Unabomber (2026) a ciência no banco dos réus
Não me interessa muito entrar na mente de Ted Kaczynski. Unabomber (2026), com Russell Crowe e estreado a 25 de setembro na Netflix, interessou-me por uma particularidade estética com impacto no significado do que o filme quer dizer, nomeadamente pelo modo como sentou a ciência no banco dos réus e depois, no momento decisivo, assustados com o que o filme estava efetivamente a fazer, os guionistas resolveram tirar da cartola um coelho de 1998 para evitar o pior.
O filme de Janus Metz parte de um facto histórico. Kaczynski entrou em Harvard aos 16 anos e, no ano seguinte, participou numa série de experiências conduzidas por Henry Murray, psicólogo muito reconhecido na altura, destinadas a estudar o comportamento humano sob pressão. Os participantes eram levados a expor convicções pessoais e depois submetidos a confrontos agressivos destinados a provocar stress intenso e medir as suas reações.
Hoje é fácil olhar para estes procedimentos como eticamente inaceitáveis. Terríveis. Mas é também demasiado fácil reduzi-los a Murray como cientista perverso. O problema era muito maior. Murray pertence a um período das ciências humanas e médicas em que o sujeito experimental, em termos psíquicos, tinha menos proteção do que aquela que hoje consideramos elementar no tratamento físico dos ratinhos de laboratório. A consolidação institucional de princípios como o consentimento informado ou a avaliação independente do risco demorou décadas. O Belmont Report, que estabelece nos Estados Unidos os princípios de respeito pela pessoa, beneficência e justiça na investigação com seres humanos, data apenas de 1979!
É esta história da ciência que Unabomber convoca. E convoca-a sem grande subtileza. O jovem Ted entra em Harvard excecionalmente novo, intelectualmente brilhante e socialmente vulnerável. Murray aproxima-se dele, reconhece-lhe capacidades, faz aquilo que hoje talvez chamássemos uma espécie de grooming intelectual, e transforma o jovem rapaz numa cobaia de experimentação.
O filme vai ligando estas experiências à progressiva transformação de Ted. As relações deterioram-se. As notas caem. A hostilidade aumenta. O isolamento cresce. Não é preciso o espectador construir a relação causal. O filme constrói a causa e o efeito e oferece-os sem grande margem para dúvidas.
A apresentação oficial da Netflix descreve uma das duas linhas narrativas como aquela que acompanha aquilo que “moldou Kaczynski”, e Janus Metz identifica o conflito com Murray como um momento decisivo em que Ted opta por “virar as costas ao mundo”. Ao mesmo tempo, os próprios guionistas reconhecem que grande parte da relação pessoal apresentada entre Murray e Kaczynski é especulativa.
É aqui que temos um problema.
Uma coisa é mostrar práticas científicas que hoje consideraríamos abusivas. Outra é construir cinematograficamente uma sequência em que essas práticas parecem participar na criação de um homem que viria a matar três pessoas e ferir outras 23, mobilizando durante 17 anos uma investigação cuja task force chegou a integrar mais de 150 investigadores, analistas e outros profissionais a tempo inteiro, envolvendo ainda quase todos os escritórios do FBI nos Estados Unidos.
Durante boa parte de Unabomber, é isso que é montado diante de nós. Até ao último experimento.
Aí acontece algo estranho. Murray deixa de ser apenas o investigador que manipula Ted. Senta-se diante dele como debatedor e começa praticamente a dar-lhe uma aula sobre esquizofrenia! E acaba por diagnosticá-lo!
A cena é particularmente importante porque esse diagnóstico não aconteceu naquele momento histórico. Aconteceu apenas décadas depois, em 1998, quando a psiquiatra Sally Johnson, nomeada pelo tribunal para avaliar Kaczynski, concluiu que sofria de esquizofrenia paranoide, embora o considerasse competente para ser julgado. O diagnóstico foi contestado por outros especialistas. O filme transporta-o retrospetivamente para Harvard e coloca-o na boca de Murray.
A questão é que isto não foi uma mera jogada de data para incrementar o drama. A esquizofrenia permite introduzir, no último momento, uma segunda causalidade.
Até aí tínhamos:
Murray → experiências → deterioração → Kaczynski.
A esquizofrenia abre todo um novo mundo:
Patologia → deterioração → Kaczynski.
E não é uma hipótese arbitrária. A esquizofrenia é hoje compreendida como uma perturbação complexa, envolvendo fatores neurodesenvolvimentais, genéticos e ambientais, e manifesta-se frequentemente no final da adolescência ou início da idade adulta, precisamente o período em que o filme acompanha Kaczynski em Harvard.
É como se o filme tivesse percebido onde a sua própria montagem o estava a levar. Passou grande parte da narrativa a sugerir: olhem o que a ciência fez a este jovem. Mas depois, com receio de ter pisado a linha vermelha em excesso, introduz um cartaz em letras grandes:
Atenção, talvez já houvesse ali uma doença.
O mais curioso é ser o próprio Murray a fornecer essa saída. Murray passa assim de acusado pelo filme, a testemunha em própria defesa. Aquilo que poderia ser interpretado como efeito da experiência é reinterpretado pelo experimentador como manifestação de uma patologia que já estava no sujeito.
Não sabemos o que as experiências de Murray fizeram a Kaczynski. Podemos dizer que eram eticamente problemáticas; não podemos estabelecer a partir daí uma linha causal até ao Unabomber. O cinema pode. Ou, pelo menos, pode fazê-lo durante grande parte do filme e depois recuar!
O filme quer usar toda a potência dramática da ideia de que uma ciência arrogante, convencida de que podia desmontar a mente humana, ajudou a produzir aquilo que pretendia estudar. Mas não quer suportar inteiramente o peso dessa afirmação. Não quer ser acusado da mesma manipulação causal que acabou de realizar.


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