Sobre a lista dos 100 melhores livros do Guardian

Li 64 dos 100 livros da nova lista dos 100 Melhores Romances do Guardian. Abandonei ou recusei ler mais 9, e tenho outros 7 na prateleira à espera da disposição certa. Isto talvez seja suficiente para emitir a seguinte opinião: a lista é muito boa como sintoma, mas bastante fraca como mapa. Sintoma de um cânone anglófono que percebeu que precisava de se corrigir, de incluir mais mulheres, mais autores negros, mais vozes pós-coloniais, mais feridas históricas. Fraca como mapa porque continua a chamar “mundo” àquilo que é, em larga medida, a biblioteca escolar inglesa.

"100 'Melhores' Livros de Ficção" pelo The Guardian (2026-5-16)

Não é que faltem grandes livros. Pelo contrário: a lista está cheia deles. Mas quando Dickens, Austen e Woolf ocupam juntos 13 lugares em 100; quando 77 obras foram originalmente escritas em inglês; e quando a reparação cultural se faz quase sempre dentro do próprio espaço anglo-americano, já não estamos perante uma lista dos melhores romances de sempre. Estamos perante uma disputa interna do império literário anglófono sobre quem merece ocupar os melhores lugares na sala principal.

À primeira vista, a lista tem nomes incontornáveis: Tolstói, Proust, Joyce, Flaubert, Austen, Dickens, Dostoiévski, Kafka, Melville, Woolf, Morrison, García Márquez, Cervantes. O problema não está nas presenças. Muitas são defensáveis, algumas, mesmo, inevitáveis. O problema está na distribuição, na repetição, na hierarquia e, sobretudo, naquilo que a lista revela sem talvez o querer revelar.

Comecemos pela objeção mais evidente: o Guardian apresenta a lista como sendo de romances “publicados em inglês”. A ressalva importa, mas não resolve o problema. Em 2026, quando falamos de obras seminais, “publicado em inglês” já não é uma fronteira estreita. Grande parte dos cânones nacionais, pelo menos nas suas obras mais reconhecidas internacionalmente, está disponível em tradução inglesa. O critério não impede acesso ao mundo. Por isso, quando a lista continua esmagadoramente concentrada em obras originalmente escritas em inglês, o problema já não é de acesso. É de horizonte.

Dos 100 títulos, 77 foram originalmente escritos em inglês. Apenas 23 vêm de outras línguas. E dentro dessas 77 obras em inglês, 64 pertencem diretamente ao eixo Estados Unidos/Reino Unido. Mesmo admitindo os casos híbridos — Irlanda, Commonwealth, literatura pós-colonial, autores migrantes ou transnacionais — o retrato geral é inequívoco: perante uma biblioteca mundial já amplamente traduzida para inglês, os votantes regressaram sobretudo à sua própria casa.

Isto seria menos problemático se a lista se assumisse como aquilo que é: uma cartografia do romance no interior da cultura literária anglófona. Mas quando se usa a expressão “os melhores romances de sempre”, o problema torna-se maior. Porque “de sempre” não pode significar “aquilo que escritores, críticos e académicos que leem sobretudo em inglês conseguem recordar, admirar ou legitimar”. O mundo não cabe em Londres, Nova Iorque, Oxford, Brooklyn e nos suplementos literários que orbitam esse império.

Há literatura francesa, russa, alemã, italiana, espanhola e latino-americana na lista, claro. Mas surge sobretudo através dos nomes que o próprio sistema anglófono já domesticou: Flaubert, Proust, Tolstói, Dostoiévski, Kafka, Mann, García Márquez, Cervantes. O que aparece não é exatamente a literatura mundial; é a parte da literatura mundial que já recebeu autorização de residência na biblioteca inglesa. O resto do planeta fica à porta, à espera de validação.

E depois há Dickens. Quatro Dickens numa lista dos 100 melhores romances de sempre é, por si só, uma confissão. Bleak House, Great Expectations, David Copperfield e Our Mutual Friend podem ser todos defendidos dentro da história do romance inglês. Mas numa lista mundial de 100? Quatro lugares? A par de quatro Austens e cinco Woolfs? Aqui já não estamos perante uma avaliação neutra de grandeza literária. Estamos perante uma lista profundamente moldada pela tradição escolar, universitária e editorial inglesa.

Dickens é grande, claro. Seria absurdo negá-lo. Mas Dickens é também uma instituição nacional britânica. Para quem cresceu dentro da escola inglesa, ele não é apenas um romancista: é uma presença curricular, sentimental e até identitária. Mas fora desse ecossistema, a sua centralidade torna-se muito mais discutível. Não desaparece, evidentemente. Mas diminui. E diminui bastante.

O mesmo se passa com Austen. Que Pride and Prejudice e Emma estejam numa lista destas é defensável. Que Persuasion entre também, desconfia-se. Mas quando Mansfield Park aparece e Austen passa a ocupar quatro lugares, já não estamos apenas a reconhecer uma autora maior. Estamos a assistir a uma inflação canónica. Austen deixa de ser uma escritora fundamental e passa a funcionar como um bloco de ocupação simbólica. O romance doméstico inglês torna-se medida universal do romance.

E Virginia Woolf surge como o terceiro vértice desta ocupação. Com cinco obras — To the Lighthouse, Mrs Dalloway, The Waves, Orlando e Jacob’s Room — Woolf é transformada na autora total do romance literário. E não é dificil compreender porquê. Woolf funciona hoje como figura perfeita para o cânone: é simultaneamente mulher, feminista, modernista, inglesa e academicamente incontornável. Permite parecer contemporâneo sem abandonar a velha casa.

