La buena suerte (2020)
La buena suerte acabou por me satisfazer bastante. Ouvi-o todos os dias durante as férias, nos passeios da manhã, acompanhando as desventuras de Pablo e aquela estranha decisão de suspender a vida. Porque é disso que o livro trata antes de ser qualquer outra coisa: de um homem que, de repente, deixa tudo para trás. Não exatamente para começar de novo. Talvez apenas para deixar de ser quem era. Foi aí que o livro mais me interessou. Na fuga, na culpa, na vontade de desaparecer sem propriamente morrer.
Pablo é um homem esmagado por uma vida que já não sabe habitar, por relações que não consegue resolver e por escolhas que não pode desfazer. Rosa Montero entra em zonas pouco confortáveis, sobretudo quando toca na família, na paternidade e na possibilidade de amarmos alguém e, ao mesmo tempo, desejarmos secretamente não carregar aquilo que essa pessoa representa. O livro torna-se bastante mais profundo do que o policial que também vai construindo.
Fiquei, no entanto, com a sensação de que Montero podia ter ido mais longe. O romance aproxima-se várias vezes de um lugar muito mais existencial e sombrio, onde talvez não exista reparação, nem solução, nem sequer uma grande aprendizagem final. Apenas continuar. Mas recua. Precisa de fechar o arco, de encontrar alguma luz, de acreditar que as pessoas podem voltar a encontrar qualquer coisa depois de se terem perdido. E há personagens cuja disponibilidade para salvar os outros me parece por vezes excessivamente generosa para ser completamente convincente.
Talvez por isso não seja o grande livro que durante alguns momentos pensei que poderia tornar-se. Mas é um belo livro de Rosa Montero. Porque por baixo da intriga e dos mecanismos narrativos mais convencionais existe uma pergunta que fica: o que fazemos quando já não queremos a vida que construímos, mas também não sabemos qual seria a alternativa? Montero olha para esse buraco interior. Não deixa as personagens penduradas pela corda até ao fim, como talvez eu preferisse. Mas chega suficientemente perto da borda para que o livro continue connosco depois de terminado.

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