The Fall of Hyperion (1990), do excesso de space opera

Adorei Hyperion (1989). O primeiro volume foi uma surpresa. Um universo denso, estranho, nem sempre compreensível, mas sustentado por uma arquitectura suficientemente sólida para nos fazer acreditar que tudo aquilo existia para além do que era explicado. O livro nunca precisa de revelar as regras de como tudo funciona, e isso é, em parte, a força do seu encanto. The Fall of Hyperion (1990) começa ainda dentro desse mesmo universo. Não existe uma verdadeira quebra entre os dois volumes. As personagens continuam, os conflitos avançam, e Simmons começa a responder às perguntas deixadas em aberto. Durante bastante tempo, ainda sentimos que estamos dentro do mesmo romance.

Existem partes extraordinárias. Ummon é provavelmente a melhor criação do segundo volume. A conversa entre a inteligência artificial e o cíbrido Joseph Severn é um dos momentos em que Simmons consegue elevar a ficção científica para um plano conceptual muito pouco habitual. Não se limita a apresentar uma IA poderosa ou ameaçadora. Discute formas de inteligência, evolução, linguagem, consciência e criação. Ummon não é apenas uma personagem. É uma forma diferente de organizar o pensamento.

Também a representação do TecnoNúcleo mantém grande parte da força do primeiro livro. As inteligências artificiais não são magia, nem simples vilões mecânicos. Constituem uma civilização própria, dividida internamente, com interesses, estratégias e divergências. O seu poder nasce da infraestrutura que construíram e da dependência humana dela.

A queda da Rede é outro dos grandes momentos. Simmons percebe que uma tecnologia não é apenas uma ferramenta. Quando se torna infraestrutura, reorganiza a sociedade, a política, a economia e até a percepção do espaço. Os portais não servem apenas para viajar. Permitem que uma casa tenha divisões em planetas distintos, que o poder político funcione em tempo real, mas também permitem que a IA mantenha o controlo total sobre a Hegemonia.

Quando Gladstone se vê obrigada a destruir a Rede, Simmons antecipa muito bem o apocalipse que lhe sucederá, porque ela é muito mais do que um sistema de transporte. A Rede suporta a interação humana, mas, mais do que isso, suporta toda a civilização.

Gladstone é, por isso, uma das personagens mais fortes do livro. A decisão que toma é terrível, mas compreensível. Simmons não a reduz a heroína nem a transforma em tirana. Coloca-a perante uma escolha política em que todas as soluções implicam sofrimento. Para libertar a humanidade da dependência do TecnoNúcleo, tem de provocar o colapso da própria sociedade que governa. Existe verdadeira tragédia política. Não a ideia superficial de que governar exige escolhas difíceis, mas a percepção de que determinadas estruturas tecnológicas podem retirar a uma civilização a capacidade de escolher. 

Também gostei bastante das partes de Joseph Severn, o novo corpo de John Keats. Severn sonha as experiências dos peregrinos, entra nas suas consciências e atravessa a Rede como uma presença deslocada. São momentos estranhos, por vezes difíceis de situar, mas que mantêm a qualidade onírica do primeiro livro. O poeta torna-se uma espécie de interface entre humanos, máquinas e acontecimentos separados por distâncias impossíveis.

Tudo isto permanece preso a uma lógica de ficção científica. Mesmo quando Simmons se aproxima da metafísica, procura justificar o que acontece através da tecnologia, da evolução, das inteligências artificiais ou da manipulação do tempo. Não existe praticamente fantasia. Existe aquilo a que se poderá chamar realismo de ficção científica: o universo é extraordinário, mas os acontecimentos possuem causas materiais dentro desse universo.

O problema de The Fall of Hyperion não está, portanto, na falta de ideias. Está na forma narrativa escolhida para as organizar.

