Disclosure Day (2026), Spielberg abraça o imaginário conspirativo
Saí de "Disclosure Day" (2026) não apenas desiludido com Steven Spielberg, mas perturbado pelo que o filme faz enquanto acto de comunicação. A premissa é profundamente simples. Spielberg regressa ao território de "Close Encounters of the Third Kind" (1977), mas funde-o agora com a mitologia conspirativa de Roswell: extraterrestres estiveram na Terra, o governo sabe, existem corpos e provas, tudo foi escondido durante décadas e aqueles que tentaram revelar a verdade foram desacreditados ou silenciados.
Em 1977, esta poderia ainda ser uma fantasia alimentada pela cultura UFO do pós-guerra. Em 2026, é outra coisa.
Entretanto passaram quase cinquenta anos de ciência, astrobiologia e ficção científica. "2001: A Space Odyssey" (1968) e "Solaris" (1972) já tinham imaginado formas de inteligência extraterrestre radicalmente outras, difíceis até de representar ou compreender. Hoje podemos acrescentar décadas de literatura sobre primeiro contacto, de Stanisław Lem a Ted Chiang ou Liu Cixin. Spielberg regressa, contudo, aos pequenos seres cinzentos de Roswell.
A regressão não é apenas estética ou intelectual. É epistemológica.
A iconografia que o filme mobiliza está profundamente ligada a uma das mais famosas fraudes mediáticas sobre extraterrestres: a chamada Alien Autopsy, apresentada em 1995 como filmagem de uma autópsia realizada após o incidente de Roswell. As imagens circularam pelas televisões de todo o mundo e foram rapidamente contestadas. Os responsáveis pela sua produção acabariam por admitir que tinham recriado a filmagem.
As investigações oficiais realizadas sobre Roswell também não encontraram evidência de corpos ou materiais extraterrestres. O relatório histórico da AARO, publicado em 2024, conclui que os materiais recuperados eram compatíveis com o então secreto Project Mogul e que não existem registos que demonstrem a recuperação de extraterrestres ou tecnologia extraterrestre.
Nada disto impediria Spielberg de fazer uma ficção sobre Roswell. A ficção não tem obrigação de dizer a verdade. Kubrick não precisava de demonstrar que existia um monólito extraterrestre para fazer 2001.
O problema está noutro lugar.
Disclosure Day não usa esta mitologia para a interrogar. Confirma-a.
No universo moral e factual do filme, os conspiracionistas estavam certos. Os extraterrestres estiveram aqui. O Estado mentiu. As provas existiam. As instituições participaram no encobrimento. As testemunhas desacreditadas sabiam a verdade.
E Spielberg retirou ainda a última protecção que a palavra “ficção” poderia oferecer. Numa entrevista à CBS, afirmou explicitamente: “I absolutely think that they have been here, and they are here.”
Essa crença não surge num vazio. "Disclosure Day" aparece no mesmo momento cultural de "The Age of Disclosure" (2025), documentário de Dan Farah que apresenta como realidade um alegado encobrimento governamental de décadas sobre inteligência não-humana, apoiando-se sobretudo no testemunho de antigos responsáveis militares, políticos e membros dos serviços de informação. O próprio vocabulário de “disclosure” já pertence, portanto, a um movimento que procura deslocar a velha cultura UFO das margens conspirativas para o espaço da legitimidade institucional.
À volta desse discurso já existe também uma cultura material e comercial. Na Amazon vendem-se moedas comemorativas de “UAP Disclosure” que constroem uma cronologia explícita — “1947 Roswell”, “1969 Moon Missions”, “2023 Pentagon Reports”, “2026 Full Disclosure” — acompanhada por slogans como “They knew. They hid it” e “The truth is coming”. A conspiração deixou de ser apenas uma crença: tornou-se identidade, estética e merchandising.
Disclosure Day não cria este ecossistema. Entra nele e oferece-lhe uma das mais poderosas máquinas de legitimação cultural disponíveis: Steven Spielberg. Não estamos, portanto, apenas perante personagens que acreditam numa conspiração. Estamos perante um autor que afirma publicamente partilhar a crença que o filme dramatiza como verdadeira.
