Flesh (2025) David Szalay
Terminei "Flesh" com uma sensação estranha: a de ter sido arrastado por um livro que sabe perfeitamente como me manter a virar páginas, e, ao mesmo tempo, a de ter assistido a um exercício de escrita que se recusa a fazer aquilo que eu peço à literatura quando ela decide aproximar-se do humano. Szalay tem uma competência objetiva: criar movimento narrativo. Há sempre qualquer coisa a acontecer; há sempre um pequeno desvio, uma ameaça, um próximo passo. E isso fabrica expectativa. A expectativa dá energia. E a energia dá “page-turning”. O problema é quando, no fim, percebemos que o livro estava a viver do crédito dessa expectativa, e não da consequência real do que acontece.
O que me irritou, no fundo, foi isto: Flesh reúne material com potencial explosivo — trauma, classe, migração, masculinidade, guerra, sexo, dinheiro, violência — mas não o converte em interioridade, nem transformação. O romance acumula “matéria” e recusa o processo alquímico que faria dessa matéria alguma coisa que nos obrigasse a reconhecer um novo contorno do real. Eu sinto que Szalay quer dizer “algo profundo” sobre o vazio contemporâneo, sobre uma espécie de anestesia existencial, mas fica a meio do caminho: mostra o vazio, descreve o vazio, instala o vazio… e depois pede ao leitor que faça o resto. Isso pode ser estratégia estética. Mas pode também ser preguiça moral e intelectual disfarçada de “visão”.
Há uma frase que quase funciona como confissão involuntária do livro, no momento em que István observa Thomas (após o consumo), ele diz: “an emptiness behind the eyes”. Essa imagem resume todo o livro: não só a expressão do personagem, mas a lógica do romance, um vazio “atrás” do olhar, onde devia estar qualquer coisa que metabolizasse experiência.
E aqui entra o ponto decisivo: eu não preciso que um romance me dê personagens “simpáticas”, ou “interessantes” no sentido convencional. Aceito frieza, aceito miséria. O que não aceito é a indiferença como resultado final, como se o romance dissesse: “é isto, e pronto”. Porque então o livro não abre mundo; limita-se a repetir um diagnóstico já conhecido, e pior: repete-o com quem acredita estar a revelar o segredo do século.
O sexo é o exemplo mais gritante. Em Flesh, o sexo aparece demasiadas vezes como aquilo que eu chamaria pontuação do vazio: um corte, um intervalo, uma descarga, um gesto automático que interrompe o nada mas não cria sentido. O próprio texto formula-o: “There’s an oblivion there, and something satisfyingly like violence”.
Isto não tem nada de violento, antes pelo contrário, Szalay parece ainda acreditar no sexo como último reduto de se estar vivo. Mas o que faz o romance com esta combinação, sexo como esquecimento e violência? Transforma-a em pensamento? Em culpa com alguma densidade? Em linguagem que nos fere e nos muda? Ou apenas usa tudo como textura, como prova de que isto é a vida? No caso de Flesh, escolhe-se a via mais fácil: colocar-nos diante de atos degradantes e esperar que o choque faça o trabalho da literatura.
É aqui que a comparação com Normal People de Sally Rooney me parece inevitável: dois livros que tiveram (ou têm) uma aura de “retrato geracional”, e que em certos momentos parecem encenar o vazio como se o vazio fosse profundidade por definição. Em ambos, há diálogos que soam a “vida real” (o que hoje é muitas vezes código para: frases curtas, hesitações, banalidade), mas essa “vida real” não é transfigurada. O efeito é mecânico: ora fala um, ora fala outro, ora acontece uma coisa, ora acontece outra, e nós continuamos a ler porque a máquina é competente, mas não porque o romance esteja a construir uma visão.
E, no entanto, eu não quero ser injusto: Szalay escreve bem no plano do cinetismo. Há sequências em que ele é quase “thriller” sem ser thriller. O romance sabe montar ações em cadeia. Sabe gerir o tempo. Sabe colocar o leitor naquele estado de “agora vai acontecer”. E os últimos capítulos beneficiam disso: são page-turning porque Szalay é dotado para fabricar movimento, para fazer o mundo narrativo avançar.
Só que o avanço, aqui, é muitas vezes um falso avanço. “Estão sempre coisas a acontecer”, mas a pergunta é: o que muda por dentro? O que cresce? O que se quebra de forma irreversível? Que linguagem nasce do choque? Flesh satisfaz-se com o acontecimento pelo acontecimento. Como se a sucessão de incidentes substituísse o trabalho da interioridade. E isso, é a diferença entre literatura e o produto cultural industrial: o produto move-se; a literatura transforma.
Há ainda um aspeto que me deixou particularmente irritado: a maneira como Flesh recicla certas trajetórias e fantasias com um ar de inevitabilidade antropológica. O emigrante traumatizado, o corpo como capital, o trabalho em ambientes obscuros, o contacto com riqueza decadente, o desejo deslocado, o sexo como transgressão… Isto, tal como aparece aqui, por vezes não parece “vida”; parece uma versão higienizada (e literariamente legitimada) de enredos que já existiam na pornografia e no cinema sensacionalista dos anos 70/80, só que agora com boa prosa, bons hotéis, bons carros e um verniz de “observação social”. A fórmula não me choca; o que me incomoda é o romance comportar-se como se tivesse inventado a fórmula.
No fim, coloco uma pedra sobre o livro: Flesh é um romance que domina a arte do movimento, mas falha no essencial: não converte matéria humana em consequência. Pede ao leitor que confunda cinetismo com densidade.

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