O primeiro volume era fragmentado porque era polifónico. Cada peregrino contava a sua história. Cada narrativa tinha uma voz, um género e uma textura próprios. A fragmentação produzia diferença. Fazia o mundo crescer através das experiências particulares das personagens. No segundo volume, a fragmentação perde essa função. Simmons corta constantemente entre linhas narrativas para gerar suspense. Uma personagem está prestes a descobrir algo, e o capítulo muda. Uma batalha aproxima-se do momento decisivo, e passamos para outro planeta. Uma conversa chega à revelação, e somos enviados para uma perseguição. Isto repete-se demasiadas vezes.

Os cortes já não servem para mostrar diferentes perspectivas. Servem para adiar resoluções narrativas. O contar de histórias começa a funcionar segundo a gramática mais convencional da Space Opera: perseguições, fugas, batalhas, ataques, deslocações entre planetas e sucessivos momentos de perigo. Algumas destas sequências têm força. O problema é a acumulação. Há demasiadas perseguições que pouco acrescentam, demasiado movimento usado para manter a sensação de urgência, demasiadas interrupções construídas como pequenos cliffhangers.

O livro empastela precisamente quando tenta acelerar. Em vez de produzir intensidade, a sucessão de crises começa a tornar-se mecânica. Sabemos que a cena será interrompida antes do momento decisivo. Sabemos que outra linha narrativa será retomada no ponto exacto em que tinha sido suspensa. O dispositivo torna-se visível.

Esta mudança afecta também as personagens. No primeiro volume, eram elas que produziam o mundo através das suas histórias. No segundo, tornam-se peças de resolução do enredo. Kassad, Brawne Lamia, Sol Weintraub e o próprio Picanço são empurrados para posições previamente determinadas pela arquitectura temporal.

O Picanço sofre especialmente com esta transformação. No primeiro romance, era uma presença impossível de fixar. Máquina, deus, monstro, instrumento de tortura, entidade religiosa. A sua força vinha da recusa da explicação. No segundo volume, Simmons começa a integrar o Picanço no sistema. Explica as suas possíveis origens, as forças que o controlam e a função que desempenha no conflito entre inteligências futuras. O desconhecido passa a mecanismo. Compreendemos mais. Mas aquilo que compreendemos é menos interessante do que aquilo que imaginávamos.

O mesmo acontece com a organização geral do universo. O conflito entre humanos, o TecnoNúcleo, a inteligência futura e as diferentes facções temporais é ambicioso. Contudo, à medida que tudo começa a ser explicado, a complexidade transforma-se numa cosmologia relativamente convencional: forças do futuro combatem através do tempo, entidades procuram uma figura messiânica e a humanidade ocupa o centro de uma guerra evolutiva.

O final agrava este problema. A revelação de que Moneta é Rachel adulta fecha o ciclo temporal, mas a cena com Sol Weintraub é emocionalmente desastrosa. Rachel adulta sabe mais do que ele, decide o que deve acontecer e entrega-lhe novamente a criança. Sol aceita, sem saber o que está a aceitar. A narrativa apresenta a cena como conclusão e restituição. Para mim, é apenas instrumentalização da personagem. Sol deixa de ser pai e torna-se o elemento necessário para completar o ciclo de Rachel.

O epílogo reduz ainda mais a ambiguidade. Depois de centenas de páginas sobre religião, inteligência artificial, política, evolução e tempo, Simmons termina com uma criança destinada a ensinar a humanidade e com a promessa de um novo começo. A complexidade desemboca no saturadíssimo artifício do Messias. Demasiado convencional para um romance que tinha começado por ser tão singular.

Simmons consegue fechar quase todas as linhas narrativas. Consegue explicar grande parte do universo. Consegue construir uma conclusão de enorme escala. Mas fechar não é o mesmo que resolver. E explicar pode ser apenas destruir o mistério que sustentava tudo.

Comentários

Mais lidos

One Battle After Another (2025)

Proust, roman familial (2023), Laure Murat

Task (2025), Brad Ingelsby

A Parede (1963), engenharia de solidão

La Maison vide (2025)