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A mostrar mensagens de dezembro, 2025

Nuremberga (2025)

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Terminei Nuremberga  (2025) com uma sensação clara: este é um filme tecnicamente competente, com atores sólidos e um mundo bem construído, mas falha no ponto essencial. Falha na forma como representa Hermann Goering. E falha de um modo que considero grave. Começo pelo que funciona. Hollywood sabe bem criar mundo. A atmosfera institucional e o peso visual da época são muito bem feitos. O filme tem textura e transmite credibilidade visual. Os atores ajudam a sustentar esse mundo. Russell Crowe, Michael Shannon e o resto do elenco têm presença e dão corpo às figuras históricas.  O problema não está na encenação nem nas interpretações isoladas. Está no guião e na construção dramática. O filme é montado em sequências curtas, pensadas para provocar emoção rápida, mas raramente desenvolve pensamento ou conflito até às últimas consequências. São “bocados” de cenas, “bocados” de conversas, “bocados” de tensão, que se sucedem sem verdadeira progressão. Não há tempo para conhecer ninguém...

"Sentimental Value" (2025) de Joachim Trier

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"Sentimental Value" solicita um investimento excessivo do espectador, sem que a sua arquitetura narrativa o sustente o suficiente. A sequência inicial, marcada por autoconsciência e teatralização, compromete desde cedo o pacto de adesão, ao expor os seus próprios dispositivos antes de instaurar densidade dramática. Em lugar de permitir que os afetos emerjam progressivamente da ação, o filme apoia-se reiteradamente em pausas formais, ecrãs negros e mecanismos de explicitação indireta que operam mais como sinais de profundidade do que como aprofundamento da experiência. Ainda assim, é possível identificar momentos de autenticidade que emergem apesar das fragilidades estruturais do conjunto. A saída de Elle Fanning introduz um princípio de fricção e de deslocamento interno que o filme até então evitara. A partir daí a personagem da irmã mais nova, interpretada por Inga Ibsdotter Lilleaas, afirma-se em crescendo como o verdadeiro eixo emocional da narrativa. É sobretudo no seu co...

Contos dos Subúrbios (2025) de Karim Vali

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" Contos dos Subúrbios" não se impõe por surpresa, mas por nitidez. A escrita de Karim Vali é limpa, controlada, muitas vezes elegante, uma escrita que sabe o que está a fazer e onde se posiciona. Cada conto avança com segurança, sustentado por uma consciência clara do mundo contemporâneo e das suas fraturas: identidade, pertença, desigualdade, olhar social. O que se reconhece de imediato no livro é a sua capacidade de falar de vidas correntes, de pessoas que atravessam o quotidiano carregando um peso interior constante, raramente nomeado. A atenção está aqui focada na experiência subjetiva daqueles que vivem nos interstícios, entre classes, entre identidades. Não é uma atenção sensacionalista; é reflexiva.  A escrita de Vali é profundamente consciente do seu tempo. Tudo é depurado em conceitos e categorias, a ponto de, por vezes, o real já se apresentar como explicação. O sofrimento, o desconforto, surgem filtrados por uma grelha interpretativa, quase demasiado sólida. O le...

A Leste do Paraíso (1952) de John Steinbeck

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"A Leste do Paraíso", de John Steinbeck, opera sobre uma falha monumental. A narrativa assenta numa leitura direta do mito bíblico de Caim e Abel — um mito que nunca considerei intelectualmente sustentável: Deus escolhe Abel, não explica porquê; Caim reage e torna-se o culpado absoluto. Narrativamente, isto é um erro básico. Eticamente, é um crime simbólico. Personagens sem motivações compreensíveis, ações sem causa explicada e uma moral arbitrária imposta por autoridade — não construída por experiência humana — ensinam apenas que a exclusão pode ser arbitrária, que a culpa pode preceder a ação e que um ser humano não precisa de ser compreendido para ser condenado. Steinbeck transpõe este modelo para um romance que se apresenta como realista, mas o resultado é profundamente frágil: personagens que são boas ou más “porque sim”, um mal tratado como essência e não como processo, e um conflito humano reduzido a alegoria infantil. Não encontro aqui realismo, nem naturalismo, ...

Os Despojos do Dia (1989) de Kazuo Ishiguro

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"The Remains of the Day" (1989), de Kazuo Ishiguro, é um livro que comecei a ler com muita abertura. Queria entrar na cabeça do personagem e compreender o mundo a partir do seu lugar. Não tinha qualquer intuição de falhas. Pelo contrário: durante o primeiro terço, não tive qualquer dúvida da enorme qualidade. Stevens é meticuloso, reflexivo, vive intensamente dentro da cabeça, algo que reconheço bem. Mas à medida que a leitura avançava, comecei a sentir um desconforto difícil de ignorar. O livro não me estava a pedir apenas uma empatia exigente ou incómoda; estava a pedir algo mais problemático: que eu aceitasse como humano um sujeito cuja relação com o sofrimento começava a parecer estranhamente inexistente. Só mais tarde percebi que o problema não era de contenção emocional. Stevens não é um homem reprimido. É um homem imune ao sofrimento. E é aí que tudo começa a falhar. O humano que não paga preço Ao longo do romance, Stevens atravessa acontecimentos que, em qualquer ser...

