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A mostrar mensagens de março, 2026

Homero em Pompeia

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Ver uma imagem antiga raramente é apenas ver o passado. Às vezes é ver o passado pelos olhos do seu próprio passado.  Foi isso que senti ao ver, num documentário sobre Pompeia, um fresco com Paris e Helena de Troia . A imagem tem cerca de dois mil anos. Mas a história que ela representa já era, para os romanos que a pintaram e contemplaram, uma história antiga. Também eles herdavam figuras, narrativas e gestos vindos de muito longe.  No centro está escrito —ΑΛΕΞΑΝΔΡΟΣ ΕΛΕΝΗ (Alexandros [Paris] — Helen) — em grego, o que evidencia o reconhecimento que a elite romana atribuía à cultura grega.  Num instante, a ideia do tempo torna-se experiência. O tempo deixa de ser cronologia e passa a ser peso. É aí que nasce o arrepio. Não vem da beleza da imagem, nem da sua raridade arqueológica. Vem da consciência súbita da escala. Uma vida humana dura quase nada. Setenta ou oitenta anos são pouco mais do que um acidente mínimo dentro da longa duração da cultura. E, no entanto, é dent...

The Mattering Instinct (2026) de Rebeca Goldstein

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“The Mattering Instinct”, de Rebecca Goldstein, não vem anunciar nenhuma revelação nem abrir uma via realmente nova, embora se aproxime de uma das questões mais antigas de todas. A autora diz que não está a escrever “sobre o sentido da vida”, mas essa recusa é mais estratégica do que real: é disso que o livro trata, embora prefira fazê-lo a partir de uma pergunta mais concreta e psicologicamente manejável — o que fazemos para sentir que importamos, e com que custos . A estrutura é narrativa. Goldstein escreve por vinhetas: histórias de gente comum, histórias de figuras conhecidas, e passagens que funcionam como micro-aulas de filosofia em tom de conversa. Passamos por William James (o melhor do livro, para mim), por Bertrand Russell, por Baruch Spinoza, entre outros. Há uma tentativa clara de convencer-nos que o impulso de “mattering” não é só uma obsessão individual; é antes uma força que estrutura a cultura, a moral, o humano. O coração conceptual do livro está no “mattering map”, qu...

A Colónia (2023) Annika Norlin

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Acabei A Colónia , de Annika Norlin, no domingo passado, e fiquei com aquela sensação rara de ter encontrado um livro que acrescenta algo a uma fórmula já gasta. Não me interessa muito quando um romance se limita a confirmar o que já sabemos, ainda que o faça com competência. Confesso, aliás, um preconceito inicial, daqueles bacocos — sabendo que Annika Norlin vinha da música, pensei que talvez não houvesse ali espessura suficiente para sustentar um romance deste tipo. Foi um erro. E dos bons, porque corrigido pela leitura. A Colónia não impressiona por exibir profundidade filosófica, mas por a traduzir em densidade psicológica. Não se arma em tratado sobre o humano, não se encena como grande tese sobre comunidade ou pertença. Faz algo mais difícil: observa, com uma precisão capaz de nos colocar lá dentro e de revelar algo que talvez ainda não víssemos em nós mesmos. À superfície, o romance pode ser lido como uma história de afastamento do mundo, de vida em comunidade, de procura de o...