Uma Questão de Conveniência de Sayaka Murata
Uma Questão de Conveniência é muito interessante pela forma como a escrita nos transporta, mantendo tudo em movimento. Mesmo quando nada parece propriamente acontecer, há sempre algo em deslocação: uma perceção, um desconforto, uma expectativa. As particularidades da protagonista servem bem essa dupla força do livro: a estranheza e o cómico. São dois movimentos criados por Sayaka Murata que nos atraem, nos mantêm próximos da personagem e criam por vezes um humor negro.
À primeira vista, é fácil ler o romance como uma crítica à normalidade social, a uma sociedade que espera da mulher casamento, maternidade, ambição reconhecida e uma vida organizada segundo os códigos dominantes. Concordando, parece-me que o livro pretende algo mais do que a denúncia do “normal”. Até porque Keiko não rejeita propriamente as regras: ela encaixa perfeitamente nas regras da loja de conveniência. E essas regras são muito mais rígidas, mecânicas e desprovidas de qualquer significado humano profundo do que as regras sociais que a rodeiam.
O que o romance parece trabalhar é outra coisa: a ambiguidade social e o cansaço de lidar com ela. A vida humana não vem com manual, mas todos se comportam como se o manual existisse e como se todos o tivessem lido. Nunca há uma opção inteiramente certa. Se Keiko trabalha numa loja, devia ambicionar mais. Se não tem namorado, devia ter. Se tivesse namorado, provavelmente perguntariam pelo casamento. Se casasse, viriam os filhos. Se tivesse filhos, haveria outra forma qualquer de falhar. A sociedade humana espelha a psicologia humana, no sentido em que nunca nada é suficiente. Acomodar-se ao que se tem em cada momento é visto como estagnação e, por isso, como falha.
A loja de conveniência, pelo contrário, é simples. Não no sentido de ser livre ou humana, mas precisamente no sentido contrário: é clara, funcional e totalmente codificada. Há frases a dizer, gestos a repetir, ritmos a cumprir, sons a reconhecer. Ninguém lhe pede uma narrativa existencial. Ninguém pergunta à loja se ela se sente realizada. Basta funcionar.
E talvez seja aí que o livro se torna mais inquietante. Keiko não parece procurar a diferença, nem a libertação, nem qualquer afirmação individual. Ela procura o sistema de regras onde a sua existência produz menos atrito. A loja não lhe oferece sentido; oferece legibilidade. E, perante a complexidade interminável das relações humanas, essa legibilidade pode ser mais atraente do que a promessa vaga de uma vida “normal”.
No fundo, o romance torna-se desconfortável no meio da comicidade, porque mostra que o humano, com toda a sua riqueza, é também feito de expectativa e insatisfação contínua. A loja pode ser pobre, em termos humanos, mas clara nas suas regras. Keiko não escolhe simplesmente ser diferente. Escolhe o lugar onde pode existir sem ter de se questionar permanentemente sobre qual o modo correto de Ser.

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