine Waterston, levaram-me para um mundo particular, não escapista, porque dentro de mim. Durante todos os minutos que a ouvi e li senti que respirava melhor, que encontrava uma sincronia com o mundo lá fora, e isso permitiu-me aceitar melhor os momentos menos bons, e ganhar energia para continuar a puxar no resto dos dias. Não foi a minha primeira leitura de Kitamura, já tinha lido Intimacies  (2021) , e reconheci a mesma escrita controlada, assente numa extraordinária capacidade de observação à distância, intercalada com pequenos rasgos perceptivos. Mas desta vez bateu muito mais fundo. Há aqui também muito de Rachel Cusk , não apenas pela passagem pela Grécia, mas pela forma como a narradora parece construir-se menos a...

A Escavação (2025)

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Acabei agora de ver "A Escavação" (2025) ("Danefæ", no original da Dinamarca) no RTP Play e fiquei ali parado a olhar para o genérico final, a pensar no quanto daquilo me falava de tão perto. Adoro arqueologia. Não tanto pelos objetos em si, nem pelo fascínio pelo antigo, mas por aquilo que cada fragmento encontrado nos pode dizer sobre quem passou por aqui antes de nós. Um osso, um dente, um pedaço de metal, uma posição no terreno. Coisas quase mudas, mas que às vezes, quando alguém faz a pergunta certa, começam a contar uma história. "Danefæ" (A Escavação) (2025)  Neste caso, a série leva-nos até à origem da Dinamarca, ao primeiro rei, à sua mãe, à introdução do cristianismo. Mas faz uma coisa muito inteligente: coloca no centro dois arqueólogos que olham para os mesmos achados e veem coisas diferentes. E são marido e mulher. Ele é diretor do Museu Nacional, reconhecido, respeitado, com toda uma carreira construída. Ela trabalha num pequeno museu regio...

La buena suerte (2020)

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La buena suerte acabou por me satisfazer bastante. Ouvi-o todos os dias durante as férias, nos passeios da manhã, acompanhando as desventuras de Pablo e aquela estranha decisão de suspender a vida. Porque é disso que o livro trata antes de ser qualquer outra coisa: de um homem que, de repente, deixa tudo para trás. Não exatamente para começar de novo. Talvez apenas para deixar de ser quem era. Foi aí que o livro mais me interessou. Na fuga, na culpa, na vontade de desaparecer sem propriamente morrer.  Pablo é um homem esmagado por uma vida que já não sabe habitar, por relações que não consegue resolver e por escolhas que não pode desfazer. Rosa Montero entra em zonas pouco confortáveis, sobretudo quando toca na família, na paternidade e na possibilidade de amarmos alguém e, ao mesmo tempo, desejarmos secretamente não carregar aquilo que essa pessoa representa. O livro torna-se bastante mais profundo do que o policial que também vai construindo. Fiquei, no entanto, com a sensação d...

The Fall of Hyperion (1990), do excesso de space opera

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Adorei Hyperion (1989) . O primeiro volume foi uma surpresa. Um universo denso, estranho, nem sempre compreensível, mas sustentado por uma arquitectura suficientemente sólida para nos fazer acreditar que tudo aquilo existia para além do que era explicado. O livro nunca precisa de revelar as regras de como tudo funciona, e isso é, em parte, a força do seu encanto.  The Fall of Hyperion  (1990) começa ainda dentro desse mesmo universo. Não existe uma verdadeira quebra entre os dois volumes. As personagens continuam, os conflitos avançam, e Simmons começa a responder às perguntas deixadas em aberto. Durante bastante tempo, ainda sentimos que estamos dentro do mesmo romance. Existem partes extraordinárias. Ummon é provavelmente a melhor criação do segundo volume. A conversa entre a inteligência artificial e o cíbrido Joseph Severn é um dos momentos em que Simmons consegue elevar a ficção científica para um plano conceptual muito pouco habitual. Não se limita a apresentar uma IA p...