O Viajante à Luz da Lua (1937) Antal Szerb

Comecei O Viajante à Luz da Lua (1937), de Antal Szerb, com entusiasmo, mas fui perdendo alguma paciência com Mihály, e as suas crises existenciais atravessadas pelo conforto que também já tinha visto em Thoreau. Um homem em lua-de-mel que se perde da mulher em Itália e decide continuar perdido. Tem dinheiro, cultura, mobilidade, pessoas que o ajudam. Pode ir embora. Pode regressar. Move-se em busca de algo que não sabe o que é.

Durante bastante tempo pareceu-me mera deambulação infantil. Fuga às obrigações. O problema não era o não acontecer nada. Nem a lentidão. Nem a veia satírica de Szerb. Era não sentir resistência no enredo. Não sentir que alguma coisa estivesse verdadeiramente em jogo em todo aquele flâneurismo.

Durante boa parte de O Viajante à Luz da Lua, pensei em desistir, até encontrar Erwin num mosteiro em Itália. Diria que foi uma espécie de primeira fissura naquele mundo quase onírico de fuga e perda inicial. Porque se Mihály passa todo o tempo a fantasiar a possibilidade de abandonar a vida que construiu. Erwin abandona-a mesmo. Retira-se para um mosteiro, esquece carreira, dinheiro, e tudo aquilo que a antiga vida burguesa lhe oferecia.

Comecei a sentir que talvez houvesse aqui algo, alguém disposto a aceitar o custo. Mas não foi ainda aí que o livro se abriu. Foi depois, quando Szerb começou a aproximar aquilo que fazemos durante a vida daquilo que fazemos para conseguir não pensar na morte.

Isto atingiu-me com uma pancada violenta na têmpora. Passamos a vida a ocupar a mente, a produzir acontecimentos, preocupações, interesses, desejos, precisamente para não pensarmos continuamente no dia em que iremos desaparecer. Parece uma observação simples. Até banal. Mas quanto mais pensava nela, menos banal se foi tornando.

Trabalhamos. Lemos. Viajamos. Apaixonamo-nos. Compramos coisas. Criamos projectos. Construímos carreiras. Discutimos política. Vemos filmes. Planeamos o próximo verão. Marcamos um jantar para sexta-feira. Preocupamo-nos porque o carro precisa de ir à revisão.

Evidentemente que fazemos tudo isto porque queremos fazê-lo. Mas fazemos também uma coisa muito estranha: produzimos continuamente futuro. A agenda dos próximos passos é, no fundo, uma pequena forma contínua de negar a morte.

O projecto que queremos terminar daqui a seis meses pressupõe que estaremos cá daqui a seis meses. O livro que começamos hoje contém a expectativa de chegar à última página. Quando perguntamos a alguém o que vai fazer nas férias estamos a participar no mesmo acordo colectivo segundo o qual continuaremos todos por aqui.

E foi aí que Szerb me agarrou. Talvez uma boa parte daquilo a que chamamos vida seja apenas isto: manter suficientemente ocupada a consciência para que ela não tenha de olhar permanentemente para o facto mais extraordinário de todos: daqui a algum tempo deixarei de ser.

E é neste ponto que Tamás começa a ocupar outro lugar no romance. Até então eu lia a obsessão de Mihály pelo passado sobretudo como nostalgia. A juventude, os amigos, Éva, Tamás, aquela intensidade adolescente que a vida adulta já não consegue reproduzir.

Mas Tamás não representa apenas a juventude. Tamás morreu. Mais do que isso: Tamás escolheu morrer. E isto altera tudo. Mihály não está apenas fascinado por alguém que pertenceu ao seu passado. Está fascinado por alguém que fez aquilo que nenhum dos outros fez: interrompeu a continuidade.

Em Tamás o medo da morte e o desejo de morrer deixam de funcionar como opostos. Podemos ter medo absoluto de deixar de existir e, ao mesmo tempo, compreender a sedução de deixar de ter de continuar. Não necessariamente querer morrer.

Querer, por momentos, deixar de ter de sustentar a personagem em que nos fomos tornando. Deixar de ser o marido, o profissional, o filho, o amigo, o homem responsável pelas decisões anteriores, pela agenda da próxima semana e pelas consequências do que fez ontem.

