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Sussurros (2007) de Orlando Figes

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O que " The Whisperers: Private Life in Stalin's Russia " (2007), de Orlando Figes, faz não é apenas contar o terror político soviético. Outros livros já contaram o terror político soviético. Este vai mais fundo: entra na vida interior das pessoas que viveram debaixo desse regime. Mostra como a política entra na cabeça, na família, no que se pode ou não dizer à mesa, no que se confia aos filhos, no que se cala até ao fim da vida. É um livro sobre medo, mas não o medo “lá fora”, dos uniformes e dos interrogatórios. É o medo que mexe na gramática do dia-a-dia. O medo que ensina o corpo a falar mais baixo. Em Figes, o "sussurro "( whisper ) não é um recurso poético. É uma técnica de sobrevivência. Fala-se em voz baixa porque as paredes ouvem, porque o vizinho pode denunciar, porque o filho pode repetir na escola. A frase inteira deixa de ser um direito. Fica apenas é um resto de voz, num corredor, numa cozinha, numa cama partilhada. Foi este livro que me obrigou a ...

Nuremberga (2025)

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Terminei Nuremberga  (2025) com uma sensação clara: este é um filme tecnicamente competente, com atores sólidos e um mundo bem construído, mas falha no ponto essencial. Falha na forma como representa Hermann Goering. E falha de um modo que considero grave. Começo pelo que funciona. Hollywood sabe bem criar mundo. A atmosfera institucional e o peso visual da época são muito bem feitos. O filme tem textura e transmite credibilidade visual. Os atores ajudam a sustentar esse mundo. Russell Crowe, Michael Shannon e o resto do elenco têm presença e dão corpo às figuras históricas.  O problema não está na encenação nem nas interpretações isoladas. Está no guião e na construção dramática. O filme é montado em sequências curtas, pensadas para provocar emoção rápida, mas raramente desenvolve pensamento ou conflito até às últimas consequências. São “bocados” de cenas, “bocados” de conversas, “bocados” de tensão, que se sucedem sem verdadeira progressão. Não há tempo para conhecer ninguém...

"Sentimental Value" (2025) de Joachim Trier

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"Sentimental Value" solicita um investimento excessivo do espectador, sem que a sua arquitetura narrativa o sustente o suficiente. A sequência inicial, marcada por autoconsciência e teatralização, compromete desde cedo o pacto de adesão, ao expor os seus próprios dispositivos antes de instaurar densidade dramática. Em lugar de permitir que os afetos emerjam progressivamente da ação, o filme apoia-se reiteradamente em pausas formais, ecrãs negros e mecanismos de explicitação indireta que operam mais como sinais de profundidade do que como aprofundamento da experiência. Ainda assim, é possível identificar momentos de autenticidade que emergem apesar das fragilidades estruturais do conjunto. A saída de Elle Fanning introduz um princípio de fricção e de deslocamento interno que o filme até então evitara. A partir daí a personagem da irmã mais nova, interpretada por Inga Ibsdotter Lilleaas, afirma-se em crescendo como o verdadeiro eixo emocional da narrativa. É sobretudo no seu co...

Contos dos Subúrbios (2025) de Karim Vali

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" Contos dos Subúrbios" não se impõe por surpresa, mas por nitidez. A escrita de Karim Vali é limpa, controlada, muitas vezes elegante, uma escrita que sabe o que está a fazer e onde se posiciona. Cada conto avança com segurança, sustentado por uma consciência clara do mundo contemporâneo e das suas fraturas: identidade, pertença, desigualdade, olhar social. O que se reconhece de imediato no livro é a sua capacidade de falar de vidas correntes, de pessoas que atravessam o quotidiano carregando um peso interior constante, raramente nomeado. A atenção está aqui focada na experiência subjetiva daqueles que vivem nos interstícios, entre classes, entre identidades. Não é uma atenção sensacionalista; é reflexiva.  A escrita de Vali é profundamente consciente do seu tempo. Tudo é depurado em conceitos e categorias, a ponto de, por vezes, o real já se apresentar como explicação. O sofrimento, o desconforto, surgem filtrados por uma grelha interpretativa, quase demasiado sólida. O le...

