Sussurros (2007) de Orlando Figes
O que "The Whisperers: Private Life in Stalin's Russia" (2007), de Orlando Figes, faz não é apenas contar o terror político soviético. Outros livros já contaram o terror político soviético. Este vai mais fundo: entra na vida interior das pessoas que viveram debaixo desse regime. Mostra como a política entra na cabeça, na família, no que se pode ou não dizer à mesa, no que se confia aos filhos, no que se cala até ao fim da vida.
É um livro sobre medo, mas não o medo “lá fora”, dos uniformes e dos interrogatórios. É o medo que mexe na gramática do dia-a-dia. O medo que ensina o corpo a falar mais baixo. Em Figes, o "sussurro "(whisper) não é um recurso poético. É uma técnica de sobrevivência. Fala-se em voz baixa porque as paredes ouvem, porque o vizinho pode denunciar, porque o filho pode repetir na escola. A frase inteira deixa de ser um direito. Fica apenas é um resto de voz, num corredor, numa cozinha, numa cama partilhada.
Foi este livro que me obrigou a reler duas experiências de leitura anteriores: "O Que Fazer?" (1863), de Tchernichevski, e "Nós" (1921), de Zamiátin.
Quando a transparência ainda parecia ficção científica
Quando li Tchernichevski, escrevi sobre o livro com bastante dureza. Critiquei o “egoísmo racional”, a engenharia social, o modo como as relações humanas são tratadas como problema de organização. Não saí dali convertido. Saí desconfiado.
Mas há um ponto em que o livro me tocou de outro modo: a imagem do Palácio de Cristal. Aquele edifício de vidro, moderno, onde um povo novo iria viver e trabalhar em regime de cooperação, pareceu-me, na altura, quase ficção científica antecipada. Um futuro brilhante, transparente, iluminado.
Eu ataquei o programa político. O que não fiz foi levar esse edifício às últimas consequências na esfera da interioridade. Olhei para o brilho do vidro, para o lado “futuro”, e não vi ainda a violência contida na ideia de viver num mundo em que nada se esconde, em que não há um canto opaco, um quarto interior protegido.
Depois veio "Nós", de Zamiátin. O mesmo impulso de transparência ali transformado num sistema matemático: paredes de vidro, horários rígidos, pessoas reduzidas a números, corpo e desejo calculados. A crítica ao totalitarismo está toda lá. A cidade funciona como alegoria da razão que enlouquece.
Mas, mesmo aí, a experiência continua marcada pela abstração. A opressão é forte, mas passa muito pela ideia: pelo algoritmo, pela tabela, pela regra. Faltava-me ainda sentir, com densidade, o que essa transparência total faz ao sujeito concreto que vive uma vida inteira sob essa lógica.
É isso que Figes dá. Ele não inventa mais uma ficção de transparência; mostra o efeito acumulado de décadas a viver com medo daquilo que sai da boca.
Do coletivo para dentro: Lenin, Estaline e o ataque ao quarto interior
O que "The Whisperers" revela, sem metáforas e sem piedade, é que a Revolução Soviética não começou por controlar fábricas ou propriedades, começou por tentar reconfigurar o interior humano. A exigência de que tudo fosse coletivo não era um princípio abstrato: era um ataque direto ao “eu”, às zonas invisíveis que dão sentido, impulso, silêncio, memória, criação.
E isto começa antes de Estaline. Sob Lenin, a vida privada já é tratada como suspeita. O sujeito ideal é aquele que se expõe completamente ao Partido: sentimentos, dúvidas, fragilidades, desejos. A opacidade do indivíduo, aquilo que o torna verdadeiramente interior, passa a ser lida como sinal de desvio ou egoísmo. Lenin acreditava que estava a construir um homem novo. O que realmente cria é uma cultura em que ter mundo interior é, por si só, uma ameaça política.
É aqui que a violência começa. Não na prisão, não na censura, mas na ideia de que o interior deve ser transparente ao coletivo. Este é o primeiro golpe: a reengenharia da interioridade. O que antes era espaço de sentir, imaginar, hesitar, criar, passa a ser visto como território a purificar, a vigiar, a corrigir.
Sob Estaline, esta lógica torna-se explícita e letal. O que era expectativa moral em Lenin converte-se em instrumento de terror. Se tudo pertence ao coletivo, tudo pode ser julgado: uma frase ambígua, um riso fora de contexto, um cansaço mal interpretado. O interior fica exposto a tribunais invisíveis.
