Nuremberga (2025)
Terminei Nuremberga (2025) com uma sensação clara: este é um filme tecnicamente competente, com atores sólidos e um mundo bem construído, mas falha no ponto essencial. Falha na forma como representa Hermann Goering. E falha de um modo que considero grave.
Começo pelo que funciona. Hollywood sabe bem criar mundo. A atmosfera institucional e o peso visual da época são muito bem feitos. O filme tem textura e transmite credibilidade visual. Os atores ajudam a sustentar esse mundo. Russell Crowe, Michael Shannon e o resto do elenco têm presença e dão corpo às figuras históricas.
O problema não está na encenação nem nas interpretações isoladas. Está no guião e na construção dramática. O filme é montado em sequências curtas, pensadas para provocar emoção rápida, mas raramente desenvolve pensamento ou conflito até às últimas consequências. São “bocados” de cenas, “bocados” de conversas, “bocados” de tensão, que se sucedem sem verdadeira progressão. Não há tempo para conhecer ninguém a fundo. Não ficamos a saber quem é Goering para além do que já sabemos à partida, nem o psiquiatra, nem o procurador americano.
O que poderia ser um estudo sério de confrontos morais e psicológicos acaba reduzido a um alinhamento de momentos dramáticos previsíveis. O filme trata o espectador como alguém que precisa constantemente de estímulos, mas a quem não se confia a capacidade de acompanhar um arco complexo.
O embate entre Goering e Robert Jackson é o exemplo mais claro desta insuficiência. O filme anuncia esse confronto desde cedo como se fosse o grande momento, o clímax moral e intelectual da narrativa. Quando finalmente acontece, o resultado é fraco. Não há verdadeiro choque de visões do mundo, não há risco para nenhuma das partes, nem revelação. A cena passa, cumpre a função de parecer importante, mas não marca. Parece por vezes quase teatro filmado. A câmara regista discursos e réplicas, mas não acrescenta camada, não pensa com a montagem, não explora silêncios ou gestos. São pessoas a falar texto em fundo histórico.
Até aqui, teríamos “apenas” um filme mediano sobre um tema importante, com boa produção, bons atores e um guião preguiçoso. Mas há algo mais sério em jogo.
Ao longo de Nuremberga, Goering nunca é verdadeiramente dobrado. Não falo do desfecho factual da sua vida. Falo da sua posição dentro do filme. Em todas as cenas em que aparece, Goering mantém estatuto, controlo e coerência interna. Nunca o vemos em colapso, nunca o vemos confrontado com uma contradição que o desarme, nunca o vemos perder o domínio da situação, mesmo estando preso e julgado. Ele fala bem, pensa rápido, conduz as conversas. O filme deixa-o ocupar esse lugar sem o desmontar.
A relação com o psiquiatra agrava este efeito. As conversas entre os dois são, em geral, suaves, quase amigáveis. Falta dureza. Falta fricção real. Falta confronto. Nas cenas que deveriam servir para expor mecanismos de autojustificação, cinismo ou delírio, o que recebemos é diálogo cordial, por vezes quase “doce”. O resultado é uma humanização que não é contraposta por um trabalho dramático de desmascaramento. Em vez de vermos o psiquiatra a abrir fissuras na figura de Goering, vemos alguém que o escuta, o segue e raramente o encosta a um limite.
É aqui que entra o risco mal gerido pelo filme. É verdade que, se Goering fosse mostrado a sofrer frontalmente, em primeiro plano, haveria o perigo de gerar empatia indevida, de produzir identificação emocional onde ela não é desejável. Mas Nuremberga resolve este problema pela via da omissão, não pela via da complexidade. Para evitar vitimizar Goering, o filme evita também expô-lo. Não o mostra em sofrimento, mas também não o mostra a ser desmontado. O efeito é perverso: Goering passa o filme inteiro sem queda simbólica.
Russell Crowe é parte importante deste resultado. Ele interpreta Goering com competência e carisma. Não há exagero, nem caricatura. O problema é que, dentro do desenho do filme, esta interpretação acaba por enaltecer a figura. Se o guião não cria momentos em que Goering é confrontado a sério, se não o força a falhar, se não o tira do lugar de domínio do discurso, então a boa interpretação de Crowe transforma-se, inevitavelmente, numa forma de engrandecimento.
No fim, Nuremberga constrói um mundo convincente e oferece a Goering um palco para se eternizar como alguém extremamente inteligente, competente, capaz e imbatível. Como se não bastasse, ainda lhe atribui, através do psiquiatra, um lado suave e humano, sugerindo que talvez não tenha sido assim tão mau. Isto não é apenas um erro narrativo: é um erro moral.

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