Tudo o Que Um Homem É (2016) David Szalay

"Tudo o Que Um Homem É", de David Szalay, chegou-me como promessa de “retrato do homem contemporâneo”. Não tendo já muitas expectativas sobre esse tal “homem moderno”, olhei para o livro com desconfiança. Comecei a ler e, em poucas páginas, bateu-me uma sensação paradoxal: por um lado, o texto é competente, direto, sem floreados desnecessários; por outro, o que domina é sexo – corpos, encontros, impulsos mal resolvidos. A minha primeira reação foi irritação. Senti algo que conheço demasiado bem, não enquanto experiência pessoal, mas enquanto retórica: o jovem perdido, o homem deslocado, o sexo como escape e como prova de qualquer coisa que ele próprio não sabe o que é.

No início, a minha vontade foi abandonar. Percebia a perícia técnica, mas não via o que é que me acrescentaria seguir mais um homem imaturo a tropeçar em corpos e situações sexualmente carregadas. O sexo, aqui, aparece com a previsibilidade de um mecanismo de relógio: há sempre um encontro em potência, um corpo disponível, um mal-entendido emocional.

Mas algo me impediu de o largar logo. Parte disso foi mera curiosidade, mas foi também perceber que Szalay estava a trabalhar um mosaico, que aquele primeiro rapaz-homem era apenas um fragmento de um plano maior. Outra parte foi ainda a sensação, irritante, de que o livro estava a insistir precisamente onde me custa estar: na banalidade do desejo masculino, no uso dos outros como escape da inquietação.

À medida que fui avançando, o tom foi mudando, ligeiramente. Já não era só um rapaz à deriva, era uma outra figura, mais velha, mais cansada, um homem que já não vivia apenas à superfície do impulso. Senti um primeiro ponto de inflexão: comecei a compreender que Szalay não estava interessado apenas em choques de carne, mas sim na curva completa de uma masculinidade que envelhece, falha, insiste e repete.

A minha leitura passou, então, de “isto é só sexo” para “o sexo é apenas a camada mais visível de uma coisa mais funda que está a ser dissecada”. E o desconforto toroua-se produtivo: comecei a ler contra o livro e com o livro ao mesmo tempo, irritado com o que mostra, mas também reconhecendo que essa irritação era um índice de qualquer coisa que me toca — na forma como penso a masculinidade, a mediania, e o falhanço.

Num ponto, Sazalay criou uma imagem poderosíssima que acabou por organizar o livro inteiro: a metáfora das bolhas que sobem.

"From somewhere an image has entered Simon’s head, an image of human life as bubbles rising through water. The bubbles rise in streams and clouds, touching and mingling and yet each remaining individually defined as they travel upwards from the depths towards the light, until at the surface they cease to exist as individual entities. In the water they existed physically, individually – in the air they are part of the air, part of an endless whole, inseparable from everything else. Yes, he thinks, squinting in the mist-softened sunlight, tears filling his eyes, that is how it is – life and death."

Vejo cada homem de Szalay como uma bolha que emerge de um fundo anónimo. Sobe rapidamente, carrega dentro de si a ilusão de excecionalidade – “a minha história é diferente”, “eu ainda vou fazer qualquer coisa de grande”, “este encontro, esta decisão, este momento vai mudar tudo” – e depois rebenta, deixando apenas um vestígio momentâneo na superfície.

O livro é uma sucessão de bolhas. Rapazes e homens que acreditam, por instantes, que a vida ainda está à espera deles. Uma viagem, um emprego, uma amante, um negócio, uma promoção, um reencontro: cada episódio monta a expectativa de que agora, finalmente, alguma coisa se decide. Mas o que o livro mostra, com uma crueldade calma, é que quase nada se decide realmente. As bolhas rebentam, a água volta a alisar-se, e a vida segue com a mesma densidade indiferente.

É aqui que a metáfora se torna mais do que imagem: passa a eixo de leitura. As bolhas não são apenas os protagonistas; são também o desejo — de sexo, de status e de identidade. Tudo sobe rápido, tudo rebenta rápido. E o livro, ao insistir nessa repetição, obriga-me a encarar um diagnóstico incómodo: a vida não é feita de grandes viragens, mas de sucessivas microilusões que mal chegam a ter tempo de se concretizar.

A grande força do livro está exatamente em recusar a narrativa heroica. Não há “arcos de personagem” no sentido pedagógico. O que há são vidas em trânsito, quase sempre deslocadas:

  • homens em aeroportos, hotéis, cidades que não são as deles;

  • relações que estão sempre a começar ou a acabar, mas raramente a maturar;

  • trabalhos que não se tornam vocação, apenas sobrevivência ou fracasso em câmara lenta.

Esta mobilidade constante fez-me ler a masculinidade contemporânea como algo sem chão. O homem de Szalay é alguém que nunca está verdadeiramente em casa, nem consigo nem com os outros. Anda sempre a caminho de qualquer coisa que não chega, ou que, quando chega, rapidamente revela ser menos do que prometia.

O sexo, neste quadro, deixa de ser o “tema” e torna-se sintoma. O uso intensivo de corpos, sobretudo nos primeiros capítulos, parece dizer: estes homens não sabem o que fazer consigo mesmos; portanto, fazem qualquer coisa com o corpo do outro. Procuram confirmar-se, provar a si próprios que ainda contam, que ainda são desejáveis, que ainda podem. Mas o livro é implacável a mostrar o vazio logo a seguir ao ato. Não há comunhão, não há construção; há descarga, seguida de uma espécie de silêncio moral, onde nada se transforma de facto.

A Europa em que estas histórias se desenrolam é uma Europa sem épica. Não há grandes causas, grandes guerras, grandes ideais. Há low-costs, deslocações de trabalho, férias, pequenos negócios, precariedade, arranjos. Esse contexto torna-se parte do diagnóstico: estes homens não são apenas indivíduos falhados; são produtos de um tempo em que a promessa de excecionalidade é generalizada, mas as condições reais de vida empurram tudo para uma mediania saturada.

O livro não responde, claro, à pergunta do título. Mas fabricou em mim uma resposta provisória: talvez “tudo o que um homem é” hoje seja isto mesmo, um somatório de tentativas falhadas de sair da mediania, de se sentir especial por um instante.

Szalay constrói o livro como um quase-romance: nove vidas masculinas, organizadas numa progressão de idades – dos mais novos aos mais velhos – e espalhadas por vários pontos da Europa. Esta arquitetura cria um efeito curioso: não há protagonista, mas há uma espécie de protagonista-sombra que é a própria condição masculina em diferentes fases da vida. Em vez de seguirmos um homem a envelhecer, seguimos vários homens em momentos distintos, compondo um contínuo fragmentado, mas simultaneamente mais significante.

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