Autobiografia do Vermelho, a colagem literária como arte
Terminei Autobiografia do Vermelho (1998) profundamente desiludido. Não apenas com o livro, mas sobretudo com a reverência crítica que o rodeia, agora ampliada pelo Nobel da Literatura de 2026 atribuído a Anne Carson. A obra parte da mitologia grega, recupera Gerião e Héracles e transforma-os em personagens de uma narrativa contemporânea. Pelo caminho, mistura poesia, prosa, ensaio, fragmentos de textos clássicos, entrevistas fictícias e reflexões sobre fotografia e vulcões. O problema não está na mistura de géneros, mas na dificuldade que tive em encontrar um sentido para a forma como todos estes elementos se relacionam. As personagens vagueiam por um mundo que raramente ganha consistência. A relação entre Gerião e Héracles, as viagens, a fotografia, os vulcões, tudo parece abrir possibilidades de exploração simbólica que acabam por nunca ganhar a profundidade que prometem. A narrativa avança através de associações e episódios que me pareceram resultar sobretudo do prazer da experime...