A Leste do Paraíso (1952) de John Steinbeck

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"A Leste do Paraíso", de John Steinbeck, opera sobre uma falha monumental. A narrativa assenta numa leitura direta do mito bíblico de Caim e Abel — um mito que nunca considerei intelectualmente sustentável: Deus escolhe Abel, não explica porquê; Caim reage e torna-se o culpado absoluto. Narrativamente, isto é um erro básico. Eticamente, é um crime simbólico. Personagens sem motivações compreensíveis, ações sem causa explicada e uma moral arbitrária imposta por autoridade — não construída por experiência humana — ensinam apenas que a exclusão pode ser arbitrária, que a culpa pode preceder a ação e que um ser humano não precisa de ser compreendido para ser condenado. Steinbeck transpõe este modelo para um romance que se apresenta como realista, mas o resultado é profundamente frágil: personagens que são boas ou más “porque sim”, um mal tratado como essência e não como processo, e um conflito humano reduzido a alegoria infantil. Não encontro aqui realismo, nem naturalismo, ...

Os Despojos do Dia (1989) de Kazuo Ishiguro

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"The Remains of the Day" (1989), de Kazuo Ishiguro, é um livro que comecei a ler com muita abertura. Queria entrar na cabeça do personagem e compreender o mundo a partir do seu lugar. Não tinha qualquer intuição de falhas. Pelo contrário: durante o primeiro terço, não tive qualquer dúvida da enorme qualidade. Stevens é meticuloso, reflexivo, vive intensamente dentro da cabeça, algo que reconheço bem. Mas à medida que a leitura avançava, comecei a sentir um desconforto difícil de ignorar. O livro não me estava a pedir apenas uma empatia exigente ou incómoda; estava a pedir algo mais problemático: que eu aceitasse como humano um sujeito cuja relação com o sofrimento começava a parecer estranhamente inexistente. Só mais tarde percebi que o problema não era de contenção emocional. Stevens não é um homem reprimido. É um homem imune ao sofrimento. E é aí que tudo começa a falhar. O humano que não paga preço Ao longo do romance, Stevens atravessa acontecimentos que, em qualquer ser...

Do Lado Dela (1949) de Alba de Céspedes

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Entrei em " Dalla Parte di Lei " (1949) com muita sede. Gosto muito de Alba de Céspedes e considero O Caderno Proibido  (1952) um dos meus livros preferidos de sempre. Por isso quis dar a este romance a mesma atenção. E dei. Mas acabei frustrado — não por falta de talento da autora, mas por um artifício narrativo que me parece, ao mesmo tempo, inteligente e problemático. Audiolivro narrado por Carlotta Brentan, a partir da tradução de  Jill Foulston Primeiro, uma correção importante: eu cheguei a pensar que este seria um romance de estreia, ainda imaturo. Afinal não é. Foi publicado apenas três anos antes de O Caderno Proibido . Portanto, a complexidade já estava lá. O que muda aqui não é falta de capacidade. É uma escolha. O livro chama-se “ Do Lado Dela ”, em italiano; em português, ficou " Confissão ” e, em inglês, " O Lado Dela da História " . Nenhum destes títulos é inocente. Eles preparam o leitor para aceitar, desde o início, que isto não é “a verdade”,...

Big Kiss, Bye-Bye (2025) de Claire-Louise Bennett

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Há livros que não se lêem: instalam-se. Big Kiss, Bye-Bye  (2025) pertence a esse território raro onde a literatura não avança por enredo nem por personagens no sentido clássico, mas por presença. O que Bennett constrói aqui não é uma história sobre uma relação; é antes a exposição contínua da consciência em ação, lúcida, por vezes cruel, mas viva, sempre a pensar-se a si própria enquanto vive. Aquilo que mais rapidamente nos captura é a voz. Uma voz de oralidade insistente e auto‑correctiva, que não relata acontecimentos depois de pensados, mas pensa enquanto fala e fala enquanto pensa. Não existe aqui a distância confortável entre a experiência e a linguagem. O texto nasce no mesmo plano em que a experiência se forma. As frases avançam com hesitações, desvios, e correções como método. Não se trata de fluxo de consciência, nem de fragmentação; trata‑se antes de uma consciência que se observa a si própria em tempo real. Um dos momentos mais intensos do livro — um longo monólogo int...