Do Lado Dela (1949) de Alba de Céspedes

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Entrei em " Dalla Parte di Lei " (1949) com muita sede. Gosto muito de Alba de Céspedes e considero O Caderno Proibido  (1952) um dos meus livros preferidos de sempre. Por isso quis dar a este romance a mesma atenção. E dei. Mas acabei frustrado — não por falta de talento da autora, mas por um artifício narrativo que me parece, ao mesmo tempo, inteligente e problemático. Audiolivro narrado por Carlotta Brentan, a partir da tradução de  Jill Foulston Primeiro, uma correção importante: eu cheguei a pensar que este seria um romance de estreia, ainda imaturo. Afinal não é. Foi publicado apenas três anos antes de O Caderno Proibido . Portanto, a complexidade já estava lá. O que muda aqui não é falta de capacidade. É uma escolha. O livro chama-se “ Do Lado Dela ”, em italiano; em português, ficou " Confissão ” e, em inglês, " O Lado Dela da História " . Nenhum destes títulos é inocente. Eles preparam o leitor para aceitar, desde o início, que isto não é “a verdade”,...

Big Kiss, Bye-Bye (2025) de Claire-Louise Bennett

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Há livros que não se lêem: instalam-se. Big Kiss, Bye-Bye  (2025) pertence a esse território raro onde a literatura não avança por enredo nem por personagens no sentido clássico, mas por presença. O que Bennett constrói aqui não é uma história sobre uma relação; é antes a exposição contínua da consciência em ação, lúcida, por vezes cruel, mas viva, sempre a pensar-se a si própria enquanto vive. Aquilo que mais rapidamente nos captura é a voz. Uma voz de oralidade insistente e auto‑correctiva, que não relata acontecimentos depois de pensados, mas pensa enquanto fala e fala enquanto pensa. Não existe aqui a distância confortável entre a experiência e a linguagem. O texto nasce no mesmo plano em que a experiência se forma. As frases avançam com hesitações, desvios, e correções como método. Não se trata de fluxo de consciência, nem de fragmentação; trata‑se antes de uma consciência que se observa a si própria em tempo real. Um dos momentos mais intensos do livro — um longo monólogo int...

Hyperion (1989), com uma visão particular da IA

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"Hyperion" , (1989),  de Dan Simmons, é ficção científica que não procura ser coerente nem imediatamente compreensível. Em vez disso, propõe um universo de estranheza total: neologismos, planetas indecifráveis, entidades mecânicas que ultrapassam o simbólico, e uma política interplanetária que parece surgida de um sonho febril. Mas que funciona, e muito bem.  O primeiro impacto é o da densa arquitetura do desconhecido . Simmons cria um universo que nunca está inteiramente ao nosso alcance, e quer que assim seja. Percebemos que há coerência interna, há um plano, há um mundo firme por detrás das palavras. Mas esse mundo não se abre de imediato. Requer rendição, paciência, e a aceitação de que grande parte do fascínio está precisamente naquilo que não compreendemos . Baseado na estrutura dos " Canterbury Tales " , (1892) de Geoffrey Chaucer, o romance divide-se em seis narrativas contadas pelos peregrinos que se dirigem aos Túmulos do Tempo. É aqui que reside o maior ...

One Battle After Another (2025)

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Há filmes que vivem do excesso, do risco. E há outros que vivem da sensação de risco, sem nunca se aproximrem dele.  One Battle After Another é o segundo caso: um dispositivo de alta energia estética, muito barulho, muita pose, muita coreografia, e uma espantosa ausência de pensamento por baixo do verniz. Isto é um vazio profundo O filme é vendido como sátira política à América polarizada, mas o que encontramos é mais simples e muito mais pobre. Os grupos revolucionários que deveriam carregar uma experiência histórica, um legado de violência, de clandestinidade e de resistência real, aparecem retratados como crianças hiperativas a brincar aos códigos secretos. No extremo oposto, o “vilão” da extrema-direita é uma caricatura que não exige reflexão: basta uniforme, rigidez e frases ocas. No fim, ambos os lados são reduzidos à mesma idiotia simbólica. É o sonho da direita americana: antifa e supremacistas como palhaços equivalentes numa fantasia sem consequências. O mais perturbador...