A utopia de paredes transparentes transforma-se aqui em técnica de dominação total. Não é preciso vidro. Bastam paredes finas, casas sobrelotadas e o conhecimento de que qualquer pessoa pode transformar o que dizemos em acusação.
Figes mostra isto com precisão devastadora:
- apartamentos comunais (kommunalka) onde a privacidade não existe,
- crianças educadas para vigiar os pais,
- vizinhos que denunciam para sobreviver,
- conversas reduzidas a sussurros que morrem entre duas pessoas, porque qualquer decibel a mais pode destruir uma vida.
Não estamos já em teoria. Estamos no quotidiano arrasado. A transparência ideológica converte-se num regime em que sentir profundamente é perigoso, imaginar é imprudente, confiar é quase impossível. A interioridade, fonte natural de criatividade, motivação, ritmo e resistência, é esmagada em nome do coletivo.
A violência não está apenas nos gulags. Está na tentativa de abolir o quarto interior como espaço legítimo da existência humana. E isso, Figes deixa claro, começou com Lenin. Ele talvez não tenha percebido a escala da destruição que lançava, mas lançou-a. Estaline só a levou ao extremo.
Kollontai e o casamento-bunker
É neste ponto que a figura de Alexandra Kollontai se revela insuficiente. Ela tratou a família como invenção burguesa e o casamento como prisão histórica da mulher. Quer libertá-la dessa moldura estreita, e há verdade nessa urgência. Mas falta-lhe ver o que Figes expõe com a força nua da experiência vivida: o casamento não nasce de ideologia; nasce de necessidade. É uma resposta humana a um mundo onde estar sozinho sempre foi perigoso.
O que o século soviético mostra, levado ao extremo, é isto: quando o coletivo se torna predador e o indivíduo não tem onde pousar, o vínculo entre dois regressa à sua função primordial. Não como romance, não como propriedade, mas como abrigo. Na kommunalka, que faz lembrar o dealbar da espécie em cavernas partilhadas, importa ter pelo menos uma pessoa diante de quem se pode existir inteiro, sem medo. O casal não é ornamento social; é aquilo que impede que o interior se desfaça. Uma solução evolutiva para proteger o que em nós é mais vulnerável: o interior solitário.
Por isso, em vez de desaparecer com a Revolução, o casamento ganha densidade. A teoria quer dissolver a célula conjugal em nome do coletivo; a prática do terror faz dela o último lugar não confiscado. O marido ou a esposa tornam-se o único corpo diante do qual se pode sussurrar sem cálculo. Não porque a instituição seja justa em si, mas porque o mundo à volta já não permite outras formas de respiro.
Em sociedades que exigem transparência total, o par funciona como porta fechada. Uma linha fina de proteção entre o Estado e a interioridade. Por mais que a ideologia tente substituí-lo por solidariedades coletivas, há ali algo que resiste, quase instintivo: a aliança mínima entre dois como última trincheira do dentro humano.
O sussurro como forma da interioridade sitiada
É aqui que o sussurro, em Figes, atinge o seu significado real. Não é só medo, é um gesto de posse mínima. A marca de que ainda existe algo que não é deles. Uma reserva de sentido que só vive porque é dita baixo. É sobrevivência às escondidas.
Em Tchernichevski, o vidro brilhava como promessa. Em Zamiátin, como geometria da opressão. Em Figes, vemos a consequência humana dessas transparências: pessoas que passaram décadas com a sensação de que qualquer palavra podia abandonar o seu destinatário e transformar-se noutro objeto, noutra boca, noutro contexto, noutro processo. O coletivo deixou de ser comunidade e tornou-se um mecanismo de descontextualização. A frase nunca pertencia inteiramente a quem a dizia.
É aqui que Figes se impõe. Não porque descreva a transparência como arquitetura ou método, mas porque mostra o que ela faz ao interior humano quando se torna hábito, clima, reflexo. Quando transforma o direito ao dentro num território suspeito. É a transparência enquanto violência: a ideia de que a tua consciência deve ser sempre potencialmente audível, julgável, corrigível.
Depois de Figes, o Palácio de Cristal deixa de ser imagem de futuro. Torna-se diagnóstico. As paredes transparentes perdem a aura de ficção especulativa e revelam-se como o nome elegante de um projeto que trata o interior como defeito a eliminar.

Comentários
Enviar um comentário