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Sobre a lista dos 100 melhores livros do Guardian

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Li 64 dos 100 livros da nova lista dos  100 Melhores Romances do Guardian . Abandonei ou recusei ler mais 9, e tenho outros 7 na prateleira à espera da disposição certa. Isto talvez seja suficiente para emitir a seguinte opinião: a lista é muito boa como sintoma, mas bastante fraca como mapa. Sintoma de um cânone anglófono que percebeu que precisava de se corrigir, de incluir mais mulheres, mais autores negros, mais vozes pós-coloniais, mais feridas históricas. Fraca como mapa porque continua a chamar “mundo” àquilo que é, em larga medida, a biblioteca escolar inglesa. "100 'Melhores' Livros de Ficção" pelo The Guardian (2026-5-16) Não é que faltem grandes livros. Pelo contrário: a lista está cheia deles. Mas quando Dickens, Austen e Woolf ocupam juntos 13 lugares em 100; quando 77 obras foram originalmente escritas em inglês; e quando a reparação cultural se faz quase sempre dentro do próprio espaço anglo-americano, já não estamos perante uma lista dos melhores roman...

Homero em Pompeia

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Ver uma imagem antiga raramente é apenas ver o passado. Às vezes é ver o passado pelos olhos do seu próprio passado.  Foi isso que senti ao ver, num documentário sobre Pompeia, um fresco com Paris e Helena de Troia . A imagem tem cerca de dois mil anos. Mas a história que ela representa já era, para os romanos que a pintaram e contemplaram, uma história antiga. Também eles herdavam figuras, narrativas e gestos vindos de muito longe.  No centro está escrito —ΑΛΕΞΑΝΔΡΟΣ ΕΛΕΝΗ (Alexandros [Paris] — Helen) — em grego, o que evidencia o reconhecimento que a elite romana atribuía à cultura grega.  Num instante, a ideia do tempo torna-se experiência. O tempo deixa de ser cronologia e passa a ser peso. É aí que nasce o arrepio. Não vem da beleza da imagem, nem da sua raridade arqueológica. Vem da consciência súbita da escala. Uma vida humana dura quase nada. Setenta ou oitenta anos são pouco mais do que um acidente mínimo dentro da longa duração da cultura. E, no entanto, é dent...

The Mattering Instinct (2026) de Rebeca Goldstein

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“The Mattering Instinct”, de Rebecca Goldstein, não vem anunciar nenhuma revelação nem abrir uma via realmente nova, embora se aproxime de uma das questões mais antigas de todas. A autora diz que não está a escrever “sobre o sentido da vida”, mas essa recusa é mais estratégica do que real: é disso que o livro trata, embora prefira fazê-lo a partir de uma pergunta mais concreta e psicologicamente manejável — o que fazemos para sentir que importamos, e com que custos . A estrutura é narrativa. Goldstein escreve por vinhetas: histórias de gente comum, histórias de figuras conhecidas, e passagens que funcionam como micro-aulas de filosofia em tom de conversa. Passamos por William James (o melhor do livro, para mim), por Bertrand Russell, por Baruch Spinoza, entre outros. Há uma tentativa clara de convencer-nos que o impulso de “mattering” não é só uma obsessão individual; é antes uma força que estrutura a cultura, a moral, o humano. O coração conceptual do livro está no “mattering map”, qu...

A Colónia (2023) Annika Norlin

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Acabei A Colónia , de Annika Norlin, no domingo passado, e fiquei com aquela sensação rara de ter encontrado um livro que acrescenta algo a uma fórmula já gasta. Não me interessa muito quando um romance se limita a confirmar o que já sabemos, ainda que o faça com competência. Confesso, aliás, um preconceito inicial, daqueles bacocos — sabendo que Annika Norlin vinha da música, pensei que talvez não houvesse ali espessura suficiente para sustentar um romance deste tipo. Foi um erro. E dos bons, porque corrigido pela leitura. A Colónia não impressiona por exibir profundidade filosófica, mas por a traduzir em densidade psicológica. Não se arma em tratado sobre o humano, não se encena como grande tese sobre comunidade ou pertença. Faz algo mais difícil: observa, com uma precisão capaz de nos colocar lá dentro e de revelar algo que talvez ainda não víssemos em nós mesmos. À superfície, o romance pode ser lido como uma história de afastamento do mundo, de vida em comunidade, de procura de o...

Searches: Selfhood in the Digital Age (2025) Vauhini Vara

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Vauhini Vara é jornalista de tecnologia no Washington Post, pelo que o livro com este título e o dispositivo (conversas com LLM), promeita algo sério. Pensei que íamos ler sobre o que acontece ao self quando a escrita deixa de ser exclusivamente nossa. Mas o que encontrei foi performance sem reflexão. A estrutura é colagem ( memoir + genealogia genérica da internet/ search /tecnologia), sem qualquer enquadramento para que a colagem produza pensamento. O capítulo das “Searches” é exemplar: em vez de curadoria e leitura interpretativa do arquivo, há um despejo de anos de perguntas ao Google, sem esforço para identificar padrões, extrair conflito, ou transformar esse material em conhecimento. O capítulo “Ghosts”, que eu esperava ser o coração experimental, reinicia o mesmo texto repetidamente e drena o drama; e, mais grave, não oferece qualquer análise do processo de co-criação. Não há interpretação do que o LLM está a fazer, nem discussão das decisões autorais (porquê aceitar X e r...

All the Pretty Horses (1992) de Cormac McCarthy

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Ler All the Pretty Horses  ("Belos Cavalos") hoje é entrar num mundo que parece real apenas à superfície. O romance afirma situar-se em 1950 (data deduzida apenas pela referência ao divórcio de Shirley Temple), mas tudo nele remete a um tempo muito anterior. Não estamos na América pós-Guerra, pós-New Deal, pós-industrialização. Estamos num Velho Oeste fossilizado, e aqui não há como suavizar: isto não é mito, é fantasia histórica. O elemento mais revelador é o cavalo. Nada é mais caro de manter: ração, ferraduras, veterinário, estábulo, terreno. Um cavalo não vive de ar e água, ao contrário do que o livro faz crer. Mesmo famílias rurais com meios tinham dificuldade em sustentar um. E, no entanto, McCarthy coloca cavalos nas mãos de rapazes de dezasseis anos como se fossem bicicletas. É um mundo impossível de existir em 1950, e por isso o romance produz uma sensação constante de deslocação histórica. As pessoas deslocavam-se de carro, comboio e bicicleta — não a cavalo. Aqui, ...

Flesh (2025) David Szalay

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Terminei " Flesh"  com uma sensação estranha: a de ter sido arrastado por um livro que sabe perfeitamente como me manter a virar páginas, e, ao mesmo tempo, a de ter assistido a um exercício de escrita que se recusa a fazer aquilo que eu peço à literatura quando ela decide aproximar-se do humano. Szalay tem uma competência objetiva: criar movimento narrativo . Há sempre qualquer coisa a acontecer; há sempre um pequeno desvio, uma ameaça, um próximo passo. E isso fabrica expectativa. A expectativa dá energia. E a energia dá “page-turning”. O problema é quando, no fim, percebemos que o livro estava a viver do crédito dessa expectativa, e não da consequência real do que acontece. O que me irritou, no fundo, foi isto: Flesh reúne material com potencial explosivo — trauma, classe, migração, masculinidade, guerra, sexo, dinheiro, violência — mas não o converte em interioridade, nem transformação. O romance acumula “matéria” e recusa o processo alquímico que faria dessa matéria alg...