Second Victims (2025), Zinnini Elkington

Acabei Second Victims de rastos. Não propriamente porque o filme faça algo de radicalmente novo na linguagem visual. Pelo contrário, trabalha dentro de uma gramática que se tornou quase dominante naquilo que chamo harsh realism: câmaras muito próximas dos rostos, profundidade curta, montagem rápida, corpos comprimidos pelo enquadramento, pouco espaço para respirar. É uma linguagem que procura eliminar a distância entre espectador e personagem, colocando-nos quase fisicamente dentro da pressão emocional. Pensei várias vezes em Adolescence (2025), embora aí o efeito seja conseguido de forma quase inversa: sem montagem visível, através de plano-sequência, obrigando a que toda a tensão seja construída pela encenação, pela deslocação dos atores e da câmara dentro do espaço.

Mas aquilo que verdadeiramente me destruiu em Second Victims foi Alexandra. O filme começa por fazer dela o nosso farol. Alexandra é extremamente competente e humana, atenta aos pacientes e aos colegas. Não é apenas uma médica que sabe muito. Sabe lidar com pessoas, sabe decidir sob pressão, sabe ensinar, sabe apoiar, sabe manter o sistema a funcionar. Durante a primeira parte, o filme praticamente encosta-nos à parede e diz: é isto que significa ser um grande médico. Não basta dominar teoria. É preciso conseguir pensar depressa, decidir com informação incompleta e, ao mesmo tempo, continuar a reconhecer o ser humano que está diante de nós.

E nós acreditamos nela. É precisamente por isso que aquilo que acontece depois nos atinge com tanta força. O filme não constrói uma personagem incompetente que comete um erro e depois sofre as consequências. Faz algo muito mais perturbador: coloca uma profissional excecional diante da possibilidade de ter tomado uma decisão errada. Ou talvez nem sequer errada. Apenas uma decisão que produziu uma consequência devastadora.

Foi aí que inicialmente pensei em Kieslowski e Farhadi, sobretudo naquela capacidade que eles têm para nos colocar perante dilemas morais sem solução satisfatória. Mas percebi depois que Second Victims trabalha num lugar ligeiramente diferente. O verdadeiro centro do filme não está antes da decisão. Está depois. 

A questão já não é: o que devo fazer? É: como posso continuar depois de ter feito aquilo que me parecia correto e descobrir que talvez tenha sido uma falha terrível?

Alexandra entra então numa espécie de ruminação de hipercompetência. Não é apenas culpa. A culpa permitiria, de alguma maneira, uma resposta relativamente simples: fiz mal. Aqui acontece algo mais corrosivo. Se Alexandra construiu a sua identidade sobre a capacidade de perceber, avaliar e decidir melhor do que a maioria, então o acontecimento abre uma falha muito mais profunda: se não conseguiu prever isto, até onde pode continuar a confiar em si própria? A competência, que no início do filme era fonte de segurança, transforma-se no instrumento da sua tortura.

E o filme faz-nos participar nesse processo. Também nós regressamos mentalmente à decisão, procuramos sinais, tentamos identificar o instante em que tudo poderia ter sido diferente. Começamos a reconstruir retrospetivamente aquilo que aconteceu com informação que Alexandra não possuía no momento em que teve de decidir. É a armadilha cognitiva perfeita: depois de conhecermos as consequências, parece sempre que elas já estavam inscritas em todos os sinais.

Talvez seja aqui que Second Victims se torna verdadeiramente trágico. Não porque alguém faça conscientemente o mal, mas porque o conhecimento humano é limitado, a decisão é inevitável e as consequências podem ultrapassar aquilo que qualquer pessoa seria capaz de antecipar.

Há ainda um gesto narrativo que me parece de uma enorme inteligência. Só muito perto do fim aparece o bebé de Alexandra que tínhamos semi-antecipado pelas camisolas húmidas nos peitos. O filme poderia ter usado essa informação desde o início para aumentar a nossa empatia, mostrar-nos a mãe cansada, a profissional dividida, criar mais um elemento sentimental. Não o faz. Guarda tudo isso. E quando no final Alexandra abre a porta de casa, a família aparece, o bebé aparece, num cenário aparentemente normal e inócuo, dá-se quase um choque violento dentro de nós: durante todo aquele tempo vimos “a médica”; subitamente somos confrontados com um corpo que continua ligado a outra vida, algures fora daquele hospital.

Mas a cena que mais me atingiu acontece imediatamente antes. A jovem médica que tinha sido atacada injustamente, e que entretanto também foi arrastada para o centro daquele furacão, aproxima-se de Alexandra. E abraça-a. Não há explicação. Não há argumento. Não há protocolo. Não há frase capaz de corrigir o que aconteceu. Há apenas um ser humano a segurar outro.

Talvez por isso tenha pensado também em Late Shift (2025) e Adolescence. Filmes muito diferentes, mas que parecem partilhar alguma coisa que me interessa cada vez mais: uma espécie de cinema de proximidade moral. Filmes que retiram as proteções que usamos diariamente para julgar os outros à distância e nos obrigam a permanecer junto de pessoas falíveis, imperfeitas, por vezes responsáveis por consequências terríveis, sem por isso deixarem de ser profundamente humanas.

Não se trata daquela ideia confortável de que “todos cometemos erros”. É algo mais difícil. É continuar a olhar para alguém depois do erro. Depois da decisão. Depois da culpa. Depois de já não existir forma de regressar atrás. E ainda assim conseguir reconhecer naquela pessoa alguém que merece compaixão.

Talvez seja isso que estes filmes me dão, apesar de me deixarem emocionalmente destruído. Não me mostram que o mundo é seguro. Mostram exatamente o contrário. O mundo é feito de acaso, de informação incompleta, de decisões tomadas sem garantias, de sofrimento que muitas vezes não conseguimos impedir. E depois colocam duas pessoas diante uma da outra. Uma delas abre os braços. E, por vezes, isso é tudo o que resta.


Nota: À data desta publicação, Second Victims ainda não teve, tanto quanto consegui apurar, distribuição comercial ou disponibilidade em streaming em Portugal.

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