Hyperion (1989), com uma visão particular da IA

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"Hyperion" , (1989),  de Dan Simmons, é ficção científica que não procura ser coerente nem imediatamente compreensível. Em vez disso, propõe um universo de estranheza total: neologismos, planetas indecifráveis, entidades mecânicas que ultrapassam o simbólico, e uma política interplanetária que parece surgida de um sonho febril. Mas que funciona, e muito bem.  O primeiro impacto é o da densa arquitetura do desconhecido . Simmons cria um universo que nunca está inteiramente ao nosso alcance, e quer que assim seja. Percebemos que há coerência interna, há um plano, há um mundo firme por detrás das palavras. Mas esse mundo não se abre de imediato. Requer rendição, paciência, e a aceitação de que grande parte do fascínio está precisamente naquilo que não compreendemos . Baseado na estrutura dos " Canterbury Tales " , (1892) de Geoffrey Chaucer, o romance divide-se em seis narrativas contadas pelos peregrinos que se dirigem aos Túmulos do Tempo. É aqui que reside o maior ...

One Battle After Another (2025)

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Há filmes que vivem do excesso, do risco. E há outros que vivem da sensação de risco, sem nunca se aproximrem dele.  One Battle After Another é o segundo caso: um dispositivo de alta energia estética, muito barulho, muita pose, muita coreografia, e uma espantosa ausência de pensamento por baixo do verniz. Isto é um vazio profundo O filme é vendido como sátira política à América polarizada, mas o que encontramos é mais simples e muito mais pobre. Os grupos revolucionários que deveriam carregar uma experiência histórica, um legado de violência, de clandestinidade e de resistência real, aparecem retratados como crianças hiperativas a brincar aos códigos secretos. No extremo oposto, o “vilão” da extrema-direita é uma caricatura que não exige reflexão: basta uniforme, rigidez e frases ocas. No fim, ambos os lados são reduzidos à mesma idiotia simbólica. É o sonho da direita americana: antifa e supremacistas como palhaços equivalentes numa fantasia sem consequências. O mais perturbador...

La Maison vide (2025)

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Há escritores que nos surpreendem pela capacidade de inventar mundos; Laurent Mauvignier surpreende, antes de mais, pela forma como nos faz entrar dentro de consciências frágeis, quebradas, e pela coragem de nos manter ali, nesse interior ferido, o tempo suficiente para que reconheçamos algo de nosso. " La Maison vide" (2025) , que li agora depois de " Histoires de la nuit"  (2020) e de "Continuer" (2016) , confirma aquilo que já suspeitava: há, na obra de Mauvignier, uma arte particular de fazer literatura a partir da tensão interior, uma maneira de escavar a vida emocional que poucos conseguem com esta profundidade. O impacto veio em três etapas. Histoires de la nuit foi a primeira explosão: um romance que é, ao mesmo tempo, thriller , tragédia e estudo sobre o silêncio social. Continuer revelou outro lado, uma relação mãe-filho atravessada por ressentimento e ternura, escrita com vibração entre dois interiores que não se conseguem tocar. Mas "La...

À Chegada (2022)

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À Chegada ( Upon Entry ) (2023) é um filme mínimo, seco e devastador. Não pela intriga, quase inexistente, mas pela forma como opera no corpo do espectador. O argumento é simples: um casal que chega aos Estados Unidos para iniciar uma nova vida é retido no controlo de imigração e submetido a um interrogatório cada vez mais intrusivo. O que o filme disseca não é o sistema migratório; é o lugar secreto onde uma relação se pode partir. O que impressiona é a precisão quase cirúrgica das performances de Bruna Cusí e Alberto Ammann. O filme não vive do diálogo, mas daquilo que os corpos deles deixam escapar: o tremor na respiração dela, o maxilar crispado dele, a hesitação mínima que acende a suspeita, o olhar que já não encontra o do outro. A câmara mantém-nos presos a estas microfissuras. Há um realismo tão absoluto que, por momentos, desaparece a sensação de estarmos a ver ficção, o desconforto é físico. A tensão cresce não pelo risco externo, mas pela assimetria interna. Ela vem de um ...

