Armand (2024) Halfdan Ullmann Tøndel
Acabei Armand (2024), de Halfdan Ullmann Tøndel, de boca aberta. Durante metade do filme achei que estava a ver uma história que precisava de ser compreendida: uma acusação entre duas crianças, duas mães colocadas em posições opostas, professores que tentam perceber o que aconteceu. Somos colocados no lugar tradicional de juntar pistas, escolher quem estará a dizer a verdade, procurar incoerências e desvios. Mas pouco depois o filme começa a desfazer tudo isso
A mãe que acusa passa também a ser acusada. Surgem histórias antigas, violência, ressentimentos familiares. Aquilo que parecia uma linha com duas simples pontas transforma-se numa teia. E quanto mais informação obtemos, menos conseguimos compreender. Confesso que comecei a ficar irritado. Queria saber. Queria compreender. Queria que alguém finalmente me explicasse o que raio se tinha passado.
A meio do filme embarcamos numa viagem semionírica que parece transportar-nos para outra dimensão, e começamos a duvidar de tudo, absolutamente. E a chave, se é que se lhe pode chamar tal, acontece numa cena perto do fim, quando Elisabeth, diante de fotografias de quando eram crianças e tinham passado por aquela escola, diz:
- quando olhamos apenas para a superfície, vemos muito caos;
- quando olhamos demasiado profundamente, não encontramos nada melhor;
- se conseguirmos olhar nem demasiado, nem de menos, percebemos que estamos bem.
E de repente percebi que Armand talvez estivesse a fazer comigo exactamente aquilo de que falava. Eu já estava demasiado perto.
Queria escavar aquelas pessoas até encontrar uma explicação definitiva. Mas talvez não exista um último estrato onde tudo finalmente faça sentido. Talvez conhecer mais não signifique necessariamente compreender melhor.
E talvez exista mesmo qualquer coisa como uma ética do olhar: saber aproximarmo-nos dos outros, mas também saber quando parar.
Continuo a achar que o filme exagera no último terço e que por momentos a ambiguidade não vai além da opacidade. Mas fiquei preso a este simples constructo:
Nem todos os mistérios humanos podem ser totalmente resolvidos. Alguns talvez precisem apenas de ser vistos à distância certa e aceitar aquilo que é possível ver.
Streaming: FilmIn

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