"El loco de Dios en el fin del mundo". Do preconceito e da humildade
Comecei "El loco de Dios en el fin del mundo" (2025) a rir. Javier Cercas entra no Vaticano carregado de cepticismo, anticlericalismo e acima de tudo com um tom leve e cómico. Seguimos o escritor ateu que tinha aceitado acompanhar o Papa Francisco à Mongólia porque procurava uma resposta para a pergunta da sua mãe: iria ela reencontrar o marido no céu? Para Cercas, essa pergunta torna-se a essência da sua missão, descobrir se o Papa efetivamente acredita na “resurrección de la carne y la vida eterna”. A premissa parecia assim conter suficiente suspense, e o tom criado apontava para uma viagem em excelente companhia.
Lido na versão audiolibro da Audible
Cercas começa por construir-se como personagem, expondo os seus preconceitos, enquanto se vai rindo de si próprio. Provoca os interlocutores, avança pelo Vaticano como alguém que vê mais porque vê de fora, sem agendas nem deveres. O resultado é divertido, e durante algum tempo é mesmo capaz de gerar curiosidade pela expectativa do que pode o ateu dizer-nos sobre a fé que ali todos parecem professar.
Contudo, muito rapidamente a investigação de Cercas começa a fechar-se sobre si mesma. Aos poucos, parece deixar de preocupar-se com tentar compreender, para passar a usar os interlocutores para confirmar ideias e interpretações que já trazia consigo. As perguntas começam a ganhar vieses, e os entrevistados — padres, cardeais e colaboradores do Papa — começam a ser encostados à parede para confirmarem essas ideias.
E o problema não tem que ver com ateísmo. Eu também sou ateu. Não tive qualquer relação especial com a figura de Francisco. Considerava que de vez em quando dizia coisas com que concordava, outras vezes não. Era um Papa que, de longe, me parecia mais divertido que os anteriores, e concordo que isso me aproximou mais dele, mas não deixou de ser um Papa.
O que me começou a afastar de Cercas foi outra coisa: a tentativa de se colocar num plano superior nas conversas que vai estabelecendo ao longo do livro. Para o autor, os cristãos tinham crenças que precisavam de ser explicadas, justificadas e desmontadas. Cercas era o único lúcido em cada sala. O ateísmo é usado por Cercas como ponto neutro de observação, imaculado e sem vieses, e por isso, julga-se no direito de julgar todos os outros.
Essa superioridade torna-se especialmente evidente quando Cercas apresenta a ética ateia como autónoma e desinteressada, contrapondo-a à ética cristã que qualifica de centrada na expectativa de prémio (o paraíso) e no medo do castigo (o inferno). Assim, o cristão só age bem porque espera ver Deus e ser premiado, tal como a aposta de Pascal parece apontar. Já o ateu age bem porque o bem é o valor de tudo. Daqui Cercas, depreende, e afirma, que a ética ateia é a ética dos fortes; enquanto a ética cristã, é a dos fracos.
Não compara experiências humanas reais, atravessadas por interesse, medo e contradição. Compara a ideia do ateu ideal com o cristão menos instruído. E estabelece o bem como uma valor universal, que o ateu parece perceber quando olha para o seu umbigo.
Antes disso, já Cercas tinha realizado um episódio que me tinha deixado bastante indisposto. Numa entrevista com o padre Spadaro, insiste na ideia de que se pode estabelecer uma relação causal entre o celibato dos padres e o abuso sexual de menores. Se me chocou, ainda me magoou mais, quando o padre tenta, por mais de uma vez, distinguir desejo adulto da pedofilia. Cercas ouve, mas regressa, cada vez de forma mais explícita: se um homem, que por ser homem, não pode satisfazer as suas descargas sexuais, cedo ou tarde acaba a buscar uma saída, no caso, as crianças. E diz, de forma veemente: “Es lógico”.
Não, não é lógico. É uma explicação primária, sem sustentação, enraizada numa visão machista, tratada como evidência científica, por alguém que tinha obrigação de saber mais.
Este mesmo problema volta a surgir mais tarde, com a questão da sinodalidade. Cercas diz a um padre que se o Papa possuía formalmente o poder de decidir sozinho, então a decisão de não o exercer só podia representar dúvida da sua parte. O padre, explica mais do que uma vez, que Francisco sempre se recusou a agir como monarca absoluto, porque quis transformar o poder da Igreja num poder do coletivo. E por isso, nas questões fraturantes como o casamento dos padres, ele não podia decidir sozinho, contra uma parte do coletivo que não estava ainda preparada. Mas Cercas insiste: sim, mas ele tinha o poder para decidir. Sim. Francisco poderia decidir, impondo a sua vontade.
Cercas não aceita e lê a recusa do uso do poder como mero argumento. Não permite ao outro qualquer complexidade. Cercas quer fechar, quer constatar, não quer ambiguidade. E pelo meio, destrói a condição essencial para o trabalho que estava a fazer: a humildade intelectual.
Foi exatamente essa falta de humildade que aos poucos me afastou dele e do livro. Não é falta de modéstia, nem o facto de ser provocador. O problema foi sentir que a pessoa que me acompanhava ao longo de centenas de páginas se colocava acima dos outros. Com a convicção de que os outros podiam fornecer histórias, gestos, experiências e frases memoráveis, mas que cabia a Cercas, enquanto narrador, o direito de fixar o significado final.
