A Separation (2017), Katie Kitamura
Acabei A Separation (2017), de Katie Kitamura, com uma sensação de experiência plena, ainda que acompanhada por uma ausência de novidade ou de fechamento, mas durante as 6 horas de leitura e escuta, Kitamura, juntamente com a voz de Katherine Waterston, levaram-me para um mundo particular, não escapista, porque dentro de mim. Durante todos os minutos que a ouvi e li senti que respirava melhor, que encontrava uma sincronia com o mundo lá fora, e isso permitiu-me aceitar melhor os momentos menos bons, e ganhar energia para continuar a puxar no resto dos dias.
Não foi a minha primeira leitura de Kitamura, já tinha lido Intimacies (2021), e reconheci a mesma escrita controlada, assente numa extraordinária capacidade de observação à distância, intercalada com pequenos rasgos perceptivos. Mas desta vez bateu muito mais fundo. Há aqui também muito de Rachel Cusk, não apenas pela passagem pela Grécia, mas pela forma como a narradora parece construir-se menos através daquilo que nos conta sobre si e mais através daquilo que observa nos outros. E senti igualmente qualquer coisa de My Year of Rest and Relaxation (2018), de Ottessa Moshfegh, naquela distância emocional, naquele estado de suspensão em que aparentemente pouco acontece e, no entanto, há uma enorme agitação subterrânea.
A Separation é um livro estranho porque quase nada entrega daquilo que promete. Há uma separação, mas ela nunca chega verdadeiramente a acontecer porque um deles morre. Há infidelidade, desaparecimento, morte, suspeitas. Estão aqui todos os ingredientes para um romance que quisesse explicar, revelar e resolver, mas Kitamura não tem qualquer interesse na estrutura narrativa clássica. Ficamos presos ao ponto de vista de uma mulher que já se separou mentalmente do marido, embora ainda não possa dizer isso a ninguém, e que permanece nessa suspensão do princípio ao fim, detendo-se quase exclusivamente naquilo que está a acontecer e muito pouco naquilo que a levou até àquele ponto.
E é aí que o livro se torna extraordinário: mantém-nos profundamente ocupados enquanto quase nada acontece. Pelo ritmo, pela criação de atmosfera, pelas pequenas observações que vai fazendo: quando encontra uma pasta de imagens pornográficas no computador do marido; quando conversa com a mãe dele; ou quando um mero quarto de hotel se pode abrir num abismo.
A narração do audiobook foi, para mim, decisiva. A cadência, o tom, as pausas, a contenção criaram exactamente o estado daquela mulher: presente e ausente, ainda dentro da relação e já fora dela. Houve momentos em que deixei de sentir que estava simplesmente a ouvir literatura. Era literatura, performance e experiência ao mesmo tempo. Experimentei ler, e também funciona, mas a performance de Katherine Waterston consegue elevar toda a experiência.
Agora, fica-me muito evidente que este livro não tocará toda a gente assim. Para muitos será frio, lento e provavelmente frustrante porque não responde às perguntas que cria. Este tipo de literatura parece depender de uma espécie de sincronização entre a obra e o nosso próprio sensor experiencial. Quando essa frequência não se encontra, talvez não se sinta mais do que um vazio. Mas quando acontece, o vazio parece vibrar em frequências fora do visível e do audível.
O facto de eu estar a atravessar uma fase de enorme suspensão da minha vida, entre aquilo que ainda existe e aquilo que talvez já tenha terminado, acredito ter sido responsável por esta enorme aproximação. O livro perfeito lido no momento perfeito.
Por vezes uma obra encontra-nos exactamente no momento em que somos capazes de a receber. E durante algumas horas, literatura, voz, corpo e vida alinham-se de uma maneira que já não conseguimos separar Foi isso que me aconteceu com A Separation.

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