Proust, roman familial (2023), Laure Murat

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Há uma aristocracia francesa que sobreviveu à Revolução sem nunca verdadeiramente cair. Não desapareceu: adaptou-se. Conservou títulos, rituais e, acima de tudo, uma forma de estar onde tudo se decide na superfície: nos modos, na contenção, na etiqueta, que funcionam como código moral. Laure Murat nasceu dentro desse mundo. É a partir dessa origem que escreve " Proust, roman familial" (2023). O livro não é um estudo académico sobre " A la Recherche du Temps Perdu " (1913-1927). É mais íntimo e mais incisivo: Murat lê Proust a partir da ferida de ter pertencido ao mesmo universo que ele descreveu e criticou. E, ao fazê-lo, mostra que a aristocracia francesa não é um resquício do passado, mas uma forma de vida ainda ativa, estrutural, discreta e eficaz. A ideia central é simples e terrível: na aristocracia, a vida não se vive, representa-se.  A imagem é a lei. A intimidade, o desejo, o sofrimento, a identidade, tudo deve permanecer dentro do quadro previamente defini...

Vadio (2022), Simão Cayatte

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Há filmes em que o poder não vem do guião, mas da forma como a câmara decide existir no espaço. Vadio é um desses filmes. A história de dois jovens que se encontram num país cansado poderia ter caído na ilustração moral ou no comentário social previsível. Mas Cayatte filma de perto — quase demais — e essa proximidade altera tudo. A câmara está colada ao corpo. Não observa: acompanha. O movimento dos ombros, o respirar curto, a maneira de desviar o olhar; é aí que se joga o filme. A referência é clara: os irmãos Dardenne. A narrativa não se constrói por explicação psicológica, mas pela força física de estar no mundo. É por isso que Rubén Simões, o miúdo, carrega o filme. Ele não interpreta sofrimento: ele move-se como alguém que o conhece. Há verdade no gesto, no ritmo com que suporta a rua, no modo como protege o silêncio. A parceria com Joana Santos funciona, mas é ele que dá densidade, gravidade, permanência. O problema é que o guião tenta conduzir o drama. Há um tema forte — o a...

On Falling (2024), Laura Carreira

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O filme de Laura Carreira, "On Falling", tem ambição e delicadeza, mas falha onde mais importa: na credibilidade do mundo que constrói. A protagonista, trabalhadora de um armazém na Escócia, cai numa espiral de pobreza e solidão depois de gastar 99 libras a reparar o telemóvel. O gesto é apresentado como o início da derrocada: sem comida, sem eletricidade, sem saída. O problema é que nada disso é verosímil. Numa Europa onde o custo da alimentação básica é baixo, e onde quem tem um contrato de trabalho legal dispõe de mínimos sociais, a ideia de alguém ficar sem comer por causa de um vidro de telemóvel parte de uma falsificação do real. Não é a miséria que o filme retrata, é o desamparo convertido em metáfora. Carreira não quer mostrar o realismo económico de uma vida precária, mas o desligamento existencial de quem já não sente pertença. No entanto, quando o filme se ancora num cenário reconhecível, um armazém de vendas online, a Escócia contemporânea, o espectador espera ...

Olhem Para Mim (1983), Anita Brookner

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No quarto capítulo de "Look at Me", quase desisti. Havia detalhe a mais, descrição a mais, e eu sentia que a história se perdia na observação do insignificante. Mas continuei e, sem perceber bem quando, comecei a querer voltar àquele mundo. Um mundo pequeno, contido, quase imóvel. Um terrário de emoções: tudo o que acontece lá dentro está delimitado e, por isso mesmo, seguro. Anita Brookner constrói o mundo como quem organiza uma casa demasiado silenciosa; cada gesto, cada frase estão no sítio certo; com um ar é espesso, de contenção. Frances Hinton, a narradora, é uma mulher que vive rodeada de outros e, ainda assim, à margem. Observa-os, descreve-os, tenta compreendê-los. É através dessa observação obsessiva que sobrevive à ausência da chamada vida vivida. O que antes me cansava — o detalhe — acabou por se tornar a própria razão da minha admiração. Brookner não descreve para enfeitar: descreve para existir. O olhar é o corpo da sua personagem. E é por isso que "Look at...