Steven Spielberg é um dos maiores produtores de imaginário dos últimos cinquenta anos. É também o realizador de Schindler’s List (1993), Munich (2005), Lincoln (2012) e The Post (2017): alguém cujo cinema acumulou um enorme capital cultural em torno de questões como história, memória, testemunho, instituições e verdade pública.
É precisamente por isso que a comparação com Schindler’s List se torna tão incómoda. Em Schindler’s List, Spielberg colocou o extraordinário poder emocional e persuasivo do cinema ao serviço de uma realidade histórica esmagadoramente documentada. Em Disclosure Day, coloca esse mesmo capital simbólico ao serviço de uma alegação extraordinária sem evidência correspondente.
Não estou a dizer que Spielberg esteja deliberadamente a mentir. Pelo contrário: as suas declarações sugerem que acredita realmente nisto. O problema talvez seja ainda maior por isso. Spielberg não está apenas a representar uma teoria da conspiração. Está a emprestar-lhe a sua autoridade.
É também por isso que o filme colide com décadas de trabalho em literacia mediática e, mais recentemente, com o esforço crescente de combate à desinformação. A UNESCO tem colocado o pensamento crítico e a capacidade de avaliar informação no centro da Media and Information Literacy, enquanto a Comissão Europeia reforçou em 2026 as suas orientações para o combate à desinformação e promoção da literacia digital, sublinhando precisamente a necessidade de distinguir factos de informação falsa ou enganadora e de desenvolver competências de verificação e pensamento crítico. "Disclosure Day" faz quase o movimento inverso: transforma meros testemunhos, emoção e autoridade em confirmação (UNESCO, 2021; European Commission, 2026).
As pessoas usam histórias para organizar o mundo. "Disclosure Day" oferece-lhes uma estrutura particularmente perigosa, e bem conhecida dos mundos da desinformação:
- Existe uma verdade escondida.
- As instituições mentem.
- Os especialistas não sabem ou participam no encobrimento.
- Os que todos consideram paranoicos são aqueles que realmente perceberam.
- A ausência de provas demonstra apenas como o encobrimento foi eficaz.
- Um dia acontecerá a revelação.
Com a enorme agravante de ser uma estrutura facilmente transferível. A investigação sobre teorias da conspiração tem demonstrado que estas podem formar sistemas de crença “monológicos”: aceitar uma conspiração torna outras mais plausíveis, mesmo quando são incompatíveis, porque todas assentam numa crença superior: as autoridades estão a esconder a verdade.
É por isso que Roswell não existe num vazio cultural. Não significa que acreditar em extraterrestres leve alguém necessariamente a acreditar que a Terra é plana, que a ida à Lua foi falsificada, que as redes 5G causaram ou disseminaram a Covid-19, ou que existe uma “Grande Substituição” deliberadamente organizada pelas elites europeias.
Significa que todas estas narrativas podem habitar a mesma arquitectura de desconfiança: a convicção de que a realidade pública é uma fachada e de que governos, instituições, ciência e media escondem uma verdade conhecida apenas por alguns.
E já vimos as consequências políticas dessa arquitectura. QAnon deixou há muito de ser uma excentricidade marginal da Internet. Dados da PRRI mostram que, nas eleições americanas de 2024, 81% dos eleitores classificados como crentes em QAnon votaram Donald Trump. A correlação não demonstra causalidade, mas mostra até que ponto crenças conspirativas podem integrar ecossistemas políticos mainstream.
É por isso que a cena de Disclosure Day em que uma pivot televisiva chora ao anunciar “não estamos sozinhos” me parece tão problemática. O jornalismo já não verifica. Consagra.
E o filme faz exactamente o mesmo.
Talvez esta seja a verdadeira irresponsabilidade de Disclosure Day: não acreditar em extraterrestres, mas ensinar novamente que a melhor maneira de conhecer o mundo é desconfiar das instituições, acreditar no segredo e esperar pela grande revelação.
No recreio de uma escola, seria apenas uma história sobre adultos que escondem coisas. Dita por Steven Spielberg, com 79 anos, através de um dos maiores megafones culturais do planeta, torna-se outra coisa: torna-se combustível.



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