E é aqui que a lista se torna mais interessante. Porque não se trata de “wokismo”. O fenómeno é mais complexo e, por isso, mais revelador. A lista combina duas forças históricas: por um lado, o velho imperialismo cultural britânico, que continua a apresentar a literatura inglesa como centro natural do romance; por outro, a correção moral e identitária que os Estados Unidos impuseram ao campo cultural a partir da segunda metade do século XX, e com especial força no século XXI.

O resultado é uma aliança curiosa: a velha Inglaterra veste roupa americana. Continua a preservar Dickens, Austen, Woolf, Eliot, James, Hardy, Forster e companhia, mas agora fá-lo com a linguagem da inclusão, da reparação, da raça, do género, da marginalidade e do trauma histórico. O cânone britânico percebeu que, para se manter relevante, precisava de se apresentar como moralmente atualizado. Mas a atualização incide sobretudo sobre o interior do próprio mundo anglófono. Corrige-se o cânone inglês e americano, mas o resto do mundo continua debaixo do tapete.

Assim, Toni Morrison sobe ao segundo lugar com Beloved. E aqui convém ser claro: Beloved é um romance extraordinário. Brutal, assombroso, inesquecível. Mas colocá-lo acima de Ulysses, In Search of Lost Time, War and Peace, Anna Karenina, Don Quixote, The Brothers Karamazov, Madame Bovary ou Moby-Dick não é meramente avaliação estética. É uma declaração política. A lista está a dizer que a grande ferida americana — escravatura, memória, maternidade, corpo, trauma — deve ocupar o centro do cânone.

Essa declaração pode ser legítima. Pode mesmo ser necessária como gesto de reparação. Mas não é neutra. E é ainda menos neutra quando surge dentro de uma lista onde o inglês domina esmagadoramente. A correção americana não abre verdadeiramente o cânone ao mundo; reorganiza o poder dentro do império anglófono. Troca hierarquias internas, revaloriza vozes silenciadas dentro dos Estados Unidos e do Reino Unido, dá centralidade a autoras, autores negros, experiências pós-coloniais e subjetividades historicamente marginalizadas. Mas a moldura continua a mesma: a língua inglesa como fronteira do universal.

A própria ideia de diversidade da lista é reveladora. Há uma presença significativa de romances ligados à experiência negra, sobretudo afro-americana e africana anglófona. Não é um número absurdo em si mesmo, nem seria desejável regressar a um cânone onde essas obras desaparecem. O problema é comparativo. Que outras zonas racializadas ou culturais recebem a mesma amplitude? A China não aparece. O Japão praticamente não aparece. O mundo árabe não aparece. As literaturas indígenas não aparecem. A América Latina surge sobretudo através de nomes já absorvidos pelo cânone ocidental. A África não anglófona desaparece. A diversidade da lista é real, mas é uma diversidade administrada pelo centro anglo-americano. Não estamos perante o mundo. Estamos perante as partes do mundo que a cultura anglófona reconhece como moralmente necessárias para a sua própria autocrítica.

É por isso que a lista consegue ser, ao mesmo tempo, progressista e conservadora. Progressista dentro da sua própria gramática moral, porque eleva Morrison, Woolf, Eliot, Hurston, Rhys, Butler, Walker, Roy, Adichie, Ferrante e Han Kang. Conservadora no esqueleto, porque continua a imaginar o romance mundial a partir de Londres e Nova Iorque. É uma lista que quer corrigir o passado, mas não quer abdicar da chave da porta.

A presença de Middlemarch no primeiro lugar é exemplar. Pode-se defender George Eliot no topo. Mas a escolha é demasiado perfeita para ser inocente. Middlemarch permite colocar uma mulher em primeiro lugar sem romper com a respeitabilidade canónica. É um romance vitoriano, monumental, moral, social, realista, intelectualmente denso. É a solução ideal para uma lista que quer parecer transformadora sem soar revolucionária. Corrige-se o cânone, mas com uma autora que já pertence ao coração nobre da tradição inglesa.

O mesmo vale para Woolf. A sua presença múltipla parece uma vitória feminista, mas é também uma vitória da alta cultura britânica. Não estamos perante uma simples abertura ao mundo; estamos perante uma reorganização interna da aristocracia literária anglófona.

E é aqui que a expressão “melhores romances de sempre” se torna insustentável. Porque uma lista verdadeiramente mundial teria de mostrar outra coragem. Teria de sair muito mais do eixo inglês-americano. Teria de arriscar mais literatura francesa, alemã, russa, italiana, espanhola, portuguesa, árabe, chinesa, japonesa, africana, latino-americana, escandinava, indiana não anglófona. 

Convém, contudo, evitar a crítica fácil. O problema não é o Guardian, um jornal inglês com mais de dois séculos de história, olhar para a tradição que o formou. Pelo contrário: cada cultura precisa de reconhecer, preservar e transmitir os seus próprios clássicos. Sem isso, produzimos leitores cosmopolitas na aparência, mas desenraizados na substância. Seria absurdo exigir a um jornal britânico que não valorizasse Dickens, Austen, Eliot, Hardy ou Woolf. O problema começa noutro ponto: quando essa biblioteca nacional, escolar e afetiva se apresenta como mapa universal.

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