Cercas possui grande talento para encontrar pessoas que dizem coisas importantes, mas da mesma forma parece despossuído da humildade necessária para reconhecer quando aquilo que essas pessoas dizem ultrapassa a sua forma de ver, ou o livro que ele queria escrever.
A conversa quase final com o missionário padre Ernesto é um dos exemplos mais odiosos disto. Quando Cercas lhe pergunta se tem dúvidas, Ernesto responde que sim. Muitas. Sempre teve dúvidas. Antes de se ordenar, perguntou-se se seria capaz, se estaria à altura, se seria digno. Continua a duvidar da vocação, do trabalho de missionário e da utilidade concreta daquilo que faz. Pergunta-se diariamente: “¿Y si todo esto no sirve para nada?”
Mas Ernesto estabelece uma distinção clara. Não duvida da fé. Acredita na vida eterna e no encontro com Deus. Acredita que depois da morte poderá falar com Francisco de Assis, Inácio de Loyola e Teresa de Ávila. E diz depois uma das frases mais importantes de todo o livro:
“La fe no te sirve para anularlas, eso no, pero sí para manejarlas y seguir adelante.”
(A fé não serve para eliminar as dúvidas. Serve para as manejar e continuar.)
Isto é muito mais fundo do que a pergunta repetida por Cercas, quase 50 vezes ao longo de todo o livro, sobre a ressurreição da carne e a vida eterna. Ernesto possui aquilo que o ateu não possui: uma resposta sobre o destino último da existência. E, no entanto, isso não lhe permite saber se está a viver bem, se escolheu corretamente, se está realmente a ajudar as pessoas ou se está a desperdiçar a sua própria vida. Nem a certeza sobre o fim elimina a incerteza sobre o caminho.
Ernesto vai ao fundo, com uma leitura quase escandalosa de Cristo, quando diz que vista no momento da morte, a vida de Jesus foi “un fracaso absoluto”: rejeitado, abandonado pelos discípulos, derrotado politicamente e executado. Teologicamente, Ernesto não pensa que Cristo fracassou. No entanto, destrói totalmente a ideia de que o valor de uma vida possa ser medido apenas pelos resultados visíveis durante essa vida.
Isto deveria ter abalado toda a arquitetura do livro, e do mundo de Cercas. Porque aqui é destruída toda a oposição simples entre o ateu que duvida e o crente que é protegido pela certeza. E o que faz Cercas? Regista a resposta, espicaça ainda mais o padre. Obtém a passagem impressionante sobre o fracasso de Cristo, e segue em frente. Ou seja, recolhe o testemunho, mas não parece compreender o alcance do que acabou de ouvir.
Cercas diz várias vezes ao longo do livro que não é jornalista, colocando-se à margem, ou melhor, acima. Eles escrevem notícias, enquanto ele escreve literatura. Eles seguem o Papa; ele procura compreender o Papa. Mas torna-se precisamente isso: um jornalista capaz de obter declarações fortes, mas incapaz de compreender a profundidade do pensamento do outro e de ir além do guião que já trazia pré-escrito.
O livro torna-se um fardo ideológico. Cercas já sabe o que Francisco representa para si. Na parte final diz-nos que está à procura de revelar o segredo de Francisco. Mas o que Cercas faz é contorcer todas as pequenas historietas de Francisco, já amplamente conhecidas — não há aqui trabalho algum de investigação —, transformando-as em confirmações do que bem entende.
E, no entanto, nos últimos dois capítulos, um livro totalmente distinto parece emergir. De repente, Cercas deixa de interpretar e começa a escrever sobre o que está a viver.
A partir daqui abordo o efeito dos últimos capítulos, sem revelar os acontecimentos centrais.
Regressado da Mongólia, leva à mãe, já profundamente atingida pelo Alzheimer, a resposta de Francisco, para assistir aos seus últimos dias. E aqui, tudo aquilo que o livro tinha discutido abstratamente — fé, morte, ressurreição, vida eterna, esperança — torna-se subitamente concreto.
Cercas permite que a fé interrogue o seu ateísmo. Pergunta se Nietzsche poderia estar errado. Se o cristianismo, em vez de negar a vida, poderia ser uma revolta contra a morte. Não se converte. Mas perde finalmente o monopólio da lucidez. O epílogo leva esta inversão ainda mais longe, concluindo de forma emocionalmente devastadora.
Francisco não encontra tempo para ser objeto literário de Cercas. Mas encontra tempo para estar presente na dor dele.
O mesmo velho que recusa ser transformado em super-homem. O mesmo que insiste em ser uma pessoa comum. O mesmo que diz rir, chorar, dormir e ter amigos como qualquer outra pessoa. O mesmo que professa a humildade e que Cercas passa centenas de páginas a examinar, relativizar e quase desmentir.
No fim, Francisco não explica a humildade. Pratica-a.
Nota: Duas estrelas para o livro que Cercas julgava estar a escrever; cinco para o livro que acaba por emergir no final. Tudo junto, três estrelas.

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