Da encenação do preto e branco

Há obras que me levam para territórios novos, e há outras que, mesmo estando muito perto dos meus temas de interesse, acabam por me deixar de fora. Foi o que aconteceu com Para Acabar de Vez com Eddy Bellegueule (2014), de Édouard Louis, e com a sua adaptação livre ao cinema em Marvin ou la belle éducation (2017), de Anne Fontaine.

O estranho é que, em teoria, ambos os objetos deveriam ter-me tocado a fundo: uma infância pobre, a violência familiar, a exclusão homofóbica, a fuga pela arte. Tudo elementos que reconheço como centrais e próximos daquilo que procuro compreender. Mas a leitura e a visualização não me deram verdade, deram-me encenação.


Louis abre o livro com uma frase que me deixou logo cético: “Da minha infância, não tenho nenhuma recordação feliz (...) O sofrimento é totalitário.” Mais do que memória, parece proclamação. A partir daí, o texto constrói uma sucessão de episódios de violência e humilhação, sempre levados ao extremo. São escarros na cara, são gatos mortos em sacos de supermercado, são porcos degolados e o sangue bebido, são dentes nunca tratados que continuam a provocar “dores atrozes”. Tudo pode ter acontecido, mas a forma como é narrado soa a catálogo, como se fosse preciso acrescentar mais e mais camadas de horror para convencer o leitor.

Um exemplo claro é o episódio do avô que cai ao cortar o ramo da árvore em que estava sentado. Os pais, ao saberem, riem tanto que lhes falta o ar. A cena já não parece realismo, mas teatro burlesco. O avô reduzido a caricatura da estupidez, os pais a coro cruel. Em vez de humanidade contraditória, temos símbolos. É neste momento que sinto a distância: não estou a ler vida, estou a ler uma encenação.

O meu pai recebeu uma chamada da sua irmã, ou do hospício onde o seu genitor acabou os seus dias. Essa pessoa ao telefone disse-lhe. O teu — o seu — pai faleceu esta manhã, com um cancro, e sobretudo por causa da anca esmagada na sequência de um acidente, a ferida que degenerou, experimentámos tudo, mas não o conseguimos salvar. Ele tinha subido a uma árvore para cortar os ramos e acabou por cortar aquele em que estava sentado. Os meus pais riram tanto quando a pessoa disse essa frase ao telefone que foi preciso tempo para controlarem a respiração. Cortar o ramo onde estava sentado, esse idiota, só ele. O acidente, a anca esmagada.

O filme de Anne Fontaine só veio reforçar esta sensação. Ao contrário do que poderia ter feito, dar corpo às ambiguidades e fissuras, opta pela caricatura. A família é apenas brutal, os colegas apenas cruéis, os intelectuais apenas pedantes. Marvin (nome dado a Eddy!) adulto é filmado como altivo e pretensamente culto, incapaz de revelar outra faceta. O arco narrativo é simplista: aldeia má, fuga, redenção cultural. É a lógica do melodrama, mas invertida.

O que me incomoda tanto em livro como em filme é que me obriguem a olhar para personagens que não são pessoas, não são humanos. Não têm contradições, não têm zonas de sombra. São bonecos criados para ilustrar uma tese. O espectador é pensado como alguém manipulável, alguém que se empurra, e conduz a sentir pena e indignação. Nada disto me diz nada. Não há banalidade, detalhe do sentir contínuo, apenas se escolhe o pior para provocar. Não há gesto ambivalente, tudo tem apenas um sentido, uma leitura.

Tanto Louis como Fontaine parecem não confiar que o real baste por si. Precisam de o teatralizar, de o inflacionar, simplificar em preto e branco, para mostrar apenas a negrura. O resultado é que, em vez de sair ferido, saí indiferente. E não há pior destino para uma obra que se quer feita de dor.

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