A House of Dynamite (2025), Kathryn Bigelow

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No início, parece mais um filme sobre crise nuclear. O presidente, o estado-maior, os protocolos, os ecrãs. Acreditamos que vai haver uma decisão. Que alguém vai fazer o que é certo. É isso que o cinema nos ensinou: há sempre uma solução. Mas A House of Dynamite vai desmontando essa crença, plano a plano, até restar só o vazio. A certa altura percebemos que nada do que fizerem importa. Que lançar ou não lançar é o mesmo. Que a defesa é uma ilusão moral. E é nesse momento que o filme deixa de ser ficção e passa a realidade sem disfarce. O mundo pode acabar com um míssil, e ninguém pode travá-lo. Não há tempo, não há sistema, não há escudo. A civilização inteira depende da sanidade de quem carrega num botão. O vice-presidente telefona à filha e não diz nada. Esse silêncio é o retrato da verdade: já não há o que dizer. E depois põe fim à lucidez. Porque compreende que a vida, a família, o país, tudo o que o definia, deixou de ter relevância. O futuro já não existe. Bigelow não most...

Task (2025), Brad Ingelsby

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Há séries que começam bem demais. O primeiro episódio de Task (2025) pertence a essa categoria: uma narrativa que se basta a si mesma, um conto trágico de 60 minutos que nos preenche por completo . Tudo está ali: o erro fatal, a culpa, o amor deformado, a fé perdida e a tentativa impossível de redenção. Robbie, o irmão de rosto angelical, é o centro emocional, um homem que acredita agir por justiça e acaba a destruir o que queria salvar. A sua expressão de pureza faz dele um anjo em queda, o espelho invertido do agente vivido por Mark Ruffalo, cuja contenção é penitência. Juntos, encenam o conflito eterno entre a lei e a compaixão, o cálculo e o impulso. Quando Robbie leva o miúdo para casa, na cena final, a série atinge o sublime trágico . A luz é fria, o silêncio pesa, e cada movimento parece carregado de um significado moral que excede as palavras. Nesse instante, o espectador percebe: tudo o que importa já foi dito. É o hamartia aristotélico, a falha que revela a alma. O probl...

Chuva Pesada (1966), Don Carpenter

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Há livros que parecem destinados a entrar no cânone e, no entanto, ficam à porta.  Chuva Pesada  é um desses casos, admirado, citado, mas raramente amado. A leitura é envolvente e contínua. Seguimos Jack como quem observa uma mente em movimento, tentando perceber o que o conduz, o que pensa, o que o impede de parar. Há uma coerência narrativa que prende e cria expectativa, como se algo decisivo estivesse sempre prestes a acontecer. Mas esse momento nunca chega. Carpenter constrói Jack não como uma personagem, mas como uma persona,  uma figura pensada para representar um tipo de homem. O problema é que, quando o leitor não se reconhece nesse tipo, a identificação quebra-se. Jack, órfão, ladrão, alcoólico, boxista, prisioneiro, acumula experiências, mas não ganha espessura. Acompanhamos o percurso, mas não sentimos proximidade. Quando Carpenter tenta transformá-lo num homem culto, interessado em Dostoiévski e na ópera, o texto perde verosimilhança. A reflexão filosófica s...

Pés de Barro (2025), Nuno Duarte

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O romance de estreia de Nuno Duarte, vencedor do Prémio LeYa 2024, abre com a força rara de quem parece dominar a frase longa como poucos. A oralidade ritmada, a torrente de factos e a energia descritiva criam um efeito de fluxo contínuo que arrasta o leitor. É uma escrita de cadência popular, quase falada, com o vigor das grandes vozes narrativas da oralidade. À primeira leitura, Pés de Barro impressiona. Soa a novo, a ousado. Parece dar corpo, finalmente, a um quotidiano português raramente representado com tal vitalidade. Mas a torrente, que se apresenta como espontânea, é na verdade um exercício de construção documental . Duarte compõe o seu fluxo a partir de enxertos: efemérides, acidentes, notícias, referências históricas, slogans de época. Tudo entra — o desastre do Cais do Sodré, o incêndio do Teatro D. Maria, a morte de JFK, os Beatles, o “nosso Vietname”, o Sporting na Taça das Taças. É uma sucessão de acontecimentos colados de fora para dentro, um inventário onde o efeito e...