Homero em Pompeia

Ver uma imagem antiga raramente é apenas ver o passado. Às vezes é ver o passado pelos olhos do seu próprio passado. Foi isso que senti ao ver, num documentário sobre Pompeia, um fresco com Paris e Helena de Troia. A imagem tem cerca de dois mil anos. Mas a história que ela representa já era, para os romanos que a pintaram e contemplaram, uma história antiga. Também eles herdavam figuras, narrativas e gestos vindos de muito longe. 

No centro está escrito —ΑΛΕΞΑΝΔΡΟΣ ΕΛΕΝΗ (Alexandros [Paris] — Helen) — em grego, o que evidencia o reconhecimento que a elite romana atribuía à cultura grega. 

Num instante, a ideia do tempo torna-se experiência. O tempo deixa de ser cronologia e passa a ser peso. É aí que nasce o arrepio. Não vem da beleza da imagem, nem da sua raridade arqueológica. Vem da consciência súbita da escala. Uma vida humana dura quase nada. Setenta ou oitenta anos são pouco mais do que um acidente mínimo dentro da longa duração da cultura. E, no entanto, é dentro dessa duração que pensamos, desejamos e reconhecemos o mundo. 

O mais impressionante é que uma história tão distante continue a ser legível. Não legível em tudo, porque seria absurdo negar a distância entre eles e nós. Mudaram os códigos, as crenças, o lugar da mulher, a ideia de destino, a experiência da guerra, a relação com o sagrado. Mas, mesmo assim, muito permanece. O encontro entre dois corpos, a tensão do desejo, a promessa: continuamos a perceber o que está ali em causa.

É talvez esse o ponto mais fundo. O passado não nos impressiona apenas pela diferença. Impressiona-nos porque, no interior da diferença, reconhecemos alguma coisa. Aqueles humanos de um tempo que já não podemos habitar não são apenas remotos. São também próximos. Também eles se deixavam conduzir por histórias. Também eles decoravam as suas casas com narrativas. Também eles olhavam para figuras antigas e nelas procuravam um espelho, uma forma de pensar e projetar as suas próprias ansiedades.

Há, no fresco, um detalhe que me parece decisivo: o cão deitado no chão. Está ali sem função épica. Não acrescenta glória, nem grandeza. Está apenas deitado. E, no entanto, é talvez ele que torna a imagem mais perturbadora. Porque traz a cena para o nível do mundo vivido. O mito continua presente, claro. Mas já não é apenas mito. Há chão, cria-se proximidade. Há qualquer coisa de doméstico no interior da narrativa que a tradição transformou em símbolo. E isso aproxima-nos ainda mais deles. 

Talvez seja por isso que certas imagens antigas produzem mais do que admiração. Produzem vertigem. Fazem-nos sentir ao mesmo tempo duas coisas difíceis de sustentar. Por um lado, a nossa insignificância. Tudo passa. Nós passamos. O que hoje parece central nas nossas vidas será engolido pelo tempo com a mesma indiferença com que desapareceram nomes, casas, impérios e vozes que outrora também se julgaram centrais. Por outro lado, essas mesmas imagens mostram que a experiência humana não se dissolve por completo. Alguma coisa persiste. Não como essência pura, nem como repetição mecânica, mas como continuidade de formas. Continuamos a viver dentro de narrativas que outros viveram antes de nós.

É isso que altera a posição do olhar. Quando vemos um fresco destes, deixamos de estar simplesmente diante de uma ruína do passado. Estamos diante de uma cadeia de receção. Nós olhamos para romanos que olhavam para gregos. E, entre esses níveis, há um ponto comum: cada época recebe histórias que não inventou, apropria-se delas e transmite-as de novo. A cultura não é apenas criação. É também circulação, herança, reformulação. Cada presente é habitado por passados que já chegam transformados. O fresco de Pompeia torna isso visível de forma quase brutal.

O que me impressiona, no fundo, não é só a sobrevivência da imagem. É a sobrevivência do reconhecimento. Quase tudo o que cercava aquela parede desapareceu. Desapareceram as vozes da casa, os seus cheiros, o calor do dia, os passos nas ruas, os rostos concretos de quem ali viveu. Mas ficou qualquer coisa suficiente para reativar um laço. Não sabemos quem olhou aquele fresco pela primeira vez. Não sabemos o que pensou. Mas sabemos que viu ali uma história que já vinha de trás. E nós, hoje, vemos o mesmo. Não a vemos da mesma maneira. Mas vemos ainda o bastante para perceber que a linha não foi quebrada.

Talvez o arrepio venha precisamente daqui. Da perceção de que o tempo nos reduz, mas não nos isola. Somos breves. Talvez ridiculamente breves. Mas não estamos sós no interior dessa brevidade. Pertencemos a uma longa corrente de humanos que herdaram formas, imagens e histórias para tentarem dar forma ao que os transcendia. O fresco de Pompeia mostra Paris e Helena. Mas mostra também outra coisa: a maneira como uma simples história pode atravessar séculos e continuar a revelar-nos que os humanos de outro tempo, quase outro mundo, não eram menos humanos do que nós.

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