Kubrick explicou 2001?

Há qualquer coisa de extraordinário nesta entrevista de Stanley Kubrick de 1980. Durante anos, Kubrick recusou-se a explicar o significado de "2001: A Space Odyssey". Dizia que traduzir o filme verbalmente seria retirar ao espectador a possibilidade de o descobrir.

O filme devia falar por si. Contudo, em 1980, numa entrevista telefónica ao japonês Jun'ichi Yao, aconteceu algo raro: perguntaram-lhe diretamente o que significava o final de 2001 e Kubrick respondeu.

Jun'ichi Yao – Well Japanese people love your films, especially [2001: A Space Odyssey]. But people are wondering what is the meaning of last scene., You know, the old man who [is] lying on the bed, in the house? Could you give us an answer?

Kubrick: I try to avoid doing this ever since the picture came out, because when you just say the ideas they sound foolish, whereas if they’re dramatized one feels it.”

E depois acrescenta. “But I’ll try.” E explica. Bowman é levado por entidades superiores “godlike entities; creatures of pure energy and intelligence with no shape or form”. Essas entidades colocam-no numa espécie de:“human zoo.”

O quarto de arquitetura francesa não é uma realidade terrestre. É uma reconstrução imperfeita criada pelas entidades, da mesma forma que nós tentamos reconstruir nos jardins zoológicos aquilo que imaginamos ser o habitat natural de um animal. Bowman passa ali o resto da vida sem consciência normal da passagem do tempo. 

Até que:

“he is transformed into some kind of super being and sent back to earth.”

Ou seja: o quarto, o envelhecimento e o Star Child não eram apenas uma sucessão de imagens abstratas. Kubrick tinha uma mecânica narrativa bastante concreta para aquilo que estávamos a ver.

E então acontece algo ainda melhor. O entrevistador pergunta-lhe pelo final de The Shining. Kubrick volta a explicar. A fotografia de 1921 pretende sugerir: “a kind of evil reincarnation cycle.” Jack pertence à história do hotel. É a concretização da frase de Grady: “you are the caretaker; you’ve always been the caretaker.”

E Kubrick termina quase como quem percebe que já falou demais:

“It’s the sort of thing that I think is better left unexplained, but since you asked me I tried to explain.”

Poucos minutos depois, fecha a entrevista regressando exatamente à posição que acabara de violar.

Diz que uma das grandes experiências do cinema consiste no espectador perguntar-se se aquilo que viu foi acidental ou colocado deliberadamente pelo realizador: “Subtlety and allowing the audience to discover for themselves […] is the most important thing.” E conclui: 

“I think the film should be able to speak for itself.”

No final, parece que Kubrick se contradisse. Mas talvez haja uma distinção ainda mais relevante. Kubrick não explica propriamente o que 2001 significa. Explica apenas o que acontece. Diz mesmo: “the idea was supposed to be…”

Há uma arquitetura narrativa por detrás das imagens: entidades superiores, jardim zoológico humano, envelhecimento, transformação, regresso à Terra. Mas quando Bowman regressa como Star Child, Kubrick para:

“we have to only guess what happens when he goes back.”

Talvez seja esta a diferença fundamental.

Explicar o acontecimento não é fechar o significado.

E talvez seja por isso que, mesmo depois de Kubrick nos ter explicado o que acontece no final de 2001, continuamos sem conseguir explicar 2001.



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