Foi só aqui que comecei a aceitar a fuga de Mihály. Ele não procurava só outra vida. Ele não estava só a tentar reviver a juventude, a nostalgia que adoça o nosso sentir em breves trechos, mas que nunca se aproxima sequer do limiar da ferida maior.

Mihály está, na verdade, a perseguir Tamás. Porque ele não tem de regressar a ser. Com isso, não teve de descobrir aquilo em que se tornaria, nem teve de aprender a conviver com o seu próprio adulto.

Há alguma coisa de profundamente perturbadora nisto porque Szerb não transforma estas ideias num grande drama filosófico. Continua a brincar. Continua a fazer entrar personagens estranhas. Continua a produzir coincidências, episódios absurdos, conversas ridículas.

A morte não entra no romance como gravidade do todo. Está sempre ali, misturada com a comédia. E talvez tenha sido precisamente isso que eu demorei a perceber. A leveza, ou boa disposição da atmosfera criada por Szerb, não é necessariamente uma forma de evitar a gravidade. Parece ser, antes, a forma que encontrou para falar dela.

Foi enquanto lia estas partes que pesquisei mais sobre Szerb e a surpresa do que descobri deixou-me ainda mais inquieto.

Antal Szerb nasceu em 1901. O Viajante à Luz da Lua foi publicado em 1937. Szerb tinha 36 anos. Era húngaro, de ascendência judaica, embora tivesse sido baptizado como católico. As leis antissemitas acabaram por afastá-lo do trabalho universitário. Mais tarde, seria enviado para trabalhos forçados, e morto num campo de trabalho em 1945. Além disto, no ano anterior à publicação, em 1936, Szerb tinha viajado pelo país e escrito o diário que viria a ser publicado como The Third Tower, directamente relacionado com a génese de O Viajante à Luz da Lua.

E isso fez-me revisitar inúmeras cenas. Um homem de ascendência judaica a atravessar a Itália de Mussolini e a escrever um romance atravessado pela morte, pelo desaparecimento e pela dificuldade de aceitar a vida adulta.

Szerb não sabia que seria assassinado oito anos depois. É precisamente esse o problema. Mas nós sabemos. E depois de sabermos, torna-se impossível voltar completamente ao livro que estávamos a ler antes.

A ideia de que passamos a existência a entreter a consciência para não pensarmos no dia em que desapareceremos ganha uma ressonância brutal quando sabemos o que aconteceu ao homem que a escreveu.

Não porque Szerb estivesse a anunciar o próprio destino. Mas porque estava vivo. Tinha 36 anos. Escrevia livros. Viajava. Tinha projectos. Pensava literatura. Construía futuro como todos nós construímos futuro. E oito anos depois já não existia.

Há ainda uma segunda dimensão que tornou esta leitura estranha para mim. Szerb escreveu este livro aos 36 anos. Eu estou a lê-lo depois dos 50. Não sei como teria lido Tamás aos 25 ou aos 30.

Provavelmente como uma construção romântica. O jovem belo que se recusa a entrar completamente no mundo adulto e permanece para sempre fixado naquele momento.

Mas a ideia de desaparecer não significa a mesma coisa quando já se acumulou uma quantidade considerável de anos de vida. Já existe carreira. Relações. Família. Escolhas que já não podem ser desfeitas. Pessoas de quem dependemos e pessoas que dependem de nós. Versões anteriores de nós mesmos que já não conseguimos recuperar.

A vida já não é apenas aquilo que ainda podemos vir a fazer. Passa também a ser tudo aquilo que temos de continuar a transportar. E então comecei a compreender de outra maneira aquilo que Mihály procurava em Itália. Não liberdade. Não uma mulher diferente. Nem sequer propriamente a juventude. Talvez procurasse aquilo que nenhum adulto consegue realmente obter: sair durante algum tempo da continuidade de si próprio.

Tamás conseguiu fazê-lo de forma absoluta. Mihály não. Mihály regressa. E Szerb deixa-nos com aquela estranha possibilidade de que:

Enquanto estamos vivos, alguma coisa ainda pode acontecer.

À primeira vista parece uma afirmação luminosa. Mas depois de tudo o que o romance nos fez atravessar, já não tenho a certeza. Porque há uma outra maneira de a ler.

Enquanto estamos vivos, temos de continuar.

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