The Mattering Instinct (2026) de Rebeca Goldstein
“The Mattering Instinct”, de Rebecca Goldstein, não vem anunciar nenhuma revelação nem abrir uma via realmente nova, embora se aproxime de uma das questões mais antigas de todas. A autora diz que não está a escrever “sobre o sentido da vida”, mas essa recusa é mais estratégica do que real: é disso que o livro trata, embora prefira fazê-lo a partir de uma pergunta mais concreta e psicologicamente manejável — o que fazemos para sentir que importamos, e com que custos.
A estrutura é narrativa. Goldstein escreve por vinhetas: histórias de gente comum, histórias de figuras conhecidas, e passagens que funcionam como micro-aulas de filosofia em tom de conversa. Passamos por William James (o melhor do livro, para mim), por Bertrand Russell, por Baruch Spinoza, entre outros. Há uma tentativa clara de convencer-nos que o impulso de “mattering” não é só uma obsessão individual; é antes uma força que estrutura a cultura, a moral, o humano.
O coração conceptual do livro está no “mattering map”, que eu gosto particlarmente, apesar de saber que estas tentativas de classificação são sempre complicadas, porque o ser humano raramente encaixa numa única gaveta. O mapa apresenta-se como um arquipélago de quatro grandes “continentes” cercados por um “Sea of Longing”: "Transcenders", "Socializers", "Heroic Strivers" e "Competitors". Mas a metáfora funciona bem: somos navegantes do oceano em constante busca por terra. E o mapa, ao seguir essa lógica, mostra que o “mattering” não é uma estrada única, mas um sistema de rotas.
À esquerda surge o continente dos Transcenders, desenhado quase como atlas de religiões (Cristãos, Muçulmanos, Budistas, Hindus, etc.). É a região onde o mattering se ancora num “além”: Deus, o absoluto, uma ordem cósmica, um sentido transcendental. Goldstein é suficientemente honesta para reconhecer a potência desta estratégia: ela promete algo que as outras não prometem: fundamento. Ao lado, no centro, vem o enorme continente dos Socializers, subdividido em “Family”, “Friends & Lovers”, “Community”, “Non-intimates”, “Fame seekers”. Aqui, importamos porque pertencemos, porque somos vistos, porque somos amados, porque alguém nos dá atenção. A presença destas subdivisões é um detalhe bom: lembra-nos que “o social” não é uma categoria moralmente pura; há intimidade e há fama, há comunidade e há culto, há calor e há manipulação.
À direita aparecem os Heroic Strivers, com rótulos como “Artistic”, “Intellectual”, “Athletic”, “Ethical” e até uma “Bay of Excellence (Beware the shoals of perfectionism)”. Goldstein acerta no tom: a busca de excelência traz um brilho que pode virar faca. E, por fim, os Competitors, com “Individualist” e “Group”, e duas baías deliciosamente venenosas: “Bay of Resentment” e, noutra ponta, aquela zona em que a competição se torna identidade. É aqui que o livro ganha atualidade: esta tipologia descreve bem a diferença entre quem quer “fazer melhor” e quem precisa que o outro “fique abaixo” para respirar.
O mapa é simples, e por isso é útil; mas também é, como eu senti ao longo da leitura, um pouco abstracto quando tentamos usá-lo como instrumento fino. Ele não é um modelo explicativo com eixos e hipóteses testáveis; é uma cartografia de temperamentos existenciais. Funciona melhor como espelho do que como método. A sua força está em oferecer uma pergunta clara: quando digo “quero que a minha vida importe”, em que continente estou a falar? E a sua limitação está em não nos dar um mecanismo para resolver o conflito entre continentes, porque quase todos somos feitos de mistura.
O livro organiza-se, então, em torno destas quatro “estratégias” de mattering: transcender, socializar, esforçar-se heroicamente, competir. Goldstein percorre-as com exemplos, e a pedagogia é boa: os casos têm textura e evitam o tom de tese. O problema é que, para leitores que já andam por estas zonas há muito tempo, a surpresa é pequena. A autora escreve bem, mas a ambição é mais de clarificação do que de descoberta.
Onde o livro se torna mais interessante é quando Goldstein tenta evitar o relativismo total. Se há quatro estratégias, se há múltiplas formas de “importar”, então qualquer forma vale? Não. Ela insiste que há “mattering projects” que são moralmente corrosivos: podem funcionar psicologicamente (dão energia, dão rumo), mas destroem o outro. E introduz um elemento crucial: os “adjudicators”, os árbitros sociais do mattering (instituições, gatekeepers culturais, sistemas de reconhecimento) que muitas vezes erram e moldam destinos com injustiça. Aqui, o livro toca num nervo real: o mattering não é só interior; é distribuído, e assim pode ser conferido ou retirado.
E depois vem o fecho normativo, onde eu senti a autora a querer, com alguma pressa, construir um critério “secular” que substitua a transcendência. A proposta dela (numa linha) é que “viver bem” está ligado a resistir à entropia, criar ordem local contra o caos: conhecimento, beleza, compaixão, tolerância, cuidado. É uma boa ideia e, ao mesmo tempo, frágil: soa a filosofia com vontade de ciência, e pode parecer um pouco “grande palavra” para fechar um livro que vive sobretudo de tipologia. Ainda assim, percebe-se que ela quer que o mapa não seja apenas descritivo.
Eu gostei muito do segmento sobre William James, precisamente porque ele encarna uma forma de viver sem garantias absolutas, mas sem ceder ao cinismo. E gostei também do tratamento do competitivo, sobretudo quando a autora aproxima essa psicologia da figura de Donald Trump: não tanto como retrato jornalístico, mas como exemplo de uma forma de mattering que vive de soma-zero, de humilhação e de performance de dominância. Não é preciso gostar do exemplo para reconhecer a sua utilidade.
No final, "The Mattering Instinct" fica como um livro honesto, que oferece uma cartografia visual memorável. A tese talvez seja menos “filosofia do sentido da vida” e mais “inventário das estratégias com que evitamos cair no vazio”. Não me tirou o chão. Mas ajuda a identificar e a nomear esse chão.


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