Fugitive parce que reine (2018)
Acabei a leitura de "Fugitive parce que reine" (2018), de Violaine Huisman, um pouco em choque. A primeira parte tinha-me atravessado completamente. Havia ali uma violência íntima, uma capacidade rara de abrir a família por dentro e mostrar aquilo que normalmente fica escondido atrás das fotografias, dos nomes respeitáveis, das casas e da cultura. Catherine surgia como uma presença forte, excessiva, por vezes cruel, mas também doente e humana. E Violaine Huisman parecia suficientemente consciente daquilo que estava a fazer para não transformar mero sofrimento em grandeza.
Na segunda parte comecei a afastar-me. Entramos num mundo parisiense de intelectuais, artistas, homens e mulheres para quem o dinheiro parece existir sobretudo para ser gasto, para quem poupar é uma forma de mediocridade, jantar em casa quase uma derrota, antecipar o futuro um sintoma pequeno-burguês. Não é propriamente a riqueza que me incomoda, nem sequer o privilégio em si. O que me incomodou foi o desprezo por uma outra maneira de viver: trabalhar, construir, poupar, comprar uma casa, proteger os filhos, pensar no amanhã.
Talvez porque venho precisamente do lado oposto dessa história. Cresci como filho de pais emigrantes, para quem a vida significava trabalhar, poupar, dar conforto ao lar e aos filhos, comer em casa para não gastar, comprar a casa da família e continuar a poupar. Eternamente a poupar, vezes demais, talvez, em vez de viver verdadeiramente
E foi estranho perceber que o livro me obrigava a olhar para essa ética a partir do outro lado. Para pessoas que parecem considerar que o dinheiro guardado é vida desperdiçada, que o presente não deve nada ao futuro, que a experiência vale mais do que a segurança.
Há talvez alguma verdade nisso. Uma vida inteiramente organizada em função do amanhã pode acabar por nunca chegar ao presente. Mas a alternativa que o livro apresenta também me parece profundamente limitada: a intensidade não deixa de ter custos só porque é bela.
Mas foi na terceira parte que o livro me perdeu. A distância crítica desaparece quase por completo e entra uma espécie de consagração da mãe. Tudo aquilo que até aí podia ser observado com alguma ambivalência — a violência, o caos, a irresponsabilidade, a dependência, o sofrimento provocado — começa a ser absorvido por uma enorme declaração de amor.
E toda essa oração fúnebre fez-me questionar: mas afinal o que fez esta mulher? Onde está a sua obra? O que deixou para além da intensidade da sua presença? A resposta parece ser precisamente essa: deixou a sua presença. E talvez esse seja o verdadeiro centro do livro.
Catherine não parece ter construído uma obra proporcional à dimensão que ocupa no romance. O que construiu foi uma força gravitacional em torno de si própria. Amou, sofreu e destruiu sem meias-medidas e marcou de forma absoluta as pessoas à sua volta. E isso não me chega, para o enaltecimento que se faz na terceira parte do livro.
Há uma coisa diante da qual tiro o chapéu: aquela mulher amou tremendamente as filhas. Não foi necessariamente uma boa mãe. Há comportamentos descritos no livro que hoje reconheceríamos facilmente como maus-tratos, negligência ou abuso emocional. E é importante não confundir intensidade afetiva com boa parentalidade.
Uma criança pode amar profundamente um progenitor imprevisível, precisamente porque os momentos de amor, reconciliação e fusão emocional são tremendamente intensos. É algo que também vemos em famílias separadas: o pai ou a mãe que aparece ocasionalmente cheio de energia, com prendas, passeios e festa, pode concentrar os momentos de maior excitação emocional, enquanto o outro progenitor fica associado ao quotidiano, às regras, às tarefas, à escola, ao cansaço e à responsabilidade.
Ser emocionalmente inesquecível não é o mesmo que ser parentalmente seguro. Mas também seria injusto reduzir Catherine ao dano que provocou. As filhas parecem nunca ter duvidado de que eram ferozmente amadas. E talvez seja precisamente por isso que "Fugitive parce que reine" existe. Violaine Huisman não está apenas a contar a história da mãe. Está a tentar compor um ramalhete a partir dos destroços deixados pelos dois pais.
Talvez por isso a terceira parte me tenha incomodado tanto: eu queria consciência; a autora queria expressar a sua total devoção. E essas duas necessidades não são a mesma coisa.
O livro está extraordinariamente bem escrito. Há páginas de enorme força, momentos de uma lucidez brutal e uma capacidade impressionante de entrar no espaço íntimo de uma família. Mas termino-o profundamente afastado do mundo que descreve e ainda mais afastado da sua transformação final da mãe numa figura quase mítica.
Ainda assim, talvez o livro tenha conseguido algo mais importante do que convencer-me. Obrigou-me a confrontar duas maneiras opostas de viver: guardar o presente para proteger o futuro, ou gastar o futuro para intensificar o presente. Não quero nenhuma das duas por inteiro. Talvez o difícil seja precisamente aprender a viver algures entre ambas

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