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Searches: Selfhood in the Digital Age (2025) Vauhini Vara

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Vauhini Vara é jornalista de tecnologia no Washington Post, pelo que o livro com este título e o dispositivo (conversas com LLM), promeita algo sério. Pensei que íamos ler sobre o que acontece ao self quando a escrita deixa de ser exclusivamente nossa. Mas o que encontrei foi performance sem reflexão. A estrutura é colagem ( memoir + genealogia genérica da internet/ search /tecnologia), sem qualquer enquadramento para que a colagem produza pensamento. O capítulo das “Searches” é exemplar: em vez de curadoria e leitura interpretativa do arquivo, há um despejo de anos de perguntas ao Google, sem esforço para identificar padrões, extrair conflito, ou transformar esse material em conhecimento. O capítulo “Ghosts”, que eu esperava ser o coração experimental, reinicia o mesmo texto repetidamente e drena o drama; e, mais grave, não oferece qualquer análise do processo de co-criação. Não há interpretação do que o LLM está a fazer, nem discussão das decisões autorais (porquê aceitar X e r...

All the Pretty Horses (1992) de Cormac McCarthy

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Ler All the Pretty Horses  ("Belos Cavalos") hoje é entrar num mundo que parece real apenas à superfície. O romance afirma situar-se em 1950 (data deduzida apenas pela referência ao divórcio de Shirley Temple), mas tudo nele remete a um tempo muito anterior. Não estamos na América pós-Guerra, pós-New Deal, pós-industrialização. Estamos num Velho Oeste fossilizado, e aqui não há como suavizar: isto não é mito, é fantasia histórica. O elemento mais revelador é o cavalo. Nada é mais caro de manter: ração, ferraduras, veterinário, estábulo, terreno. Um cavalo não vive de ar e água, ao contrário do que o livro faz crer. Mesmo famílias rurais com meios tinham dificuldade em sustentar um. E, no entanto, McCarthy coloca cavalos nas mãos de rapazes de dezasseis anos como se fossem bicicletas. É um mundo impossível de existir em 1950, e por isso o romance produz uma sensação constante de deslocação histórica. As pessoas deslocavam-se de carro, comboio e bicicleta — não a cavalo. Aqui, ...

Flesh (2025) David Szalay

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Terminei " Flesh"  com uma sensação estranha: a de ter sido arrastado por um livro que sabe perfeitamente como me manter a virar páginas, e, ao mesmo tempo, a de ter assistido a um exercício de escrita que se recusa a fazer aquilo que eu peço à literatura quando ela decide aproximar-se do humano. Szalay tem uma competência objetiva: criar movimento narrativo . Há sempre qualquer coisa a acontecer; há sempre um pequeno desvio, uma ameaça, um próximo passo. E isso fabrica expectativa. A expectativa dá energia. E a energia dá “page-turning”. O problema é quando, no fim, percebemos que o livro estava a viver do crédito dessa expectativa, e não da consequência real do que acontece. O que me irritou, no fundo, foi isto: Flesh reúne material com potencial explosivo — trauma, classe, migração, masculinidade, guerra, sexo, dinheiro, violência — mas não o converte em interioridade, nem transformação. O romance acumula “matéria” e recusa o processo alquímico que faria dessa matéria alg...

Tudo o Que Um Homem É (2016) David Szalay

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"Tudo o Que Um Homem É", de David Szalay, chegou-me como promessa de “retrato do homem contemporâneo”. Não tendo já muitas expectativas sobre esse tal “homem moderno”, olhei para o livro com desconfiança. Comecei a ler e, em poucas páginas, bateu-me uma sensação paradoxal: por um lado, o texto é competente, direto, sem floreados desnecessários; por outro, o que domina é sexo – corpos, encontros, impulsos mal resolvidos. A minha primeira reação foi irritação. Senti algo que conheço demasiado bem, não enquanto experiência pessoal, mas enquanto retórica: o jovem perdido, o homem deslocado, o sexo como escape e como prova de qualquer coisa que ele próprio não sabe o que é. No início, a minha vontade foi abandonar. Percebia a perícia técnica, mas não via o que é que me acrescentaria seguir mais um homem imaturo a tropeçar em corpos e situações sexualmente carregadas. O sexo, aqui, aparece com a previsibilidade de um mecanismo de relógio: há sempre um encontro em potência, um cor...

Sussurros (2007) de Orlando Figes

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O que " The Whisperers: Private Life in Stalin's Russia " (2007), de Orlando Figes, faz não é apenas contar o terror político soviético. Outros livros já contaram o terror político soviético. Este vai mais fundo: entra na vida interior das pessoas que viveram debaixo desse regime. Mostra como a política entra na cabeça, na família, no que se pode ou não dizer à mesa, no que se confia aos filhos, no que se cala até ao fim da vida. É um livro sobre medo, mas não o medo “lá fora”, dos uniformes e dos interrogatórios. É o medo que mexe na gramática do dia-a-dia. O medo que ensina o corpo a falar mais baixo. Em Figes, o "sussurro "( whisper ) não é um recurso poético. É uma técnica de sobrevivência. Fala-se em voz baixa porque as paredes ouvem, porque o vizinho pode denunciar, porque o filho pode repetir na escola. A frase inteira deixa de ser um direito. Fica apenas é um resto de voz, num corredor, numa cozinha, numa cama partilhada. Foi este livro que me obrigou a ...