Searches: Selfhood in the Digital Age (2025) Vauhini Vara
Vauhini Vara é jornalista de tecnologia no Washington Post, pelo que o livro com este título e o dispositivo (conversas com LLM), promeita algo sério. Pensei que íamos ler sobre o que acontece ao self quando a escrita deixa de ser exclusivamente nossa. Mas o que encontrei foi performance sem reflexão. A estrutura é colagem (memoir + genealogia genérica da internet/search/tecnologia), sem qualquer enquadramento para que a colagem produza pensamento.
O capítulo das “Searches” é exemplar: em vez de curadoria e leitura interpretativa do arquivo, há um despejo de anos de perguntas ao Google, sem esforço para identificar padrões, extrair conflito, ou transformar esse material em conhecimento.
O capítulo “Ghosts”, que eu esperava ser o coração experimental, reinicia o mesmo texto repetidamente e drena o drama; e, mais grave, não oferece qualquer análise do processo de co-criação. Não há interpretação do que o LLM está a fazer, nem discussão das decisões autorais (porquê aceitar X e rejeitar Y, para onde o texto está a ser levado, o que isso altera no sujeito que escreve). O livro mostra o processo e delega no leitor o trabalho de o pensar.
Noutros capítulos, quando o LLM comenta, fá-lo com o pacote habitual de lisonja e generalidades (“powerful”, “poignant”, “complex figure”), e a autora trata isso como interlocução (“any suggestions?”) em vez de desmontar o mecanismo. O resultado parece menos um laboratório de escrita com IA e mais uma brincadeira tipo slot-machine (“vamos ver o que o LLM cospe”).
Por fim, a crítica às big tech surge muitas vezes no registo moral simplista “nós vs eles”, sem análise estrutural dos incentivos e da co-implicação. Parece que existe um lado puro, esquecendo que o sistema é feito por todos nós.
Para um livro com consagração mediática (NYT, NPR, Washington Post, etc.), esperava muito mais: ou brilho estético, ou pensamento à altura do tema.

Comentários
Enviar um comentário